"Meu caminho é por mim fora."

25/12/2012

Marco


Tia - Não era ontem que dava o Marco?
Mãe - Não... era... era, era ontem, era !
Eu - Não era no Domingo?!
Mãe - O Domingo foi ontem!
Eu - Eu sei lá!


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23/12/2012

Setembro



Era um dia perdido no mês de Setembro e eu não tenho muitas recordações desse dia, desse mês, desses tempos. A mãe vinha-me preparando com livros de aprendizagem do alfabeto e dos números. Nessa época a vida não era mais do que ver desenhos animados e comer bolos caseiros. De quando em vez aparecia alguém em nossa casa e eu brincava à sua volta. Era normal perguntarem-me a idade e sobre quando iria entrar para a escola, eu não ligava muito a essas conversas.
Naquele dia a mãe levou-me à escola onde andava o meu irmão com material por estrear. Recordo-me desse dia como um marco negro, uma tempestade, um dia muito difícil. Tenho a ideia que nesse dia principiou uma revolução lenta na minha vida, quase como uma "romanização".
Nos dias que correm a escola e a vida são uma rotina, raramente há algo de novo, raramente há algo pelo qual me surpreender. A escola é agora tão-somente o ponto de partida para um Futuro escuro e incerto. 
Mas lembro os dias que se passaram depois da entrada para a escola, foi terrível, mas tudo se acalmou.
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02/12/2012

Histórias do Fim da Rua


"Quando morreu o pai do Nazarinho já eu vendera o tambor, o bombo não. Morte mais parva! Então, o homem, embarcadiço, fartinho de penar por esses mares, gramando borrascas e aflições, dois naufrágios - e vem lerpar afogado no tanque da comadre Lucília, ainda por cima com maré baixa!"

Mário Zambujal
Histórias do Fim da Rua
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20/11/2012

Rosas


Apareceu-me por entre as rosas que o Sol doirava, como miragem os seus cabelos balançavam com a brisa e os seus olhos ardiam ao mirar-me. Eram seis da manhã, o dia estremunhava em silêncio. Tinha temor e não o sentia. Colocava-se frente a mim e eu contida vigiava de longe, enquanto ele acarinhava as rosas e lhes vomitava sangue. Cantava em suspiros e toda aquela imagem serena de sofrimento afligia-me. O frio arrepiava-me e eu tremia de susto.
Ele afagava as rosas e pintava-as com sangue, ao mesmo tempo que cantava músicas inexplicáveis e eu comedida no meu tormento encerrava-me no meu interior. Ele afagava as rosas... Era cedo de mais, era cedo de mais para qualquer visão, para qualquer cousa.
Quando bateu sete na torre da igreja desapareceu por entre as rosas como milagre.
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15/11/2012

Diálogo ridículo




*Língua Inglesa

A professora chama a atenção a uma aluna que tapa a cara com o cabelo para falar com o colega do lado: 

- Olha outra cortina! Sabes para quem estou a falar não sabes, M*?...  Esta é a turma dos cortinados!

R. - Porque é que a nossa turma é a turma dos cortinados?
Prof. - Este só ouviu agora!
I. - Porque todos os nossos antepassados tiveram lojas de decorações.
R. - Os meus não!
I. - Como é que sabes?
R. - Porque são todos trolhas e agricultores!
I.- São todos trolhas e agricultores?
R. - Sim! O meu avô é lavrador!
Prof. - E o que é que isso tem?
R. - É lavrador de profissão.
Prof. - Sim, e o que é que isso tem?
R. - É honesto!
Prof. - ... E só os lavradores é que são honestos?! ... As outras pessoas de outras profissões não são honestas?
R.- ... não sei! O meu avô é honesto! 
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01/11/2012

28/10/2012

Cantigas D´Assim Gostar


Quantas trovas d´amor eu vi
Quantas coitas de não cantar
Os amores que não senti
Nas cantigas d´assim gostar
Não me deixes trovar assim 
Sem que sejas amo de mim.

Amigos que flores tereis
Nas vossas palavras d´amor
Que mais parecem negras leis
Avessas a este cantor
Não me deixes trovar assim
Sem que sejas amo de mim.

Os provençais trovam com fé
E mil modos de nos dizer
O que quase sendo não é
Nada mais que muito querer
Não me deixes trovar assim
Sem que sejas amo de mim.

Nelson de Azevedo Ferraz

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15/10/2012




Eu nunca fotografo nada.
Às vezes lembro-me de lugares por onde andei.
E são imagens soltas... Desconectadas de tudo.
E ando sempre à procura de onde eu as tirei.
Maior parte são sonhadas.

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14/10/2012

08/10/2012

Um copo de água



- Chegue-me um copo de água, se faz o favor.
- Chego já.
- E lave-me as mãos.
- Se fosse preciso...
Estendi-as.
- Leve-as!
Era o meu único desejo...
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05/10/2012

Levad´amigo que dormides las manhãas frias



Levad´amigo que dormides las manhãas frias;
todalas aves do mundo d´amor dizian:
  leda m´and´eu!

Levad´ amigo que dormide´-las frias manhãas;
todalas aves do mundo d´amor cantavan:
  leda m´and´eu!

Todalas aves do mundo d´amor dizian;
do meu amor e do voss´en ment´avian:
  leda m´and´eu!

todalas aves do mundo d´amor cantavan;
do meu amor e do voss´i enmentavan:
  leda m´and´eu!

Do meu amor e do voss´en ment´avian;
vós lhi tolhestes os ramos en que siian:
  leda m´and´ eu!

Do meu amor e do voss´i enmentavam;
vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam:
  leda m´and´eu!

Vós lhi tolhestes os ramos en que siian
e lhi secastes as fontes en que bevian:
  leda m´and´eu!

Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam
e lhi secastes as fontes u se banhavan:
  leda m´and´eu!

Nuno Fernandez Torneol

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02/10/2012

Vitorino - Tinta Verde




Tinta verde dos teus olhos
Escreve torto no meu peito
Amores tenho eu aos molhos
Se pró teu me faltar jeito

No meu peito escreve torto 
Na minha alma a dar a dar
Nunca mais eu chego ao Porto
Se lá for por este andar

Nunca mais eu chego ao Porto 
Ao porto de Matosinhos
Adeus verde dos teus olhos
Estão cá outros mais ecurinhos
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30/09/2012

Não se perdeu nenhuma coisa em mim


Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim.
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

Sophia de Mello Breyner  Andresen 



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27/09/2012

As Misérias da Vida Humana


...
E no tempo em que repousa no leito, o sono da noite perturba-lhe as ideias.
Ele repousa pouco, ou quase nada, e mesmo no sono, como sentinela durante o dia, é perturbado pelas visões do seu coração, como um homem que foge do combate; quando se imagina em lugar seguro, desperta, e admira-se do seu vão temor.
...

Eclesiásticos
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25/09/2012

Moonlight Sonata




O mar batia fortemente nas rochas e o tempo passava-se com demora. Era o fim da vida e o começo do Mundo. O som do nada pesava como camiões. Todo o sossego era desconcertante. Todo o barulho era silêncio. Todas as rosas eram sangue.
No desequilíbrio dos sons eu sonhava, eu já só sonhava! O Sol do meu desassossego doirava-se nas pingas de chuva e enchiam-me os cabelos.A mão ao peito sentia o sangue escorrer-me como ouro mais fino. Eu inda o esperava, naquelas tardes frias... eu inda era barco ancorado. E no mar eu conseguia ouvi-lo cantar. Eu conseguia destingir o seu choro do silêncio todas as vezes em que eu me ia perder...
Latejava o coração no peito e o mar batia nas rochas. Todo o amor era só poesia.


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20/09/2012

Cantiga, Partindo-se



Senhora, partem tam tristes
Meus olhos por vós meu bem,
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
Tam doentes de partida,
Tam cansados, tam chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
Tam fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castelo Branco
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Nove Horas


(Numa segunda aula de Literatura Portuguesa)


O relógio apontava nove horas da tarde. O salão estava quase vazio. As luzes espelhavam-se nos vidros prolongando-se pela cidade. Lá fora as pessoas caminham, outras apitavam com os carros e os gatos procuravam um abrigo. Era Inverno. Era Inverno dentro de mim e lá fora. No salão o quente dos chás era reconfortante. Bebiam-se a queimar a garganta e tudo se mantinha estranhamente em ordem.
Eram nove e o estabelecimento iria ser fechado dali a uma hora. Eu aproveitava aquele lugar tranquilo e harmonioso memorizando cada detalhe da decoração. A quietude apoderava-se da minha alma. Apenas o silêncio e o quente dos chás.
A moça bebia o seu chá de tília e olhava as suas mãos na chávena, como quem quer fugir do que se pensa e não pode... e não consegue. Eram nove horas, eternas nove horas e tudo se acalmava lá fora, porém eu não via, não percebia, só sentia. A moça chamava-me a atenção e eu olhava-a certo que não me via. O seu chapéu claro contrastava com as cores fortes do vestido e do casaco. Bebia, olhava sem olhar e pensava. Eu sentia tão-somente.
Levantei-me, vesti o casaco e preparei-me para sair. A moça olhou-me... e nesse momento partilhamos solidões.
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18/09/2012

Tanto de meu estado me acho incerto



Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém por que assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís Vaz de Camões
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15/09/2012

Bucólica



A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia 
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha. 


Miguel Torga
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10/09/2012

05/09/2012

Minha barca aparelhada


Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com Rumo à Estrela Polar. 

António Geadão


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03/09/2012

Era dia, mas já é noite.


A camisa estava cheia de cola branca e o cabelo desamarrava-se com o vento, mas era um dia especial de Sol para aproveitar a sombra das árvores da igreja.
Era dia, mas já é noite.
E as pessoas caminham lá fora, andam depressa e falam alto e falam muito alto, falam tão alto que me quebram a linha do pensamento. Eu ... bebo dessas conversas de rua e falta-me sempre mais... e eu continuo esperando.
Aguardando com trinta dias para amadurecer, vinte e oito dentes, seis botões de camisa, duas orelhas vermelhas e um coração partido. E "mais vale tarde do que nunca"... Porque, tudo o que eu não tenho é tudo que eu preciso.
A porta de todos os lugares secretos continua aberta e quem não adormece à noite é porque não tem pelo que acordar.
Foram tempos de colheitas fartas, foram tempos de acácias, amores perfeitos, cravos, crisântemos, dálias, girassois, hortências, jasmins, lírios, foram tempos de felicidade. Foram enquanto os dias eram longos e nós eramos fortes.
Mas até o amor ficar gasto eu tenho esperança, eu continuo esperando...
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27/08/2012

Mew - Conforting Sounds




I dont feel alright
in spite of these comforting sounds you make.
I dont feel alright
because you make promises that you break.
Into your house,
why dont we share our solitude?
Nothing is pure anymore but solitude.
...

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21/08/2012

18/08/2012

Ausência



Lúgubre solidão! Ó noite triste! 
Como sinto que falta a tua Imagem 
A tudo quanto para mim existe! 

Tua bem-dita e efémera passagem 
No mundo, deu ao mundo em que viveste, 
À nossa boa e maternal Paisagem, 

Um espírito novo mais celeste; 
Nova Forma a abraçou e nova Cor 
Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste! 

E ei-la agora tão triste e sem verdor! 
Depois da tua morte, regressou 
Ao seu velhinho estado anterior. 

E esta saudosa casa, onde brilhou 
Tua voz num instante sempiterno, 
Em negra, intima noite se ocultou. 

Quando chego à janela, vejo o inverno; 
E, à luz da lua, as sombras do arvoredo 
Lembram as sombras pálidas do Inferno. 

Dos recantos escuros, em segredo, 
Nascem Visões saudosas, diluídos 
Traços da tua Imagem, arremedo 

Que a Sombra faz, em gestos doloridos, 
Do teu Vulto de sol a amanhecer... 
A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos... 

Mas eu que vejo? A luz escurecer; 
O imperfeito, o indeciso que, em nós, deixa 
A amargura de olhar e de não vêr... 

A voz da minha dor, da minha queixa, 
Em vão, por ti, na fria noite clama! 
Dir-se-á que o céu e a terra, tudo fecha 

Os ouvidos de pedra! Mas quem ama, 
Embora no silencio mais profundo, 
Grita por seu amor: é voz de chama! 

E eu grito! E encontro apenas sobre o mundo, 
Para onde quer que eu olhe, aqui, além, 
A tua Ausência trágica! E no fundo 

De mim proprio que vejo? Acaso alguem? 
Só vejo a tua Ausência, a Desventura 
Que fez da noite a imagem de tua Mãe! 

A tua Ausência é tudo o que murmura, 
E mostra a face triste à luz da aurora, 
E se espraia na terra em sombra escura... 

Quem traz o outono ao meu jardim agora? 
Quem muda em cinza o fogo do meu lar? 
E quem soluça em mim? Quem é que chora? 

É a tua Ausência, Amor, que vem turbar 
Esta alegria etérea, nuvem, asa 
De Anjo que, às vezes, passa em nosso olhar! 

O Sol é a tua Ausência que se abrasa, 
A Lua é tua Ausência enfraquecida... 
Da tua Ausência é feita a minha vida 
E os meus versos também e a minha casa. 




Teixeira de Pascoaes
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17/08/2012

Céu e Tristeza


Tu és o poema.
a árvore de fruto
o Sol
o filho varão
a água cristalina
a verdade...

Eu sou o poeta.
a árvore tombada
a Lua
o filho enjeitado
o vinho envenenado
a mentira...

Tu és a alegria.
Eu sou a infelicidade.

Tu és a alegria.
Eu ... sou.
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14/08/2012

Dei-te vários nomes exóticos e raros


Dei-te vários nomes exóticos e raros, 
iguais aos que se dão 
aos amigos imaginários:
Nicolau, Teobaldo, Belisário.
Levavas uma eternidade 
a chegar e a partir
e eu invejava a infinita calma
dos teus movimentos ancestrais e meditados.
Eu queria que tu fosses a paciência 
capaz de apaziguar a minha pressa. 
Quando desapareceste da varanda alta
da minha casa virada a sul, 
imaginei que te tinha dado a pressa de voar. 

José Jorge Letria
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03/08/2012

Lembranças que lembrais meu bem passado


Lembranças, que lembrais meu bem passado
para que sinta mais o mal presente:
deixai-me, se quereis, viver contente, 
não me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
viver, como se vê, tão descontente,
venha, se vier, o bem por acidente,
e dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito milhor é perder a vida, 
perdendo-se as lembranças da memória,
pois tanto dano faz ao pensamento.

Assi que nada perde quem perdida 
a esperança traz da sua glória,
se esta vida há-de ser sempre em tormento.


Luís de Camões
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01/08/2012

A Direcção do Sangue


Quando se viaja sozinho
pelas imagens que perduram
as evocações ganham um modo tão real
A mancha ténue dos arbustos
indica o caminho para o regresso
que nunca há
o mar ficou de repente perto
sobre esta praia travámos lutas
para as quais só muito depois
encontramos um motivo
era à pedrada que nos defendíamos
do riso mais inocente
ou de um amor
Mas aquilo que nunca esquecemos 
deixa de pertencer-nos e nem notamos
Estamos sós com a noite
para salvar um coração

José Tolentino Mendonça
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27/07/2012

A chuva cai, a chuva cai


Do canto da janela eu observo a calmaria que se instala nas ruas, e uma ténue monotonia apodera-se do tempo. A chuva cai, a chuva cai, eu ouço-a cair, é apenas um fim de tarde de Sexta inundada num triste sossego. O vento faz as roupas do estendal estremecerem-se. Tento preencher o vácuo da minha alma, mas tudo acontece em outros locais, onde o Sol invade a vida dos outros… 
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26/07/2012

Estou bem


Não ando desesperado por encontrar uma senhora que preencha os meus requisitos e me faça um homem feliz. Também não ando com grande vontade de ser feliz. Sou demasiado preguiçoso para mudar de sentimentos e eu estou bem de qualquer das formas.
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15/07/2012

Relato pequeno de uma noite


Vinte e três e vinte e quatro. Muito tarde para se estar acordado, quando todos dormem ou atentam-se ao sono. Depois de um Domingo sereno a passear entre a casa de amigos e festas urbanas, o corpo pesa-me uma pena. Chegado a casa ligo a televisão e afago os móveis, há em mim uma necessidade descomunal de aproveitar cada canto da minha casa. É hora de dormir e como sempre eu estou acordado. Esta manhã faltei-me de primeira vez à missa. Sentia-me completamente cansado, dorido, os olhos fechavam-me quando tentava abri-los. Mas agora não sinto frio, não sinto exaustão, não sinto tristeza, nem felicidade. Estou acordado. Estou acordado, apenas. Nem os cães ladram ou pedem mimos. Não se ouve o fogo-de-artifício ao longe e nem há com quem se disponha a conversar.
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25/05/2012

A Casa dos Espíritos, excerto


"Esvaziei-me por dentro como um balão picado, foi-se-me todo o entusiasmo. Fiquei sentado na cadeira olhando o deserto pela janela, quem sabe por quanto tempo, até que lentamente a alma me voltou ao corpo."
A Casa dos Espíritos, Isabel Allende 
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22/05/2012

Para os Amigos



De entre todos, apenas vós 
tendes direito a ver-me 
fracassar. Onde caio 
entre a vossa irónica 
doçura implacável, convosco 
partilho o pão e o espaço 
e a rapidez dos olhos 
sobre o que fica (sempre) 
para dar ou dizer. 
E de vós me levanto 
e vos levo pesando 
e ardendo até onde 
me ajudais a ser 
melhor ou talvez 
menos só.

Vítor Matos e Sá

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Muito tarde




Talvez quisesse vir comigo jazer na terra e sentir o corpo preso ao solo fecundo, os suaves raios de Sol a tocar-lhe a cara, os olhos cerrados, a mente a deliciar-se com as boas recordações e a desfrutar a quietude, segurar a terra com um sorriso de esperança… que não nos iríamos converter em fotos empoeiradas, a memória esquecida e o Passado sem importância. Talvez quisesse, mas eu sempre fui sozinha e agora é sempre tarde demais.  
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21/05/2012

BURNT NORTON



O tempo presente e o tempo passado
están quizais ambos presentes no tempo futuro
e o tempo futuro contido no tempo presente.
O que podería haber sido e o que foi
apuntan a un fin único, que é sempre presente.
Resoan pisadas na memoria
polo carreiro que non percorremos
cara a porta que non abrimos nunca
no xardín de rosas. As miñas palabras resoan 
así, na túa mente.
Pero con que propósito
remexen o po da cunca de follas de rosa 
eu non sei.
Outros ecos 
habitan no xardín. ¿Continuaremos?


T. S. Eliot
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13/05/2012

10/05/2012

09/05/2012

Poema à Mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade 
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08/05/2012

Estar-se só



Um cão pede-me carinhos, roçando com força a sua pata dianteira na minha perna e nas costas. Um gato boceja a ver esta imagem e um outro cão dorme perto da porta. Sinto-me só, tão só que até a companhia de uma mosca faz sentido.

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