"Meu caminho é por mim fora."

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26/06/2015

Pág. 231 | Olhai os Lírios do Campo



Uma semana depois, Florismal morreu. Quando um novo dia clareou aquela sala triste, todos os sub-homens continuaram a gemer ou a sorrir os seus sorrisos de caveira, todos menos Florismal, que a morte surpreendera no sono. O seu rosto conservava a expressão de dignidade. Eugénio pagou-lhe o enterro, comprou-lhe uma sepultura modesta. Voltou do cemitério pensando nos seus mortos. Era uma tarde de fim de Verão, a luz do Sol tinha uma doce qualidade de madureza, o ar macio e levemente azulado. Eugénio sentia uma calma aceitação dos homens e das coisas. Tudo estava bem e ele não desejava mais nada além da posse daquela paz interior que começava agora a entrever. A morte não o assustava. A sua sede de sucesso parecia extinta. Já não sonhava mais com a glória e principiava a não ter medo da vida. 
Sentia um desejo de ternura, de bondade, de gestos mansos. Mas sabia também que aquele instante ia passar, que amanhã haveria no ar, na luz do Sol, e na face das coisas um elemento qualquer de estranheza, de hostilidade, que havia de provocar nele outras reacções. Viriam momentos de fraqueza e desânimo. Surgiriam dificuldades, motivos de irritação. Os seus nervos seriam mil vezes postos à prova. A dúvida tornaria a entrar-lhe na alma. Mas Olívia ainda estaria na sua memória, para ajudá-lo a vencer as crises, até que de novo viessem instantes preciosos como aquele, de pura aceitação, de harmonia, de paz.  


Olhais os Lírios do Campo, Erico Veríssimo
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23/01/2015

Canção duma Sombra



Ah, se não fosse a névoa da manhã 
E a velhinha janela, onde me vou
Debruçar, para ouvir a voz das cousas, 
Eu não era o que sou. 

Se não fosse esta fonte, que chorava, 
E como nós cantava e que secou… 
E este sol, que eu comungo, de joelhos, 
Eu não era o que sou. 

Ah, se não fosse este luar, que chama 
Os espectros à vida, e se infiltrou, 
Como fluido mágico, em meu ser, 
Eu não era o que sou. 

E se a estrela da tarde não brilhasse; 
E se não fosse o vento, que embalou 
Meu coração e as nuvens, nos seus braços, 
Eu não era o que sou. 

Ah, se não fosse a noite misteriosa 
Que meus olhos de sombras povoou, 
E de vozes sombrias meus ouvidos, 
Eu não era o que sou. 

Sem essa terra funda e fundo rio, 
Que ergue as asas e sobe, em claro voo; 
Sem estes ermos montes e arvoredos; 
Eu não era o que sou.

Teixeira de Pascoaes
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21/01/2015

Teoria Geral da Indignação



Se te queres fazer ouvir, mas ninguém te dá ouvidos, indigna-te com emoção 
Todo o tipo que não gramas, todo o político patusco, há de ser grande ladrão. 
Indigna-te sempre e muito, indigna-te do coração, para tal tem nervos de aço 
e começa a revolução!
Jornal Expresso
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18/01/2015

Um rato fala com Deus

Garden in bloom, Van Gogh


É maravilhoso o perfume das flores, mas também as ervas daninhas têm a sua fragrância. Cada um tem o seu lugar para crescer e desabrochar. E isso é belo... 
Senhor,  introduz-me no teu coração como se fosse uma semente.

Um rato fala com Deus, Angela Toigo e Jules Stauber
(Descoberto em Partilhas em Fá menor)
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15/01/2015

Poema da Minha Esperança


Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais, 
não se rala nem se apressa.

O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...

Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele 
que é já o fim dos meus dias.)

Tic-Tac...
(Como eu rio, cá p´ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.) 

Sebastião da Gama
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03/11/2014

Eles, os outros, só sabem indicar-nos as suas próprias pisadas


Hoje os artistas preocupam-se com a realidade, pretendem imitar a natureza, como se ela fosse imitável, não sentem emoções grandes porque são neutras de nascença as suas almas. [...]
[...] Em Arte estamos em absoluto desacordo. De resto, também com os amigos compatriotas que marcham numa rotina atrasada. Arte é bem outra coisa que quase toda a gente pensa, é bem mais do que muita gente julga. Tudo quanto para aqui se faz é medíocre aparte raras coisas. Porque eu não gosto de Rodin ou Ticiano, todos me dizem que sigo um mau caminho. E porquê? Se cada um se fiasse no caminho que nos aconselham nada de mais se fazia, pois que eles, os outros, só sabem indicar-nos as suas próprias pisadas. Há gente que chama ao meu estado uma pretensão para sair fora do vulgar - que pensem o que queiram, indiferente me é - eu tenho as minhas razões e bastam. Eu sei o que agrada em geral - eu na generalidade desagrado. Até certo ponto não é menos lisonjeiro. 
A técnica de que fala - coisa em que nem penso. Fixar aí a ideia é parar muito aquém do fim. Qualquer aprende. Ninguém deixa de fazer uma obra de arte intensa por falta de técnica, mas por falta de outra coisa que se chama temperamento.
[...]

Excertos de Cartas de Amadeo ao tio Francisco  
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24/10/2014

Mestre


Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes. 

Alberto Caeiro
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14/10/2014

Quási


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Mário de Sá-Carneiro
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27/07/2014

O Sol e o Vento



Há anos, quando era garoto, frequentei uma escola de campo, do nordeste do Missouri, e andava descalço pela mata. Um dia, li uma fábula sobre o Sol e o Vento. Discutiam qual dos dois era o mais forte; o Vento disse: «Vou provar-te que sou o mais forte. Vês aquele velho que vem lá em baixo, com um capote? Aposto em como o obrigo a tirar o capote mais depressa do que tu.» O Sol escondeu-se atrás de uma nuvem, enquanto o Vento soprava até quase tornar um furacão, mas quanto mais soprava, mais o velho segurava o capote.
Finalmente acalmou-se e desistiu; então o Sol saiu detrás da nuvem e sorriu bondosamente para o velho. Imediatamente este esfregou os olhos e despiu o capote. O Sol disse então ao Vento que a gentileza e a amizade eram sempre mais fortes do que a fúria e a força.


Dale Carnegie, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas
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09/07/2014

The Angel


I dreamt a dream!  What can it mean?
And that I was a maiden Queen
Guarded by an Angel mild:
Witless woe was ne'er beguiled!

And I wept both night and day,
And he wiped my tears away;
And I wept both day and night,
And hid from him my heart's delight.

So he took his wings, and fled;
Then the morn blushed rosy red.
I dried my tears, and armed my fears
With ten thousand shields and spears.

Soon my Angel came again;
I was armed, he came in vain;
For the time of youth was fled,
And grey hairs were on my head.


William Blake 
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26/06/2014

Tudo que faço ou medito


Tudo que faço ou medito
Fica sempre pela metade,
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço —

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa
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18/05/2014

Dia de Anos

A Zeferino Brandão


Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois, se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!


João de Deus
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04/05/2014

28/04/2014

Nada na agonia da tarde mexe


Nada na agonia da tarde mexe,
que nada no céu de cinzas se distingue
do que entre as árvores e as casas
certamente passa. Só
um fumo de mais cinza negra sobe,
nos ares elevando esguia a vida. 

A aldeia, o mundo inteiro
que da exígua janela vejo.
A casa, a minha, que os outros
das exíguas janelas veem.

Cada um de nós 
a casa sua por dentro vê
e a dos outros à janela. 

Cada casa é o fogo
que os outros veem fumo. 

Fernando Hilário
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22/04/2014

Quis ver


E, todavia, como é difícil explicar-me! Há no homem o dom preverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras que, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras. Toda a manhã lutei não apenas com elas para me exprimir, mas ainda comigo mesmo para apanhar a minha evidência. A luz viva nas frestas da janela, o rumor da casa e da rua, a minha instalação nas coisas imediatas mineralizavam-me, embruteciam-me.Tinha o meu cérebro estável como uma pedra esquadrada, estava esquecido de tudo e no entanto sabia tudo. Para reparar a minha evidência necessitava de um estado de graça. Como os místicos em certas horas, eu sentia-me em secura. Fechei os olhos raivosamente e quis ver.

Vergílio Ferreira, Aparição
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23/02/2014

Pedro da Maia


Sobre Pedro da Maia:


Ao fim de um ano de distúrbios no Marrare, de façanhas nas esperas de toiros, de cavalos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, começaram a reaparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias taciturnos, longos como desertos, passados em casa a bocejar pelas salas, ou sob alguma árvore da quinta todo estirado de bruços, como despenhado num fundo de amargura. Nesses períodos tornava-se também devoto: lia Vidas de Santos, visitava a lausperene.  


Os Maias, Eça de Queirós 


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20/02/2014

Rosa e Rosas


A Rosa trouxe-me rosas
E nada mais natural,
Mas eu prendas tão mimosas
É que não tenho, inda mal!

Quando tinha, se me desse,
Não digo mais que uma flor,
Talvez de flores lhe enchesse
Esses cofrinhos de amor!

Águas passadas, Rosinha!
Deixá-lo: veja se vê
Neste chão que já foi vinha
Coisa que ainda se dê;

Veja e escolha: está na mesa
O que há em casa... é tirar,
Tirar com toda a franqueza...
Que inda hão-de espinhos sobrar!

Mas se espinhos, mas se abrolhos
Lhe não agradam, amor!
Mire-se bem nos meus olhos...
Que há-de aí ver uma flor!

João de Deus
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23/01/2014

Deus Escreve Direito


Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta 
Em cada célula do homem estão inscritas 
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer 
Porém em cada célula desde o início 
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero 
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder 
A linha musical do encantamento 
Que é teu sol tua luz teu alimento

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós


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30/12/2013

Dois olhos maravilhosos e irresistíveis, prontos sempre a humedecer-se


Sobre Pedro, filho de Afonso da Maia e D. Maria Eduarda Ruma:

O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e irresistiveis, promptos sempre a humedecer-se, faziam-n'o assemelhar a um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum desejo forte parecera jámais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva: só ás vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tomára birra ao Padre Vasques, mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um fraco; e esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a espaços em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, murcho, amarello, com as olheiras fundas e já velho. O seu unico sentimento vivo, intenso, até ahi, fôra a paixão pela mãe.

Os Maias, Eça de Queirós
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18/11/2013

D. Maria Ruma



Sobre D. Maria Eduarda Ruma, esposa de Afonso da Maia:


Sómente Affonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativa e triste, tossia sempre pelas salas. Á noite sentava-se ao fogão, suspirava e ficava calada...

Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo áquella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada, abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas arvores, o seu coração não estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa, nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoção (a devoção dos Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se áquella hostilidade ambiente que ella sentia em redor contra os «papistas». E só se satisfazia á noite, indo refugiar-se no sotão com as creadas portuguezas, para resar o terço agachada n'uma esteira - gosando ali, n'esse murmurio d'ave-marias em paiz protestante, o encanto de uma conjuração catholica!

Os Maias, Eça de Queirós


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