"Meu caminho é por mim fora."

28/05/2015

Ensino inadequado e outras deficiências



Estávamos postos em redor da mesa, onde se dão as conversas mais autênticas, e distraída ora com a comida ora com as notícias fui perdendo o fio condutor do diálogo que a irmã, a mãe e o irmão emprestado tinham encetado. 
No momento em que a minha irmã, a quem eu apelidei fraternalmente de deficiente, se dedicava a servir-se de feijão perguntou-me:
- Diana, é o feijão ou os molhos que provocam gases?
Respondi rapidamente a querer esgueirar-me da conversa:
- Sei lá!
- Devias saber! Porque é que andas a estudar?!
- Não estudo nada sobre os gases!
- Devias, a flatulência é importante!
- Que deficiente... 
Terminou-se essa parte da conversa, continuei a comer, mas de qualquer dos modos evitei o feijão. 
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09/05/2015

Maria, guarda-me dentro do teu coração!



Saí de casa para passear os cães e na rua sossegada e aquecida pelo Sol estava um senhor posto olhando o vazio, como quem espera algo, e observando-o discretamente achei que na sua figura devia decerto ser um padre. Ao chegar à igreja constatei que o era, de facto. Principiou com incertezas , sem saber ao certo por onde ir, depois esqueceu-se de ligar o microfone quando começou a falar e demorou muito tempo a dirigir-se ao ambão para proceder à leitura do Evangelho, mas quando chegou a parte da homilia falou muito e falou agradavelmente e pela primeira vez desde há muito tempo tive os ouvidos bem abertos à mensagem que nos transmitia o sacerdote. Fez do tema a Nossa Senhora e relembrando os dizeres de um outro padre afirmou que na Terra Maria sempre encaminhou todos os homens para Jesus e agora no Céu, Jesus paga-lhe da mesma forma encaminhando-nos para o seu coração onde ficaremos seguros, e onde ela nos mostrará o verdadeiro amor de Deus. 
Ainda bem que o homem parado na rua nos pode falar com tanta sabedoria e ternura, ainda bem que temos uma mãe comum para amar e ainda bem que é o seu mês e que há Maios em todos os anos!

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03/05/2015

Obrigado, princesa!



As manhãs são sempre agitadas e muito frias, mesmo quando o dia se espera quente de Sol brilhando alto sobre as nossas cabeças. Os chaffeurs que nos levam até à escola são inconstantes como o tempo e quase sempre mal humorados. Os nossos colegas acostumaram-se a ocupar os mesmo lugares desde os princípios daquele trajecto e perdidos entre conversas sempre com os mesmos rostos ou em silêncios envolvidos em olhares para a paisagem campestre, recortada com longos espaços habitacionais, seguem maioritariamente com ar neutro e olhos húmidos de quem acordou há pouco. E quando chegamos finalmente ao nosso destino, uma hora antes do necessário, todos se precipitam para as portas, sem lugar para filas ou cavalheirismos. E por isso, tendo a demorar-me e aproveitar o tempo certo para sair sem grandes alvoroços, de facto, em todos os lugares onde se juntem grandes aglomerados uso essa estratégia de vida. Aprendia-a com a avó, que usa bengala desde que me lembro dela e espera sempre para que todos saiam da igreja no final das missas para poder sair sem tumultos, com toda a dignidade que uma senhora merece.
Na escola as pessoas são muitas e as portas estreitas. Nem todos caminhamos na mesma direcção e, mesmo quando as tarefas a cumprir nos apressam, a possibilidade de ficarmos retidos nas passagens durante alguns momentos é grande. Num dilema de vais tu ou vou eu? prosseguimos, sem sequer reparar que por vezes nos fizemos sair ou entrar à frente de um professor. Num tempo em que nos bastam já as indelicadezas dos mais novos da escola com os veteranos do secundário, cada um é por si, nem a idade, a função desempenhada ou o género são factores de diferenciação entre nós. Cada um faça por si e construa a sua autoridade. 
Existem, porém, algumas pessoas bem polidas, com corações gentis e actos corteses, como aquele professor de Literatura que passa com ar sereno e mala castanha de doutor, que tem o Bom dia! na boca e o sorriso nos olhos. Sempre disposto a dispensar do seu tempo para que passemos primeiro nas portas de pouca largura, guardamos as suas atitudes no fundo do coração, porque são agradáveis e distintas. Um dia vimo-lo a repetir este acto com um funcionário. Uma amiga disse tirando-me as palavras do pensamento: "É cavalheiro até com os homens!" e rimos de seguida. Ser bom e generoso é a melhor ensinamento e a melhor forma de aprender é observar que os pequenos detalhes retratam na perfeição o que é a nossa alma e o nosso ser. Aprender a ser apenas com os melhores! 
E nesta lição tão necessária consolido os meus comportamentos, pois o espírito adquire conhecimento em qualquer lugar onde pouse a visão e os restantes sentidos. E desta forma, ao passar um grupo de professores um deixou-se ficar para último e permitir a algumas alunas que passassem à sua frente, eu repeti-lhe o processo, insistindo sem palavras para que passasse. Respondeu-me: "Obrigado, princesa!" Não me custou tempo de vida, agradaram-me as palavras ao ouvido e foi também a primeira vez que me deram título real antes mesmo de saberem o meu nome.

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