
As manhãs são sempre agitadas e muito frias, mesmo quando o dia se espera quente de Sol brilhando alto sobre as nossas cabeças. Os chaffeurs que nos levam até à escola são inconstantes como o tempo e quase sempre mal humorados. Os nossos colegas acostumaram-se a ocupar os mesmo lugares desde os princípios daquele trajecto e perdidos entre conversas sempre com os mesmos rostos ou em silêncios envolvidos em olhares para a paisagem campestre, recortada com longos espaços habitacionais, seguem maioritariamente com ar neutro e olhos húmidos de quem acordou há pouco. E quando chegamos finalmente ao nosso destino, uma hora antes do necessário, todos se precipitam para as portas, sem lugar para filas ou cavalheirismos. E por isso, tendo a demorar-me e aproveitar o tempo certo para sair sem grandes alvoroços, de facto, em todos os lugares onde se juntem grandes aglomerados uso essa estratégia de vida. Aprendia-a com a avó, que usa bengala desde que me lembro dela e espera sempre para que todos saiam da igreja no final das missas para poder sair sem tumultos, com toda a dignidade que uma senhora merece.
Na escola as pessoas são muitas e as portas estreitas. Nem todos caminhamos na mesma direcção e, mesmo quando as tarefas a cumprir nos apressam, a possibilidade de ficarmos retidos nas passagens durante alguns momentos é grande. Num dilema de vais tu ou vou eu? prosseguimos, sem sequer reparar que por vezes nos fizemos sair ou entrar à frente de um professor. Num tempo em que nos bastam já as indelicadezas dos mais novos da escola com os veteranos do secundário, cada um é por si, nem a idade, a função desempenhada ou o género são factores de diferenciação entre nós. Cada um faça por si e construa a sua autoridade.
Existem, porém, algumas pessoas bem polidas, com corações gentis e actos corteses, como aquele professor de Literatura que passa com ar sereno e mala castanha de doutor, que tem o Bom dia! na boca e o sorriso nos olhos. Sempre disposto a dispensar do seu tempo para que passemos primeiro nas portas de pouca largura, guardamos as suas atitudes no fundo do coração, porque são agradáveis e distintas. Um dia vimo-lo a repetir este acto com um funcionário. Uma amiga disse tirando-me as palavras do pensamento: "É cavalheiro até com os homens!" e rimos de seguida. Ser bom e generoso é a melhor ensinamento e a melhor forma de aprender é observar que os pequenos detalhes retratam na perfeição o que é a nossa alma e o nosso ser. Aprender a ser apenas com os melhores!
E nesta lição tão necessária consolido os meus comportamentos, pois o espírito adquire conhecimento em qualquer lugar onde pouse a visão e os restantes sentidos. E desta forma, ao passar um grupo de professores um deixou-se ficar para último e permitir a algumas alunas que passassem à sua frente, eu repeti-lhe o processo, insistindo sem palavras para que passasse. Respondeu-me: "Obrigado, princesa!" Não me custou tempo de vida, agradaram-me as palavras ao ouvido e foi também a primeira vez que me deram título real antes mesmo de saberem o meu nome.