A noite vai a meio e tenho medo. Sonhos pesados têm-me perseguido numa corrida desigual e tenho acreditado que não sei destingir o que está dentro e fora da minha cabeça. Enquanto não assento no concreto deixo-me no escuro do quarto frio, mover-me parece uma ideia altamente perigosa e o interruptor que ligará a luz está a um quilómetro de distância. Visiono mentalmente um túnel aberto por onde se podem entrar todos os seres do além e a dado momento decerto algum me puxará o pé.
Acordo e oro, não sei que pensamentos me poderiam ter trazido sonhos tão aterradores. Algum espírito se estava passeando na minha casa, disposta de forma tão real tal qual como se assemelha na sua veracidade. Foram-se-me as forças e a voz que queria gritar, restaram dores diabólicas e uma família que não se atentava ao meu sofrimento. Corri para o quarto da mãe, deitei-me perto de si asfixiando e entendendo finalmente o que se estava a passar chamou pelo pai que se apressou a vir socorrer-nos com uma cruz. E recordo-me de pensar que seria em vão, tinham que pedir pela presença de um dos nossos padres "Mas estão de férias!", pensei e abri os olhos. Assim estive momentos infindos, de olhos abertos e luz apagada, noite escura como breu.
Em certo momento aspirei todo o ar e enchi o peito de coragem, liguei as luzes e deparei-me com o quarto exactamente como é de dia. Os espíritos dissiparam-se com a claridade e sosseguei, procurei o sono e não o encontrei. Embalei-me em recordações felizes e adormeci-me ao som de canções da infância.
Kili kili kili
kili kili kilá
quanto mais a gente ri
bem melhor a gente está
