Acordei há pouco de uma sesta longa, sem limites impostos por despertador e com perda da noção do tempo. Levantei-me atrapalhada, com receio de ter dormido a tarde inteira. Não dormi, mas a confusão permanece até agora. Não foi um sono ininterrupto, mas consciente das movimentações da casa e do bater das horas na torre da igreja. A dada altura, mergulhei num sono profundo e tive os sonhos mais misteriosos e criativos, que me fizeram acordar ainda mais reflexiva e inquieta. Pelo nível de detalhe, não me aventuro a contar esses sonhos extensivamente, apenas digo que me lembro de dois, ou de duas partes de um único sonho. Na primeira, eu deveria ser uma mera espectadora, porque não me sentia parte da história. Era num tempo diferente, distante, com uma mãe a deixar o filho aos cuidados de um clérigo, homem bom, e depois de vários acontecimentos houve um reencontro anos mais tarde. As mesmas pessoas, rostos mais envelhecidos. A mulher era a protagonista. E eu ali estava. A que fazer? Na segunda, eu vinha a conduzir sozinha e passava por uma terra e pelos seus caminhos com uma ideia vaga de quem já lá passou muito anos atrás e ia descobrindo e lembrando o caminho ao mesmo tempo que o ia fazendo. Estava de tal forma sozinha, que na luz do meio-dia não via ninguém na rua, nem outros carros. Num outro dia, voltei a passar naquele local, mas estava comigo a minha mãe e a minha sobrinha. Dessa vez, havia festa e a mãe quis parar, por não seguir exactamente a mesma linha de deslocação, acabei por ficar um pouco baralhada e quase atropelar um homem. Estacionei, saíamos, e acordei. Porque não houve tempo para aproveitar a festa?
São os meus últimos dias de férias e, talvez por isso, deva aproveitar estes momentos de sono despreocupado, ainda que muitas vezes acompanhado dos sonhos mais imprevisíveis. Pergunto-me se estou a aproveitar bem os dias, se me estou a despedir bem. Maior parte das minhas férias foram de rotina, mas o que me traz tristeza é que foram sobretudo de falta de energia. Muitos dos dias foram de abatimento, de necessidade de descanso de um cansaço que abrange tudo e atravessa tudo. Houve alguns dias luminosos, em que senti finalmente que estava restabelecida, fresca, pronta para o mundo. Foram poucos, ou então não os guardei na memória tão religiosamente quanto os outros.
Na verdade, tenho muitas fotografias que me provam como foram felizes estes dias. Tenho muitos rostos, sorrisos, olhares, paisagens, locais, detalhes. Tudo me parece vívido, saboroso, memorável. Contudo, só me lembro quando recordo essas fotos. Porque me acontece esquecer tão facilmente a minha vida?
Tinha para estas férias grandes planos, o maior deles: renascer. Imaginava uma leveza vinda da mudança de hábitos, de mente, de estilo de vida, que não consegui alcançar. Nalguns dias parecia bem próxima, mas noutros mais distante do que nunca. Quis mudar a nível profundo e superficial e mantive-me igual, afinal de contas. Mas, ao mesmo tempo, alguma coisa se alterou. Sempre alguma coisa se muda, se transforma, se melhora, atrevo-me a dizer... Não sei afirmar com precissão se melhorei, com certeza não sou a pessoa "melhor" que supus. Sei que sou mais natural e isso alegra-me porque me faz mais próxima do que é essencial. Deve ser o segredo para a minha felicidade, o início do meu caminho. Depois de tantos anos de existência estarei no início do caminho? Qual a melhor idade para nascer de facto? E quando é que depois de estacionar irei realmente à festa?
Agora lancho uma banana e uma sandes. Ao tempo que saboreio os alimentos, as questões dissipam-se. Comer traz este prazer simples que me faz estar de acordo com o mundo, comigo, com o estado das coisas. O estômago confortado traz o equílibrio à mente agitada de tantas ideias. Mas uma última questão me fica: e o que coração? Que é feito do coração? Talvez um sonho me traga resposta.







