"Meu caminho é por mim fora."

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05/09/2026

O sono e os sonhos










Acordei há pouco de uma sesta longa, sem limites impostos por despertador e com perda da noção do tempo. Levantei-me atrapalhada, com receio de ter dormido a tarde inteira. Não dormi, mas a confusão permanece até agora. Não foi um sono ininterrupto, mas consciente das movimentações da casa e do bater das horas na torre da igreja. A dada altura, mergulhei num sono profundo e tive os sonhos mais misteriosos e criativos, que me fizeram acordar ainda mais reflexiva e inquieta. Pelo nível de detalhe, não me aventuro a contar esses sonhos extensivamente, apenas digo que me lembro de dois, ou de duas partes de um único sonho. Na primeira, eu deveria ser uma mera espectadora, porque não me sentia parte da história. Era num tempo diferente, distante, com uma mãe a deixar o filho aos cuidados de um clérigo, homem bom, e depois de vários acontecimentos houve um reencontro anos mais tarde. As mesmas pessoas, rostos mais envelhecidos. A mulher era a protagonista. E eu ali estava. A que fazer? Na segunda, eu vinha a conduzir sozinha e passava por uma terra e pelos seus caminhos com uma ideia vaga de quem já lá passou muito anos atrás e ia descobrindo e lembrando o caminho ao mesmo tempo que o ia fazendo. Estava de tal forma sozinha, que na luz do meio-dia não via ninguém na rua, nem outros carros. Num outro dia, voltei a passar naquele local, mas estava comigo a minha mãe e a minha sobrinha. Dessa vez, havia festa e a mãe quis parar, por não seguir exactamente a mesma linha de deslocação, acabei por ficar um pouco baralhada e quase atropelar um homem. Estacionei, saíamos, e acordei. Porque não houve tempo para aproveitar a festa? 

São os meus últimos dias de férias e, talvez por isso, deva aproveitar estes momentos de sono despreocupado, ainda que muitas vezes acompanhado dos sonhos mais imprevisíveis. Pergunto-me se estou a aproveitar bem os dias, se me estou a despedir bem. Maior parte das minhas férias foram de rotina, mas o que me traz tristeza é que foram sobretudo de falta de energia. Muitos dos dias foram de abatimento, de necessidade de descanso de um cansaço que abrange tudo e atravessa tudo. Houve alguns dias luminosos, em que senti finalmente que estava restabelecida, fresca, pronta para o mundo. Foram poucos, ou então não os guardei na memória tão religiosamente quanto os outros. 

Na verdade, tenho muitas fotografias que me provam como foram felizes estes dias. Tenho muitos rostos, sorrisos, olhares, paisagens, locais, detalhes. Tudo me parece vívido, saboroso, memorável. Contudo, só me lembro quando recordo essas fotos. Porque me acontece esquecer tão facilmente a minha vida?  

Tinha para estas férias grandes planos, o maior deles: renascer. Imaginava uma leveza vinda da mudança de hábitos, de mente, de estilo de vida, que não consegui alcançar. Nalguns dias parecia bem próxima, mas noutros mais distante do que nunca. Quis mudar a nível profundo e superficial e mantive-me igual, afinal de contas. Mas, ao mesmo tempo, alguma coisa se alterou. Sempre alguma coisa se muda, se transforma, se melhora, atrevo-me a dizer... Não sei afirmar com precissão se melhorei, com certeza não sou a pessoa "melhor" que supus. Sei que sou mais natural e isso alegra-me porque me faz mais próxima do que é essencial. Deve ser o segredo para a minha felicidade, o início do meu caminho. Depois de tantos anos de existência estarei no início do caminho? Qual a melhor idade para nascer de facto? E quando é que depois de estacionar irei realmente à festa? 


Agora lancho uma banana e uma sandes. Ao tempo que saboreio os alimentos, as questões dissipam-se. Comer traz este prazer simples que me faz estar de acordo com o mundo, comigo, com o estado das coisas. O estômago confortado traz o equílibrio à mente agitada de tantas ideias.  Mas uma última questão me fica: e o que coração? Que é feito do coração? Talvez um sonho me traga resposta. 



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07/06/2025

De volta a esta saudosa casa

Porto, 1 de Maio de 2025


Desde ontem, ao reabilitar este espaço, que sinto um ânimo renovado. Tinha saudades desta casa que abandonei por várias razões e nenhuma a certa. Com o tempo encontrei outros espaços nos quais me comunicar. Ultimamente tenho estado insatisfeita com todos eles. Em nenhum me sinto autenticamente livre para expressar ideias, sensações ou sentimentos aleatórios sem que tenha por consequência a indagação dos outros. Aqui sou eu, maioritariamente sem público, mas com a liberdade para a imaginação, criatividade e expressões passageiras. Volto com muita alegria para uma casa que é feita à minha medida. Venho partilhar coisas várias, pelo entusiasmo da ilusão de abrir ao mundo os meus gostos, pela vontade de me descobrir e me celebrar, pelo desejo de guardar memórias e registar a minha história. Aqui estou novamente sem me encaixotar, recear ou restringir, após um longo hiato. De volta a casa de onde o coração nunca saiu. 
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03/02/2016

Esperanças novas








Na cidade grande com uma companhia específica e necessária, as duas num dia de Sol. Eu deveria estar de manga curta por causa da sequência da ideia e devido ao céu azul e à sensação de dias de Verão das imagens, mas já não me recordo. Estive tão atarefada em tirar fotografias a tudo o que via que agora elas não me importam para nada e estão perdidas algures onde a minha memória também já se esqueceu. Foi uma jornada quente, porém. E guardo umas lembranças soltas desse dia, de tal forma que as ordenando podia refazer todo o caminho. Mas não seria igual e já não posso pôr-me da mesma forma como estava, porque já esqueci, pois não me retratei. Se os locais continuam os mesmos e eu posso voltar a pisa-los na mesma ordem com que na primeira vez, para que me serve ir se ao menos eu não sei como era mais nessa altura? Não posso sentir o mesmo nunca mais. Quais seriam os sapatos que teria calçado nesse dia? Será que tinha escolhido a camisola da cruz? Já não importa mais e com certeza que ninguém naquele dia terá guardado a minha imagem nos olhos. Fiquei eu com essas figuras de monumentos altos que parecem engolir-nos e vi-os dias e dias seguidos na solidão das ruas e não mais o regozijo foi o mesmo. A esperança dissipou-se rapidamente e o encanto foi-se com o passar dos primeiros tempos de modo que tudo se tornou um esforço. As horas demoram excessivamente tanto a passarem e todos os meus passos foram horríveis e trágicos, sem a consolação da quietude e dos grandes campos que dão vigor a quem os contempla. Todavia preciso de estar onde é necessário e o Inverno logo dará lugar a tempos de mais Sol novamente. Que nasçam em mim esperanças novas! 
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18/10/2015

Plana alto sobre a minha cabeça


Tudo o que se desgasta dói mais nos segundos dias, têm-me acautelado em situações várias, mas os dias correm tão indiferentes que não choram os pássaros pelas nossas desgraças, nem esmorecem os outros por caridade. Estão as cousas tão voltadas para si mesmas que não passa o Sol pelas cortinas de minha casa, e não me aquece o coração desnudo. Estou bem, contudo, numa ténue harmonia, numa neutralidade doce e aprazível, porque é Setembro, o mês das cousas difíceis e toda a folia está já gasta. Encetam novos sossegos dentro de mim agora que a luz principia a arrefecer-se muito suavemente. Tenho miragens a brilharem-me nos olhos e oásis a doirar-me os desertos de dentro, quero dar-lhes a todos o teu nome.
Sinto saudades da tua voz a dizer o que nunca ouvi, e de sentir a força que te corre dentro como o mar que bate robusto nos rochedos e ecoa numa melodia tão natural e admirável. Mas reconheço que não te sei mais do que te imagino e fico-me a admirar de longe como astrónomo vigiando o Cosmos todas as noites através da sua vida. Tenho dentro de mim uma ansiedade, uma inquieta vontade de conhecer profundamente o que rodeia todos os meus passos fechados e tão voltados para o que já se deu a conhecer. Creio e desejo um acaso que quebre com a rotina e me encaminhe para os teus atalhos para que possa caminhar nos mesmos carreiros que tu e guardar no fundo dos olhos as mesmas visões que te ficarão presas para sempre na alma. Concede-me a graça da tua honesta amizade, da tua terna companhia e das tuas deleitosas palavras. És um pássaro majestoso que plana alto sobre a minha cabeça, quero fazer-te um ninho no meu coração. Deita-te no colo da minha ternura quando as preocupações transbordarem os seus limites ou quando o dia de tão feliz que vá corrido estejas cansado de o sentir. Concede-me tudo quanto és e verás florir nos meus olhos as tuas belezas.
Mas passas ao de largo ignorando que no meu peito cresce incessantemente um amor doce por todos os teus gestos, uma afeição desmedida pelo teu sorriso e pelas palavras que te vêm do profundo íntimo. Tenho carinho pela tua imagem e venho com ela gravada em mim ao longo dos dias como um ícone a quem se presta veneração e vai buscar forças. E o brilho que vem ardendo nos teus olhos inflama o meu coração e faz querer mais desse remédio que me cura as tristezas. Ainda que me venhas visitar  agora tão raramente nos meus sonhos desejo sempre a visão do teu rosto e a alegria que vem depois dela.
Toca no teu coração e sente o meu pulsando em uníssono, tenho a alma a acompanhar-te em cada caminho que encetas e estou longe a querer-me perto, onde a imaginação se converteria em sensações e memórias em sorrisos e felicidades eternas.

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31/08/2015

Debaixo da Lua


Quando a noite vai descendo ternamente sobre o lar e cobre de mansinho todas as nossas preocupações, alguém se encarrega de alertar que é hora de deitar. E ainda que a televisão convide a uns momentos a sós no sofá da sala, a voz do relógio persiste em dizer que o dia terminou e que a noite foi feita tão somente para descansar das durezas do quotidiano. Vou lentamente em direcção ao quarto e à cama que não quero e sinto que despacho as orações para cair num estado de corrida acelerada de pensamentos aleatórios. Desejo o amanhã intensamente porque não tenho fadigas para descansar e a escuridão é um caminho frustrante para quem apetece a alvura, a pureza das manhãs frescas. 
E quando se está no silêncio da noite, em que nem sequer os bichos querem palrar, ouve-se os relógios a trabalhar com mestria e a apontarem para  o fim, pois em  todas as horas se está algo terminando e principiando outro. A vida estende-se sem agilidade, porque não são dois dias e pode-se caminhar lentamente colhendo os frutos se é a sua estação.  
Há tempo para longas reflexões e memórias esquecidas enquanto o sono não se quer pousar aqui, por causa de uma certa força que me impede de adormecer. Existe uma espécie de ternura nas paredes do quarto que me inunda o coração e me faz desejar levantar da cama e abrir a porta de casa a alguém que fale baixo e ria em silêncio. Talvez até chamar pelos cães para lhes amansar o pêlo felpudinho e ficar a contemplar a cidade na simplicidade da sua nudez. 
Deixo-me estendida a ver de olhos fechados todas estas imagens que se repetem em mim e que são tão doces que chegam a doer. Antes do sono tenho vigor e as minhas ideias estão centradas, as coisas parecem consolidar-se e indicar para soluções gloriosas que me fazem confiar nos amanhãs. Mas a sonolência aproxima-se para me varrer todas as forças e fazer esquecer-me no meio dos cobertores ora mais pesados ora mais leves, conforme a época.
E quando chega a manhã jovem e bela na sua essência mais genuína quero ama-la tão intensamente que me perco nas suas venturas. Os dias correm sem muito rendimento, as forças ficam por se gastar. Quero começar e não sei como. 
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26/08/2015

A noite vai a meio


A noite vai a meio e tenho medo. Sonhos pesados têm-me perseguido numa corrida desigual e tenho acreditado que não sei destingir o que está dentro e fora da minha cabeça. Enquanto não assento no concreto deixo-me no escuro do quarto frio, mover-me parece uma ideia altamente perigosa e o interruptor que ligará a luz está a um quilómetro de distância. Visiono mentalmente um túnel aberto por onde se podem entrar todos os seres do além e a dado momento decerto algum me puxará o pé. 
Acordo e oro, não sei que pensamentos me poderiam ter trazido sonhos tão aterradores. Algum espírito se estava passeando na minha casa, disposta de forma tão real tal qual como se assemelha na sua veracidade. Foram-se-me as forças e a voz que queria gritar, restaram dores diabólicas e uma família que não se atentava ao meu sofrimento. Corri para o quarto da mãe, deitei-me perto de si asfixiando e entendendo finalmente o que se estava a passar chamou pelo pai que se apressou a vir socorrer-nos com uma cruz. E recordo-me de pensar que seria em vão, tinham que pedir pela presença de um dos nossos padres "Mas estão de férias!", pensei e abri os olhos. Assim estive momentos infindos, de olhos abertos e luz apagada, noite escura como breu. 
Em certo momento aspirei todo o ar e enchi o peito de coragem, liguei as luzes e deparei-me com o quarto exactamente como é de dia. Os espíritos dissiparam-se com a claridade e sosseguei, procurei o sono e não o encontrei. Embalei-me em recordações felizes e adormeci-me ao som de canções da infância.
Kili kili kili 
kili kili kilá
quanto mais a gente ri
bem melhor a gente está
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30/07/2015

Amizade na Claridade Do Verão


Nos dias calorosos de Verão em que o suor escorre brilhante pelos nossos rostos e as nossas faces ganham cores quentes de tons rosáceos, chega-se ao lar com os bolsos cheios de inspiração dos dias que passam constantes e colhem frutos sumarentos. A preguiça consola os nossos corpos cansados do trabalho e as festas sucedem-se pelas vilas e cidades em permanente lembrança da alegria constante que traz o Sol quando principia a saudar-nos. 
São nesses dias de pura harmonia que a amizade sabe melhor. Aproveitar as sombras amigas das árvores grandes sentindo toda a Natureza como nossa parte integrante e convivendo com os nossos irmãos de coração. Todas as cousas parecem adquirir um sentido fantástico de clareza e revelar a sua essência de agradabilidade ao poder da luz. Está-se sossegado porque não é possível ficar de outra qualquer maneira, a ternura que os tons cálidos nos oferecem turvam a visão e num misto de uma espécie de divertimento ao sentir o mundo caótico e um esvaziamento total da mente, os problemas minimizam-se imensamente e Deus vive mais firmemente na nossa realidade. 
Os estímulos chegam-nos de todos os sentidos e a alma começa lentamente a libertar-se da morrinha e a nascer para a frescura da vida quando nos encontramos entre aqueles que nos nutrem amizade. Da longa viagem dos dias, das horas tempestuosas e frias do Inverno da nossa existência, ir ao encontro dos dias soalheiros e dos amigos que nos espreitam sabe a um retorno ao Paraíso. E se o tempo é de seca no longo estio a chuva que nos chega é de flores deixadas cair pelos anjos, se estamos juntos e o tempo passa com brevidade. Traz-se os olhos quentes de paisagens em cores vivas e pesadas, e uma brisa sente-se levezinha a refrescar o coração cansado de bater. Nestes tempos de paz não se afigura mal nenhum à vista, pois acontece de a alma pousar a visão em tudo o que é aprazível quando se tem flores a crescer dentro, e de votar reparo nas cousas imperfeitas quando se tem o interior como fruto podre. 
O mundo tende a girar no sentido certo quando deixamos morrer as fadigas nos ombros daqueles a quem temos estima. A vivência parece mais prazerosa, as esperanças voltam a adquirir contornos densos e uma candura extrema apodera-se do nosso ser e faz corar os semblantes de puro contentamento quando estamos entre amigos e é Verão no seu auge.
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09/06/2015

Maria, alimenta as nossas almas!


Não passam nuvens sob o céu azul. O Sol terno de Primavera mira a nossa face e ao toque dos seus raios luminosos os olhos parecem querer chorar. Aqueles que não se ocupam de nada passeiam pelas ruas da cidade. A aragem é fresca, tranquila e faz propagar o aroma do perfume de alguém que está longe. As flores balançam harmonicamente ao som do doce silêncio do canto das aves que se movem ora pela nossa terra ora por terras distantes e que trazem no bico as histórias de mundos desconhecidos. São belas as cores que dão sentido à vida caótica das rotinas de cada um dos sujeitos da região, é a cor das flores ou a cor da camisola daquele que passa por nós na rua que agora, à luz do dia, se percebem claramente e que ferem a visão com toda a alegria que têm os dias primaveris. 
Na igreja imensa e fria também o Sol se adentra pelas vidraças e vai alumiar directamente o corpo despido de Cristo na cruz, os anjos, os santos, as paredes brancas, o altar impecavelmente asseado e, principalmente, o coração exposto de Maria onde se guarda o maior dos sacrários: o amor de Mãe, o próprio filho nele ocultado. E ela mantém-se serena em todas as suas representações, de braços abertos em convite constante ao afago de mãe jovem e carinhosa. É como um Sol grandioso que não permite névoas e ilumina intensamente os vastos campos onde crescem flores de todas as qualidades; é como a mão que balança o berço do bebé sonolento; ou como um doce perdido no fundo da algibeira. 
Assim como em todo o tempo se repete, vamos caminhando para longe do lar, deixando as purezas originais para trás e acostumando o nosso espírito aos espinhos do caminho, a alma embrutece-se e quase não reconhecemos no outro o rosto do nosso Deus. É um mal cumulativo, mas quando em alguma ocasião voltamos o olhar para Maria e nela o repousamos por largos momentos, orando-lhe, reconfortando-nos no seu colo, é um passo que damos em direcção ao seu filho. Porque é nela que encontramos força para prosseguir, para termos esperança no encontro íntimo e intenso com Jesus, que chegará um dia.
E embora as vozes do mundo lhe firam tanto os ouvidos e lhe façam lacrimejar os olhos, permanece assente no seu Sim de ser mãe do Salvador, e de ser igualmente a mãe de todos os crentes. Está disposta a encaminhar-nos para o amor infinito de Deus, todos os dias sem cessar, levando-nos pela mão ao encontro do Criador, que é nosso Pai e sentimento extremo de afeição.
Maria, nossa doce mãe, guarda-nos dentro do teu coração! Nosso único Sol, alimenta a nossa alma!
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28/05/2015

Ensino inadequado e outras deficiências



Estávamos postos em redor da mesa, onde se dão as conversas mais autênticas, e distraída ora com a comida ora com as notícias fui perdendo o fio condutor do diálogo que a irmã, a mãe e o irmão emprestado tinham encetado. 
No momento em que a minha irmã, a quem eu apelidei fraternalmente de deficiente, se dedicava a servir-se de feijão perguntou-me:
- Diana, é o feijão ou os molhos que provocam gases?
Respondi rapidamente a querer esgueirar-me da conversa:
- Sei lá!
- Devias saber! Porque é que andas a estudar?!
- Não estudo nada sobre os gases!
- Devias, a flatulência é importante!
- Que deficiente... 
Terminou-se essa parte da conversa, continuei a comer, mas de qualquer dos modos evitei o feijão. 
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09/05/2015

Maria, guarda-me dentro do teu coração!



Saí de casa para passear os cães e na rua sossegada e aquecida pelo Sol estava um senhor posto olhando o vazio, como quem espera algo, e observando-o discretamente achei que na sua figura devia decerto ser um padre. Ao chegar à igreja constatei que o era, de facto. Principiou com incertezas , sem saber ao certo por onde ir, depois esqueceu-se de ligar o microfone quando começou a falar e demorou muito tempo a dirigir-se ao ambão para proceder à leitura do Evangelho, mas quando chegou a parte da homilia falou muito e falou agradavelmente e pela primeira vez desde há muito tempo tive os ouvidos bem abertos à mensagem que nos transmitia o sacerdote. Fez do tema a Nossa Senhora e relembrando os dizeres de um outro padre afirmou que na Terra Maria sempre encaminhou todos os homens para Jesus e agora no Céu, Jesus paga-lhe da mesma forma encaminhando-nos para o seu coração onde ficaremos seguros, e onde ela nos mostrará o verdadeiro amor de Deus. 
Ainda bem que o homem parado na rua nos pode falar com tanta sabedoria e ternura, ainda bem que temos uma mãe comum para amar e ainda bem que é o seu mês e que há Maios em todos os anos!

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03/05/2015

Obrigado, princesa!



As manhãs são sempre agitadas e muito frias, mesmo quando o dia se espera quente de Sol brilhando alto sobre as nossas cabeças. Os chaffeurs que nos levam até à escola são inconstantes como o tempo e quase sempre mal humorados. Os nossos colegas acostumaram-se a ocupar os mesmo lugares desde os princípios daquele trajecto e perdidos entre conversas sempre com os mesmos rostos ou em silêncios envolvidos em olhares para a paisagem campestre, recortada com longos espaços habitacionais, seguem maioritariamente com ar neutro e olhos húmidos de quem acordou há pouco. E quando chegamos finalmente ao nosso destino, uma hora antes do necessário, todos se precipitam para as portas, sem lugar para filas ou cavalheirismos. E por isso, tendo a demorar-me e aproveitar o tempo certo para sair sem grandes alvoroços, de facto, em todos os lugares onde se juntem grandes aglomerados uso essa estratégia de vida. Aprendia-a com a avó, que usa bengala desde que me lembro dela e espera sempre para que todos saiam da igreja no final das missas para poder sair sem tumultos, com toda a dignidade que uma senhora merece.
Na escola as pessoas são muitas e as portas estreitas. Nem todos caminhamos na mesma direcção e, mesmo quando as tarefas a cumprir nos apressam, a possibilidade de ficarmos retidos nas passagens durante alguns momentos é grande. Num dilema de vais tu ou vou eu? prosseguimos, sem sequer reparar que por vezes nos fizemos sair ou entrar à frente de um professor. Num tempo em que nos bastam já as indelicadezas dos mais novos da escola com os veteranos do secundário, cada um é por si, nem a idade, a função desempenhada ou o género são factores de diferenciação entre nós. Cada um faça por si e construa a sua autoridade. 
Existem, porém, algumas pessoas bem polidas, com corações gentis e actos corteses, como aquele professor de Literatura que passa com ar sereno e mala castanha de doutor, que tem o Bom dia! na boca e o sorriso nos olhos. Sempre disposto a dispensar do seu tempo para que passemos primeiro nas portas de pouca largura, guardamos as suas atitudes no fundo do coração, porque são agradáveis e distintas. Um dia vimo-lo a repetir este acto com um funcionário. Uma amiga disse tirando-me as palavras do pensamento: "É cavalheiro até com os homens!" e rimos de seguida. Ser bom e generoso é a melhor ensinamento e a melhor forma de aprender é observar que os pequenos detalhes retratam na perfeição o que é a nossa alma e o nosso ser. Aprender a ser apenas com os melhores! 
E nesta lição tão necessária consolido os meus comportamentos, pois o espírito adquire conhecimento em qualquer lugar onde pouse a visão e os restantes sentidos. E desta forma, ao passar um grupo de professores um deixou-se ficar para último e permitir a algumas alunas que passassem à sua frente, eu repeti-lhe o processo, insistindo sem palavras para que passasse. Respondeu-me: "Obrigado, princesa!" Não me custou tempo de vida, agradaram-me as palavras ao ouvido e foi também a primeira vez que me deram título real antes mesmo de saberem o meu nome.

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22/04/2015

These legs are made for walking



Estando no silêncio costumeiro do quarto, ouço a campainha tocar as vezes que assinalam que é alguém da família. Ao chegar à porta não vejo ninguém, mas ouço vagamente a voz da avó a conversar com alguém que passava. Fui ao seu encontro e vi-a sentada no último degrau que apontava para a nossa casa, claramente as pernas não tinham dado conta do recado e ou se sentava rapidamente ou haveria um desastre novamente. Um senhor veio prontamente auxiliar-me a po-la de pé e logo a levei para dentro do lar onde me pediu uma laranja cortada aos pedaços. Deixei-a onde pudesse descansar, dirigi-me à cozinha e então nesse momento constatei que me podia deslocar facilmente onde precisasse ir, estas pernas que inda são jovens e ágeis podem-me levar onde quiser ir e no entanto não quero ir a lado nenhum. 
Soa ridículo, anormal e pouco humano, em dias em que  o movimento é estimado acima de tudo eu pratico o sedentarismo ao máximo. Se as cousas são boas, podem ser avistadas de longe, uma cadeira em frente à secretária é o meu local predilecto para ver a vida a passar. Ver é tudo, muito mais do que desgostar ou apalpar, quem vê sente sempre com mais suavidade e tudo o que é calmo é belo. Não aleija nem mortifica, mas deixa uma leve fragrância que se perpetua nos tempos e isso é bom. É agradável o que fica quando o que tem de ir já se distancia, pois os relógios permanecem invariáveis e as mudanças dão-se constantemente, aquilo que é doce e aprazível cria raízes no nosso coração e não morre nunca, integra-se no nosso espírito e faz aquilo que somos. 
Sair é bom, ficar-se estendido ao Sol é inda mais saboroso. O tempo passa com demora, o pêlo dos animais brilha de forma intensa, a morrinha dá sono e o corpo repousa dos dias convulsos. Não há soluções nos divertimentos mundanos, excessivos, impróprios, há alegrias e outras cousas pseudo-boas que passam rápido. Mas há sabedoria no deixar-se estar a contemplar vezes sem conta aquilo que foi criado para nosso júbilo, como aquelas flores de cores mil que estão no jardim da avó ou as nuvens que passam preguiçosas sob o azul celeste ou inda o som das aves que se desafiam entre si. O vento que passa meigo entre as folhas das plantas ensina-nos a gentileza e as grandes árvores que oferecem sombra instrui-nos sobre a bondade, a nobre caridade. Quando nos damos os dias são mais harmoniosos, e estamos em maior conformidade com a Natureza que é, em todos os momentos, perfeita. 
Saiamos à rua quando conseguirmos vencer a modorra, mas apenas para caminhar direito, para servir quem precisar, para enchermos o nosso coração de luz ou para o limpar com as gotas da chuva, que recomeçar também é preciso, para se ser sempre mais belo, mais atencioso, mais completo. Devemos procurar ser como a melodia de uma doce música ou então ser como o silêncio que jamais é a falta de, mas a plenitude de tudo. Quando em sossego estamos o vento traz-nos os murmúrios de longe e tudo sabemos, porque a alma tem sede de aprender, crescemos na rectidão e alcançamos a felicidade. 
E mesmo estando a descansar agora, a avó saiu, foi de encontro ao que lhe acarinha o coração e eu que estive no conforto do lar, não anseio por chegar a nenhum destino, mas talvez um dia desbrave novos caminhos onde poucos se aventuraram e retorne maior do que sou hoje, porque em qualquer caso estas pernas foram feitas para andar.

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16/04/2015

Ignorância familiar


Entrei na cozinha quase em último lugar e não me agradou plenamente o que vi já nos pratos do resto da família, mas não o comentei negativamente, porque já alguém o tinha feito antes de mim. Peguei no prato que me coube e enchi-o parcialmente de tudo, excepto de ervilhas que tanto me estavam a desgostar. Logo a irmã se insurgiu do outro lado da mesa:
-Diana, não vais comer ervilhas?!
-Não gosto.
-Muito me espantas! Logo tu que queres ser - fez uma breve pausa e olhou-me pensativa - queres ser agricultora! 
"Historiadora", pensei mentalmente a corrigi-la.

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16/02/2015

Bosque Outonal


Um texto de 2011 para a escola com base na observação desta imagem,

Um Sol manso e carinhoso sobe ao céu para iluminar, mais um dia, o bosque com a promessa de um dia de Outono exemplar. As cortinas deixam transparecer raios daquele astro transcendente, fazendo-me despertar de um sono profundo e envolto em sonhos a preto e branco. Depois dos olhos bem abertos para o Mundo palpável e as cortinas escancaradas, deixando o quarto obscuro e sentimental aclarar-se com luzes e preencher-se de odores outonais, sento-me na secretária e fico a ouvir os sons que a estação traz: as folhas secas a rolarem rumo ao tudo ao nada, as borboletas a esvoaçarem, os pássaros a chilrearem cantigas novas aos seus amores, os meus pensamentos de Outono recheados de fantasia… E sinto que «tudo vive em mim» e em tudo sinto a minha presença, a minha presença deliciosamente enfraquecida e velha, como envelhecido é o Outono.

Da janela grande do meu aposento, contemplo a época no seu auge, num bosque perdido entre o lugar nenhum e a civilização, é neste espaço que se vêem pousadas as cores verdes, amarelas e encarnadas, próprias deste tempo que tanto se assemelha ao Paraíso imaginado. Nessa imagem repousa a minh´alma, a minha exaustão do Mundo visitado e sobretudo as minhas saudades. Gosto de soltar a saudade ao vento e vê-la a caminhar de mãos dadas com a terra quente do pós chuva, mirar os seus pés ensanguentados calcarem as folhas secas e gastas, soltando um rasto escarlate de angústia e solidão sobre o amarelo manto do antes Inverno. Deixo que tudo prossiga, agrada-me o espectáculo de cores e as imagens dolorosas, desta maravilha teatral! Esqueço as saudades e respiro a plenos pulmões a doce fragrância que paira nos ares, desintoxicando a rotina das essências industrializadas. É repugnante querer outro local, outra vida, outra alegria! Há maior alegria, que dias quentes e brandos e uma enorme satisfação?

Tal como eu, há quem goste de se envolver com o Outono: meninas que todos os dias visitam o meu enorme jardim. Nunca ousei perguntar os seus nomes, tão-pouco com elas brinquei… São miúdas de tenra idade, mais exactamente seis ou sete anos e com uma alegria inesgotável, que por vezes tanta inveja e nostalgia me provoca. Houve certo dia que me marcou especialmente, pelo facto de ter deixado o enfadonho apoderar-se de mim, tudo se havia passado justamente num dia outonal: depois duma manhã cansativa de aulas regressei ao meu lar, nada tinha feito de peculiar e nada tinha previsto para o resto da data. Sentei-me perto da janela e aí fiquei a mirar toda aquela beleza morta que apenas se movimentava ao sabor do vento meloso e a suicidar-me na quietude das horas vagas. Logo, logo apareceram aquelas estranhas criaturas, a imagem representava a ausência da tristeza num local tão belo. Vinham de pijamas, o que me reavivou as manhãs em que acordava com o Sol ermo e sem obrigações deixava-me ao abandono das circunstâncias monótonas. Tinham as duas cabelos aclarados, acarretavam casacos e xailes, sobrepostos aos pijamas infantis. Admirou-me estarem tão felizes a brincarem com a Natureza, em vez de acharem-se em frente ao computador ou à televisão. Era mágica aquela figuração: a chuva de folhas coloridas a caírem sobre as meninas que soltavam risos da mais plena felicidade e erguiam as mãos para apanharem as folhas e novamente mandarem-nas ao ar, faziam-no vezes sem conta e eu quase chorava de tanta emoção, mas engoli as lágrimas, nem uma escorreu pela minha face. Brincavam e nas suas brincadeiras eu sofria, a dor da emoção maior e com esse pesar eu sentia-me satisfeita. Depois vinham os progenitores que as chamavam para o almoço e alegres elas iam ao encontro dos seus manjares. Eu ficava só, no meu quarto recolhida e de novo o lugar ausentava-se de jovialidade e ouvia-se o som do silêncio, o som do nada. Isto passava-se quase todos os dias de Outono e quase todos os dias de Outono eu me deleitava ao observar tanto contentamento.

O bosque preenchido de solidão e magia, com um manto de flores tricolores e secas, com árvores altas que ofuscam o Sol e o vento que faz rodopiar as folhitas…

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06/02/2015

Memória


Um antigo texto de 2011.

A porta foi fechada e aprisionados os ecos da memória que inda ressoam na voz do velho. A guitarra geme com o passar do vento e faz chorar os olhos das avozinhas do parque e o cheiro da comida já preparada paira no ar da pequena cidade. Ao longe a igreja que se fez nova para oferecer espaço à geração recente, faz lembrar alguns anos passados e o enorme caminho de terra que agora é apenas alcatrão constantemente pisado. A terra emana o fruto do outrora árduo trabalho dos nossos antecessores e transforma-se em raios de sol guardados na algibeira da lembrança. No muro duas crianças sentadas a conversarem, fazem o seu jogo de cores, alegres olham a rua.

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31/01/2015

Mother and Child


A mãe levou-me a fechar a quinta, fomos ao som de canções de vários artistas deste e do outro século. Ao chegarmos tínhamos já a Bi à nossa espera junto à porta, pronta a saltar-nos à roupa para lhe acariciarmos a cabeça por uns momentos. Fui também acarinhar uns gatinhos que lá moram, mostraram-se relutantes a ceder à ternura dos meus afagos e fugiram para onde não os pudesse tocar, mas creio ser próprio da sua espécie. 
Dirigi-me finalmente para a casa e principiei a fechar as janelas, após a mãe advertir-me dos perigos do solo que se encontrava escorregadio, devido a uma tinta que lá se tinha vertido. Pousei o pé sobre ela e deslizei-o, parecia-me seca e sem perigos, por isso continuei o trabalho e tranquei toda a casa, ao voltar para dentro e como nunca estando o corpo realmente bem assente nos pés, num instante estava já ao comprido no chão. A mãe veio rapidamente pôr-me de pé de novo, sentou-me e rogou pragas ao que me fez escorregar. Sem qualquer dano, apenas com a impressão do impacto da queda, preocupava com a eventual sujidade da roupa, enquanto a mãe me abraçava aflita. Afirmei-lhe que estava bem, ri-me até:
- Pronto, já chega, já estou bem!
Persistia a envolver-me nos braços. Percebi que a possibilidade de uma pequeno desastre a tinha perturbado, e senti que aquele abraço com um beijo de carinho foi como os Trinta Gloriosos após a Segunda Guerra Mundial. 
Voltamos ao lar, tenho a parte direita ligeiramente dolorida e um coração aquecido pela lareira e pelo amor da minha mãe. 

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20/01/2015

Tenho-te sonhado meu amigo



Desponta a manhã por cima do outeiro, com cores quentes no Inverno de Janeiro, vem lentamente o Sol doirar o meu quarto onde já estou acordada e não sei levantar-me. Digo em silêncio o costumeiro Bom dia, Espírito Santo!  que me foi recomendado por uma antiga irmã e que continuamente me parece renovado, e nessa oração calada peço por tranquilidade e um coração novo farto de inspiração. 
Ergo-me lentamente como ainda despertando de um sono profundo, sinto o frio das primeiras horas enregelar-me, visto rapidamente o que estiver à mão sem grandes preocupações estéticas e deambulo pela casa até conseguir compreender a lógica das cousas. Entendo somente a minha imagem reflectida no espelho do guarda-vestidos, parece-me um pouco apática, ligeiramente atemorizada com as representações de velhos monstros de infância.
Mas a vida tem o seu sentido, procura-se por aquilo que se tem de fazer e descansa-se quando se esquece que se perde o tempo que não temos. Sento-me na secretária junto à grande janela, perco a lembrança de que o relógio bate atrás de mim e escrevo as primeiras palavras da semana. Lá fora a realidade é em tons de tristeza, com alguns detalhes em cor castanha que quebram a monotonia dos verdes abandonados e dos grandes edifícios sem vida. Com os adultos no trabalho, as crianças fechadas na escola e os idosos sozinhos junto à lareira, a cidade é deserta, mas o tempo não perdoa nem se ausenta nunca e de hora a hora sentimos a sua presença nos sinos da igreja. Porém, o rejubilo germina em mim quando te recordo no meu último sonho. 
Tento captar as belezas de aqui e de acolá toda a manhã, toda a tarde, e no entanto quando me estendo sobre a cama no calor das cobertas pesadas e a cabeça descansa sobre a travesseira é que o meu coração sente na perfeição os pés frios enrolados nas meias grossas, e se enche da minha alma e da minha memória. Assim, na treva da noite as angústias do mundo caem sobre mim. Imagino aquele que chora envolto na sua solidão, aquele que vive no fundo de uma avenida e aquele que ficou encerrado na sua época glória sem se conseguir libertar, e estes retratos de tristeza e desolação prendem-me o respirar e fazem-me sentir grandes aflições por mim, por ti e pelos outros. Mas o sono vem, mesmo que tardando tanto, e sonho com dias felizes e imagens aleatórias que sei não serem reais. Estás sempre lá, porém.   
Desde há muitos anos que me apareces das noites frias de Inverno às noites quentes de Verão  e os nossos tempos são de harmonia como a Primavera e o doce Outono. Se estou passando na multidão e te vejo ao de largo vou ao teu encontro e tu ao meu, fugindo para onde o barulho não fere o nosso silêncio de ouro. Somos amigos, mesmo dialogando raramente, porque apenas se procura a companhia de quem queremos bem e sempre que sonho é sempre que te sonho. 
Vejo-te sorrir ao final da semana, estendes-me a mão e dizes o meu nome que nunca te contei. E se sabes o meu nome e eu o teu porque não seremos amigos? Cumprimento-te a medo, sem nunca o fazer à noite, mas já corremos pelos campos verdes e já restauramos a vida a uma rosa partida. Observa no fundo dos meus olhos e adivinha a amizade que já construímos nos fragmentos de sonhos, mas com palavras poucas porque conheço já o teu coração e tu o meu. Sei de cor o som do teu riso, guardo no coração todas as tuas gentilezas e edifiquei para ti um templo dentro da minha alma, acredita-me.
É possível que um dia onde o Sol brilhe mais nos fiquemos quietos contemplando a vida debaixo de uma árvore e saibas que te tenho sonhado meu amigo. Nesse dia ditoso os anjos cantarão e o mundo ficará a conhecer daí em diante o significado de uma verdadeira amizade.

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13/01/2015

Sobre um poste, uma ave



Encontrei este pássaro ao olhar o tempo pela janela grande da cozinha, parecia-me que estava fazendo pose para uma fotografia, mas cuidei que não ia a tempo para preparar a câmara, pelo que guardei a imagem apenas com os olhos. Quando mais tarde olhei de relance apercebi-me que se mantinha imóvel no sitio onde a tinha avistado inicialmente, com calma fui à procura da câmara e captei três fotografias, baixei a máquina e a ave voou. Decerto que se ficou para que a contemplasse na sua grande virtude de poder descansar no alto de um poste onde a seguir se levanta no ar, onde voa grandiosa sobre as nossas cabeças. 

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11/01/2015

Debaixo da Árvore de Natal: o Cão e o Menino


O cão entrou na sala e foi-se sentar no canto do sofá, onde chegava em pleno o calor das labaredas da lareira. Ficou envolto no seu próprio corpo, a ver o tempo anoitecer-se através das janelas, num fim sossegado para um dia de grandes agitações. Os trabalhadores retornam a casa e o cão espera pelo seu dono no lugar onde se sente acolhido pelo quente da fogueira. O tempo passa constantemente e é ligeiro, mas tedioso, ladra um outro cão ao longe, os automóveis rompem as estradas, ouvem-se conversas, porém o silêncio é imperativo dentro do lar. A solidão é uma grande companhia, a menos que esteja acompanhada pelo abatimento. O cão bufa de vez em quando, suspira pela mão carinhosa que lhe acaricia o pêlo, observa as luzes que se acendem nas ruas escuras. Levanta-se, alonga as patinhas num espreguiçar demorado, passeia-se pela divisão e ocorre-lhe ir aninhar-se perto do Menino, que está debaixo da grande árvore iluminada, esquecendo-se da realidade tão vazia de alegrias grandes. Arrasta as ovelhinhas, os pastores, a Maria, o José e os outros animais, estende-se junto do bebé, chega o focinho ao seu rosto pequenino e lambe-o num afago genuíno. A madeira arde com vigor, o velho cão mantem-se fielmente junto ao Salvador, que de condição tão humilde fica abandonado e ofuscado por um mar de luzes cintilantes, é frágil e carente de toda a atenção e no entanto só este cão parece sabe-lo. Mas já não reinam as trevas, o bebé não chora, fica-se sereno, divinamente embalado e com os bracinhos estendidos num convite permanente ao conforto do seu amor. O bichinho pensa que O protege e aquece, todavia é Ele que lhe traz a ternura que o seu coração enfastiado precisava, naquele cantinho da sala encontrou o verdadeiro lar que lhe faltava e o carinho pelo qual ansiava. Ouviu finalmente abrir-se a porta de entrada que denunciava a chegada do dono, largou o recém-nascido e correu a festejar a vinda do seu amigo. Ladrou, saltou, acarinhou-lhe, correu e por fim foi puxando-lhe as roupas conduzindo-o até ao seu novo canto, de modo a que quando chegou não pôde evitar reparar no bebé que o esperava há muito debaixo da árvore.


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09/01/2015

Top 6, aleatório


A cadela vem pedir-me comida perto da mesa onde acabamos de jantar, como gesto habitual não desapareceu em nenhum instante, nem tão pouco porque se passou de um ano a outro. Faço-lhe carinhos no pêlo macio da cabeça e começo a relembrar-me dos momentos que se coleccionaram e entraram já na história da minha existência, no que já passou e se vai perpetuando. 

1 - Alvarelhos, Trofa 
Rumamos para a festa de Santa Eufémia da Carriça, a família reduzida ao pai, mãe e filha, e num ambiente vivo de festa entramos na igreja para adorar o sagrado. Após algum tempo de oração regressamos à luz do dia onde nos retivemos a assistir ao espectáculo folclórico que me mereceu inúmeros fotografias. Num movimento perfeito de cores vira para aqui e vira para acolá e ao som da música a cena hipnotiza-nos, todas as canções parecem ser conhecidas da nossa alma, e assi logo percebemos que somos "portugueses de alma e raça".

2 - 17 de Maio 
Era o meu dia de aniversário, a única vez que a data coincidiria com a idade e o Sol estava a espreitar-nos, estava calor e a família e amigos apareceram para festejar comigo. Como já vinha a acontecer pareceu-me um dia bastante ordinário, calhou-me um Sábado, porém estava a passar o tempo com os meus amigos íntimos junto à minha casa quando ao entardecer vimos uma camioneta de meninos chegar e estacionar junto a nós. Eram os da catequese. Por momentos ficamos espantados e a seguir apenas com inveja. Nunca, em toda a nossa vida, tivemos uma visita de catequese! 

3 - Fins de Dezembro no parque
Das poucas vezes que pude sair do lar durante as férias desloquei-me ao único local onde seria coerente uma pessoa como eu ir. Com as minhas irmãs da parte familiar clandestina seguimos ao parque que é frequentemente só nosso e no final de conversas ora profundas, ora mais superficiais fomos fazer-nos parte do ambiente outonal, mas que era plenamente de Inverno. Com um casaco verde escuro e o cabelo da cor das folhas estava finalmente parte da Natureza e esta parte de mim. 

4 - Dia comum com a mãe
Durante o Verão quando a claridade deixa ver na íntegra a realidade circundante é que se vê como os detalhes têm a beleza que o coração tanto precisa para se alimentar. Num desses dias da estação de Estio enquanto o passava com a minha mãe e via não só com os olhos, mas também com a lente da câmara, circulava por entre as flores como abelha, porém a minha função era apenas olhar como nunca antes o fizera, daí captei todas as pétalazinhas e ficam-me agora no coração e por entre todas as outras fotografias dos tempos felizes. 

5 - Festas de Vilela 
Tínhamos sido convidados a jantar na casa dos pais do meu cunhado por altura das festas dessa localidade. Iria actuar entre outros o Rui Bandeira e a noite prometia ser agradável. Fui com os olhos e com a máquina de devorar imagens, estava a escurecer e depois do banquete, antes que toda a luz se fosse, foquei-me no que estava direccionado aos meus olhos e deparei-me com um fundo cor-de-laranja sobre as silhuetas das casas, pois já a noite vinha aos poucos devorando a região. E depois, com o céu em total escuridão soube melhor o fogo-de-artifício, estava a família junta e também o Juiz da Festa, que tinha calhado nesse ano ser o meu cunhado. 

6 - Visita de estudo ao Porto 
Embora estivesse frio nesse mês de Abril rompemos metade das solas a percorrer toda a cidade, parando nuns sítios, passando despercebidos noutros. Ouvimos os barulhos do Porto e cheiramos os seus aromas e por fim descansamos o olhar na ribeira. Visitamos tantos locais e por tantas pessoas passamos que por fim o melhor foi o convívio com os colegas, longe do ambiente rotineiro da escola. Desse dia muitas memórias ficaram, mesmo que as ruas permaneçam onde as calcamos e as deixamos, as recordações físicas e espirituais vieram connosco e do nosso passado fazem parte. 

Uma vez li e reti a frase "Tenho fotografias que provam que nunca exististe", assi se os momentos difíceis alguma vez ocorreram no ano que se findou, deles não existem retratos, pelo que deverão ficar-se perdidos no baú da memória, deixando espaço para que os episódios felizes da minha existência o ocupem na sua totalidade. 

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"Meu caminho é por mim fora."

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