"Meu caminho é por mim fora."

22/04/2015

These legs are made for walking



Estando no silêncio costumeiro do quarto, ouço a campainha tocar as vezes que assinalam que é alguém da família. Ao chegar à porta não vejo ninguém, mas ouço vagamente a voz da avó a conversar com alguém que passava. Fui ao seu encontro e vi-a sentada no último degrau que apontava para a nossa casa, claramente as pernas não tinham dado conta do recado e ou se sentava rapidamente ou haveria um desastre novamente. Um senhor veio prontamente auxiliar-me a po-la de pé e logo a levei para dentro do lar onde me pediu uma laranja cortada aos pedaços. Deixei-a onde pudesse descansar, dirigi-me à cozinha e então nesse momento constatei que me podia deslocar facilmente onde precisasse ir, estas pernas que inda são jovens e ágeis podem-me levar onde quiser ir e no entanto não quero ir a lado nenhum. 
Soa ridículo, anormal e pouco humano, em dias em que  o movimento é estimado acima de tudo eu pratico o sedentarismo ao máximo. Se as cousas são boas, podem ser avistadas de longe, uma cadeira em frente à secretária é o meu local predilecto para ver a vida a passar. Ver é tudo, muito mais do que desgostar ou apalpar, quem vê sente sempre com mais suavidade e tudo o que é calmo é belo. Não aleija nem mortifica, mas deixa uma leve fragrância que se perpetua nos tempos e isso é bom. É agradável o que fica quando o que tem de ir já se distancia, pois os relógios permanecem invariáveis e as mudanças dão-se constantemente, aquilo que é doce e aprazível cria raízes no nosso coração e não morre nunca, integra-se no nosso espírito e faz aquilo que somos. 
Sair é bom, ficar-se estendido ao Sol é inda mais saboroso. O tempo passa com demora, o pêlo dos animais brilha de forma intensa, a morrinha dá sono e o corpo repousa dos dias convulsos. Não há soluções nos divertimentos mundanos, excessivos, impróprios, há alegrias e outras cousas pseudo-boas que passam rápido. Mas há sabedoria no deixar-se estar a contemplar vezes sem conta aquilo que foi criado para nosso júbilo, como aquelas flores de cores mil que estão no jardim da avó ou as nuvens que passam preguiçosas sob o azul celeste ou inda o som das aves que se desafiam entre si. O vento que passa meigo entre as folhas das plantas ensina-nos a gentileza e as grandes árvores que oferecem sombra instrui-nos sobre a bondade, a nobre caridade. Quando nos damos os dias são mais harmoniosos, e estamos em maior conformidade com a Natureza que é, em todos os momentos, perfeita. 
Saiamos à rua quando conseguirmos vencer a modorra, mas apenas para caminhar direito, para servir quem precisar, para enchermos o nosso coração de luz ou para o limpar com as gotas da chuva, que recomeçar também é preciso, para se ser sempre mais belo, mais atencioso, mais completo. Devemos procurar ser como a melodia de uma doce música ou então ser como o silêncio que jamais é a falta de, mas a plenitude de tudo. Quando em sossego estamos o vento traz-nos os murmúrios de longe e tudo sabemos, porque a alma tem sede de aprender, crescemos na rectidão e alcançamos a felicidade. 
E mesmo estando a descansar agora, a avó saiu, foi de encontro ao que lhe acarinha o coração e eu que estive no conforto do lar, não anseio por chegar a nenhum destino, mas talvez um dia desbrave novos caminhos onde poucos se aventuraram e retorne maior do que sou hoje, porque em qualquer caso estas pernas foram feitas para andar.

3 comentários:

  1. Olá, Diana
    Ah! mas quanto gostei de ler o seu texto.
    Até chamei o meu marido, o pastor Jorge Leal, para lhe ler.
    Sabe que me comoveu?
    Primeiro, porque também sou avó...de sete meninas(4 são jovens) e dois netos - um de 22 e outro de 12.
    Também, como a sua avó, as pernas estão tão gastas...que subir e descer o terceiro andar, é um enorme sofrimento. E, recordo tanta vez que tal como a Diana, as minhas pernas eram agéis e fortes como as de uma gazela.Quanto eu andava!
    Agora, fico muito por casa, "o abrigo" que tanto agradeço a Deus.
    Que saudades de poder andar...

    Mas aceito, aceito absolutamente.Como a minha saudosa mãe dizia: "Tudo tem um tempo, tudo passa".
    Além "da avó", encontrei tanta sabedoria no que escreveu.
    Acerca do vento, acerca das árvores grandes, e de muitas outras coisas que refere

    Fez.-me muito bem ler, creia.

    Continue, vá em frente, siga.
    Digo, vezes sem conta, aos meus netos, filhos, noras e amigos, que a vida é uma aventura maravilhosa. Ah! quanto eu gosto de viver! Mesmo quase sem poder caminhar e, estando condenada a deixar de andar a breve prazo. Se assim acontecer, pois pode ser que o meu Deus e Pai queira confundir os médicos...creio que serei feliz mesmo numa cadeira de rodas.
    Aproximo-me dos 75 anos. Eu creio haver algum engano, pois eu não me sinto com essa idade.
    Para mim, sou "a menina de cabelos brancos" do meu Pai celestial.Sinto-me a sua menina.

    Diana, desculpe tanta escrita.
    Mas queria mesmo dizer-lhe isto.
    Viva! Seja feliz! Agarre a vida com as duas mãos, e que o bom e meigo Deus a abençoe
    Um beijinho
    viviana
    Tu



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    Respostas
    1. Abrir este cantinho e ver um comentário como o seu é um enorme privilégio! É incrivelmente bom saber que há quem nos leia, nos entenda e nos aprecie. Fico muito feliz por saber que para além de ter lido todo o texto chamou também o seu marido, porque as palavras são mesmo para serem partilhadas!

      Fico com alguma pena por aquilo que me relatou, no entanto, a minha avó é ainda mais velha (83 anos) e ainda que a custo e com ajuda vai conseguindo caminhar para onde quer ir. Espero que aconteça o mesmo consigo e que Deus não permita que acabe numa cadeira de rodas. Mas mesmo que isso aconteça não é motivo para desanimar, pois como me acabou de dizer a vida é maravilhosa, de verdade!

      Obrigada pelas palavras de incentivo, soube-me muito bem lê-las! Espero mesmo que continue a vir cá de vez em quando e a comentar sempre que tiver vontade.

      Um beijo para si, Viviana.

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  2. Olá Diana

    Alegra-me saber que apreciou o que deixei escrito.

    Obrigada por a simpatia e a solidariedade
    Eu costumo dizer aos que perguntam como vou, está tudo muito bem. Só quase não consigo andar, mas isso não tem importância.
    Um beijinho
    viviana

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