"Meu caminho é por mim fora."

26/12/2014

22/12/2014

Casa da Saudade



(Após ter percebido que tinha ficado só na Casa da Saudade, Sarita afirmou:)

Eles é que me podiam ter levado à missa, pelo menos até ao primeiro intervalo!

Casa da Saudade, Filipe la Féria
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18/12/2014

11/12/2014

Flores



Tenho todos os sofrimentos do dia a pesar-me no estômago e assim serenamente afirmo que me apetece tombar na cama e chorar até adormecer.
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Retrato de um dia extraordinário de Dezembro


Acordei quase meia hora depois do previsto, esta manhã, demorei o menos que consegui e saí para a rua cinzenta das primeiras horas de actividade. Tinha na mente as últimas palavras da avó: "Leva roupa que hoje vai estar muito frio!",  e de facto sentia-o em todo o corpo até chegar a meio da manhã. O Sol veio espreitar-nos e nós andávamos sempre à procura da sua agradável companhia e, tirando os seus raios carinhosos, nada mais me ficou das primeiras horas. 
Ao regressar estava a avó apoiada no pilar da casa à minha espera, com a claridade própria do dia a envolvê-la, numa imagem de maternal beleza. Almocei e fui-me fazer de companhia junto dela, disse-me que a mãe viria dentro de poucas horas leva-la ao médico, mas isto não me assustou, não me assusta nada quando a vida não é minha. Iam ao velho médico de família, e mesmo sem interesse fui arrastada para o consultório. Cumprimentou-nos e a avó não tardou a começar a conversa das enfermidades, das suas enfermidades, como assim devia ser. Com o passar da consulta, desviou-se o médico para mim como se fosse a dar-me indicações e perguntou-me:
- Quando entras de férias? Na próxima semana?
Respondi  num curto "Sim" e tornou-me logo:
- Não falas muito, pois não? 
E vindo na minha direcção encetou uma conversa com  a mãe sobre o meu rosto que não me soou bem. Com o jeito habitual de quem vê o que está por fora, mas não compreende o que está no mais recôndito de alguém, prosseguiu com o diálogo e passou-nos uma receita caseira para me curar o mal. Foram para mim momentos desagradáveis, a minha função era apenas a de companhia, porém quem gostava que reparasse na minha presença põe-me de lado e quem quero que me deixe no fundo da sala vem requerer a minha figura. Tocou-me na face, apontou-me os defeitos e deu continuidade ao que dizia. Achei uma atitude rude de quem não mediu bem a essência do outro e não foi capaz de perceber que desagradava. Levantei-me do foco da conversação que me sufocava e fui refugiar-me mais perto da porta por onde ansiava sair. Cumprimentei em jeito de despedida o médico, sem grande ânimo, e voltei para o carro com quem fui a acompanhar. 
Cheguei a casa pior do que antes, com um aperto inexplicável no estômago e uma intensa vontade de chorar apenas porque podia. Mas o doutor deveria hoje aprender que quando se encontra uma porta fechada não se deve forçar a abertura. 
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10/12/2014

09/12/2014

Palavras incendeiam-se em nós


Na rotatividade eterna das estações ficou-se por agora o Outono que traz a chuva ao nosso país, veste as árvores de castanho para depois despi-las e faz o vento soar toda a noite. Tem sabor de algo antigo, dourado, entusiasmante mas agradavelmente tranquilo. É a época em que se principia a acender a lareira e os dias vão sendo cada vez mais curtos em detrimento de longas noites.
Na escuridão deste tempo nocturno, enquanto o corpo descansa e a alma se mantém vigilante, algumas palavras morrem e outras incendeiam-se em nós. Imagens passam-nos constantemente: recordações, visões, utopias, lembrando que a memória nunca morre, nem o devaneio, nem nada! Por isso, o tempo passa sem o sono vir e o coração em intenso desassossego pulsa em consonância com o enorme exército da palavra. Estremece-nos o corpo todo, porque é um só e as palavras têm muito poder que nem o corpóreo tem força e controlo sobre elas. Escrever é a forma única de amansa-las e pô-las em coerência de forma mais ou menos autoritária, e é sobretudo poder falar ao ouvido de quem nos lê, através de signos que se adentram neles, sendo lúcidos e aprazíveis.
Enquanto a manhã não chega serena e reconfortante é tempo de construir em nós um dia a estrear, num monólogo apenas interrompido por longos intervalos de silêncio. Mas tal como na escrita tanto valem as palavras como os espaços em branco entre elas, todo o momento de introspecção é necessário, é urgente quer seja com ou sem discurso. Assim, também se adora em total mudez, quando já estão gastas todas as orações e não se sabe o que Lhe dizer. Melhor talvez seja quando se está vazio e nos entra apenas o que Ele quer, ficamos vazios do que é da Terra e plenos do que é do Céu.
Do mesmo modo, ficamos quando nos ungiram com os óleos do sagrado Crisma, brilhantes, repletos de vontade de acção, ternura, piedade e com os nós da alma desatados. Pisámos pela primeira vez o caminho da constante mudança, procura incessante de santidade que tem apenas uma única fonte de onde queremos beber.


Que seja o Outono com as nuvens, as folhas, tudo num movimento de perfeita suavidade a indicar-nos vestígios de Deus em tudo quanto há. Com Ele saberemos dialogar ou calar, quando o silêncio é preciso, e a as palavras existirão em nós como prova do nosso amor, dedicação, sabedoria, fé. 

Diana F. C. da Silva
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16/11/2014

09/11/2014

Diálogos com a Avó


Entrei na cozinha e a avó estava sentada na cabeceira da mesa enquanto eu me dirigia para uma das poucas funções que tenho naquela divisão da casa: descascar batatas.  
Depois de uma conversa sobre o que seria o almoço naquele dia fez-me sentir o seu descontentamento quanto à sopa que a mãe tinha feito, chegando-se perto do fogão, abrindo a panela e dizendo:
- Olha para isto: só massa, só massa, só massa!
Ela comia sempre tudo o que lhe punham na mesa, pelo que lhe respondi surpresa:
- Não gosta de massa? 
- Massa gosto na carteira, alguma! 
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04/11/2014

O Dia A Seguir



A manhã levanta-se calma e suave, a recuperar de uma noite agitada em que o ventos sopraram fortes e a chuva veio cair nos nossos quintais. Há uma quietação própria de um dia que terminou e agora se renasce. A avó diz que lhe dói muito as costas, tal como ela também o amanhecer se restabelece das fortes fustigadas acordando os habitantes com um leve frio de pós-guerra. As árvores mantêm-se estáticas, majestosas, imperturbáveis, não lembrando em nada o rebuliço de ontem, e as nuvens adensam-se no céu iludindo-nos de que este nunca foi azul, mas branco com tonalidades cinzentas. Não acredito no dia de ontem nem em todos os outros que vieram antes, o Passado são memórias dispersas e tantas vezes enganadoras, se o céu é branco eu acredito que o seja de verdade. Mas quão difícil é afirmar com certezas, ser coerente e sempre imparcial quando a minha alma procura o que está longe e talvez não exista nunca e quando o tempo muda tanto que não é possível anotar nada com clareza! Por vezes saco da câmara e deambulo pelos caminhos que conheço olhando e vendo sempre pela primeira vez as maravilhas de um local que se conhece mas que nunca se sabe na sua plenitude. Capto a Natureza para que se alguém calcar a pequena flor ao menos eu saiba e guarde sempre a sua imagem tal e qual como existiu. Assi, tenho doces detalhes perdidos no coração, sei que existo para contemplar a existência das cousas e escreve-las de acordo com o seu âmago, desvendando o que é misterioso e recôndito e o que poucos vêem para além da superfície.
A avó passeia-se pelo quarto que é dela e pouco meu e fecha a persiana deixando-me na penumbra, vendo a meio o que há lá fora. Que metáfora bonita me fez ver sem que o soubesse! Não sente intensamente quem se fica à sombra, quem não se deixa tocar pelos raios de Sol ou pelas gotas de chuva fria. Quando a tristeza vem de mansinho bater à porta da minha alma olho para o firmamento e, como pastor à procura da ovelha perdida, espreito por entre todas as nuvens em busca de um Sol tímido e recolhido, aí a melancolia toma o caminho de regresso por onde veio ou mistura-se com o sossego que é todo contentamento.
Quando estou eu e a Natureza e a Natureza e eu, sinto que sou uma planta que se levantou e andou, mas que vai à sua verdadeira fonte buscar as forças para um mundo que é grande e nem sempre agradável. Porém, quando somos uma da outra e estamos assi bem assentes afugento o que me retira a concentração da real perfeição, de maneira que a recordação desse tempo não seja dispersa, mas concentrada no que é de Deus e posta no mundo para crescer livre e renascer a todas as mortes. E desta forma, eu posso entender o Diabo, a inveja é um ser muito poderoso quando não se tem olhos puros e não se sabe apreciar as beldades feitas por mão de Outro. Quando não temos resistência qualquer mal nos entra e nos consome, é bom que tenhamos as arestas bem limadas.  
Andar errante pelos lugares reparando e seguindo faz de mim um ser contemplativo, mas que tem em si um pedaço do que é natural, o coração balança sempre que o vento sopra, porque é feito de ramos de árvore que têm folhas e que ora dão flores e frutos ora ficam caducos e alguns pássaros se vêm aninhar ali e fazer ninho. Tenho tudo isto e tudo isto é o meu coração, pois a Natureza é a minha casa e a minha casa é onde os meus ossos repousam, mas algumas pessoas não têm nada, não sentem nada, são quase nada. 
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03/11/2014

Eles, os outros, só sabem indicar-nos as suas próprias pisadas


Hoje os artistas preocupam-se com a realidade, pretendem imitar a natureza, como se ela fosse imitável, não sentem emoções grandes porque são neutras de nascença as suas almas. [...]
[...] Em Arte estamos em absoluto desacordo. De resto, também com os amigos compatriotas que marcham numa rotina atrasada. Arte é bem outra coisa que quase toda a gente pensa, é bem mais do que muita gente julga. Tudo quanto para aqui se faz é medíocre aparte raras coisas. Porque eu não gosto de Rodin ou Ticiano, todos me dizem que sigo um mau caminho. E porquê? Se cada um se fiasse no caminho que nos aconselham nada de mais se fazia, pois que eles, os outros, só sabem indicar-nos as suas próprias pisadas. Há gente que chama ao meu estado uma pretensão para sair fora do vulgar - que pensem o que queiram, indiferente me é - eu tenho as minhas razões e bastam. Eu sei o que agrada em geral - eu na generalidade desagrado. Até certo ponto não é menos lisonjeiro. 
A técnica de que fala - coisa em que nem penso. Fixar aí a ideia é parar muito aquém do fim. Qualquer aprende. Ninguém deixa de fazer uma obra de arte intensa por falta de técnica, mas por falta de outra coisa que se chama temperamento.
[...]

Excertos de Cartas de Amadeo ao tio Francisco  
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24/10/2014

Mestre


Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes. 

Alberto Caeiro
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23/10/2014

14/10/2014

Quási


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Mário de Sá-Carneiro
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12/10/2014

Phil Collins - Another Day In Paradise




She calls out to the man on the street
 He can see she's been crying
 She's got blisters on the soles of her feet
 Can't walk but she's trying

Oh think twice, it's another day for 
You and me in paradise 
Oh think twice, it's just another day for you, 
You and me in paradise
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11/10/2014

10/10/2014

Anjinhos Modernos



Após o término das aulas de Sexta-feira orientamo-nos para os portões de saída que estavam lotados tamanha a vontade mútua de poder começar o final de semana, ao contrário dos nossos colegas tivemos de esperar algum tempo mais debaixo do estado de tempo adverso até à chegada da camioneta. À medida que os lugares começavam a ser preenchidos o chauffeur principiava a dar andamento ao automóvel numa viagem onde se cruzavam introspecções e conversas animadas, íamos deixando sair alguns passageiros ao longo do percurso e rapidamente fomos parar numa outra escola onde muitos saíram mas inda mais entraram. Sem que os lugares estivessem certos com o número de pessoas restaram duas meninas muito jovenzinhas sem assento, como é desagradável ir de pé num autocarro, principalmente quando todos os outros vão sentados, senti pena. Olhei para a minha colega de banco e minha homónima e fiz um ar descontente, pelo que ela me disse:
- Coitadinhas, têm de ir em pé!
No exacto momento uma das raparigas diz à outra:
- Vamos ter de ir em pé!
As duas crianças eram tão pequeninas que pareciam não ir além do quinto ano, tinham um rosto com feições angelicais, de cabelos loiros e olhos azuis e verdes, pareciam totalmente ingénuas e inofensivas e por isso a pena da nossa parte, mas sem que esperássemos a mais pequena responde-lhe segura:
- Que sa foda! 
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05/10/2014

Missa, versão alternativa


Senhor, 
eu vos adoro
na coxa de frango consagrada! 

A mãe e eu tínhamos chegado a casa apressadas para não perdermos o tempo da missa. Embora a maior preocupação com a pontualidade fosse minha, precipitou-se da carrinha com a comida que inda vinha quente do mercado e dirigiu-se para a porta de entrada do lar. Antes mesmo de sair completamente do automóvel atirei-lhe a piada:
- Não precisamos de ir a casa, podemos levar o frango para a igreja, até tem lá uma mesa!
- Pois tem, comíamos lá com o padre, em vez de erguer a hóstia pegava na coxa de frango.  
Ri-me com o cenário alternativo em versão obesa, e desejei que Jesus antes de se converter em pão pudesse transformar-se em frango, decerto que o edifício quase desértico se iria encher e na comunhão eu estaria em primeiro lugar a reclamar as Suas partes secas. 
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01/10/2014

28/09/2014

Diz que até não são uns maus padres!


Eu sei as tuas obras; eis que diante de ti pus uma porta aberta. (Cf. Apoc 3,8)
Estas palavras que S. João nos oferece no livro do Apocalipse em tudo nos lembra a relação da nossa comunidade com os nossos párocos que são autênticas pontes de ligação com Deus, verdadeiros mediadores e pais espirituais. 
Partindo da sabedoria de um para a jovialidade de outro trilham um caminho comum para nos fazerem em tudo semelhantes ao Eterno Pai, ultrapassando os obstáculos da sua vida sacerdotal e auxiliando-nos nas vicissitudes da vida. Almejam ver com clareza, utilizar a inteligência, a sensibilidade e a erudição para que com os seus exemplos aflore nos nossos corações o ciúme pelo amor sincero a Deus e aos irmãos. Num mundo cada vez mais entregue ao ócio espiritual e à falta de disponibilidade para o alimento da alma, são pequenas luzes que nos alumiam na noite escura e nos fazem acreditar em algo maior que os nossos medos, as nossas preocupações e as nossas futilidades. 
Embora o sr. Pe. Felisberto esteja connosco há menor tempo, tem-nos mostrado com exemplos práticos como chegar aos que nos estão próximos, mas em muito tão distantes! Ainda que um pouco distanciado, ou pela timidez, ou pelo enorme trabalho nas suas diversas paróquias, tem-se exposto sobretudo através das palavras. É um grande e capacitado evangelizador que nos quer mais e melhor educados na fé, para que conhecendo mais a Deus o possamos entender de forma mais fácil e ama-lo fervorosamente. 
O sr. Pe. Mário João, estando connosco há vários anos, mostrou-se um companheiro, um amigo e um verdadeiro pai. Tem um sorriso que ilumina toda a freguesia, pela sua autenticidade e alegria. Tem a virtude de saber interagir com todos, o seu júbilo e humildade faz com que possa ficar pequenino junto aos mais novos e a sua imensa sensibilidade faz com que consiga entender e partilhar as dores com os mais velhos. Maior qualidade é ainda a de saber contrariar os assuntos mais tristes com a sua veia cómica e o seu modo de agir que deixa o Outro em boa disposição.
Devido a todos os seus aspectos positivos temos o dever de ajuda-los a ajudar-nos, através das nossas orações e das acções do quotidiano, evitando dirigir imprecações contra eles e fazer boatos que lhe denigrem a boa reputação. É também de nossa obrigação contribuir para uma comunidade mais unida e mais forte em Cristo, para que sejamos os melhores filhos que o Senhor lhes confiou!

Diana F. C. da Silva
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08/09/2014

05/09/2014

Our house in the middle of our street


A manhã levantou-se cinzenta nesse começo de Setembro, que prometia ser a continuação de Agosto, a gelar a carne e os ossos dos habitantes da região. A avó deixou-me só enquanto foi encontrar as amigas no café do fim do prédio e eu permaneci no quarto de janela aberta a deixar invadir-me pela sobriedade do dia. Era Setembro e estava frio, porém continuavamos com roupa de Verão, o estio que inda não tinha havido nesse ano. Recordo-me bem, porque foi ontem o dia que nasceu cinzento.
Nessas primeiras horas do dia cruzei-me com o pai no corredor, disse-me: "Sai da frente, cachopa!" e agora que penso nisso foi a única cousa que me disse durante todo o dia. À noite, enquanto eu e a mãe estavamos a arrumar a louça do jantar e o pai ficava quieto a fumar o seu cigarro à porta do terraço, entendi que cada um vivia na sua própria casa dentro da nossa casa comum. Passavamos uns pelos outros como sombras nas vias de acesso aos quartos, falavamos apenas quando necessário e conviviamos à mesa abafados pelos barulhos da televisão.
Nas tardes vagarosas a avó era frequentemente assaltada pelo bicho da memória e desenterrava, deitada na cama a ver a telenovela, o passado inglório da família, nesses intervalos de tempo havia espaço para os podres de cada elemento. Ela poderia ficar as tardes inteiras a contar novos episódios da história familiar, desde a morte de um às asneiras de outro, mas a sua parte predilecta era a de ter sido ela a criar-nos e a fazer de nós o que somos. Há em cada cousa nossa um "obrigado" que lhe devemos e ela faz questão de o ouvir. A avó é a beata da nossa casa, aproveita todos os momentos para ir à missa e pôr as rezas em dia, mas enquanto saímos da igreja mais leves ela traz o putefracto, no meio das suas doenças ela tem o coração  corrompido e por isso desaba aos prantos nalguns Domingos à tarde. Nas suas histórias está tudo o que não quero saber, são os factos, as invenções e os mal entendidos que nos afastam para vivermos cada um por si dentro de um território de todos. O Passado mata-nos!
Há nas nossas paredes o rancor a escorrer, crescem ervas daninhas nos nossos corações juntamente com algumas rosas muito espinhosas. Mas pergunto-me como seria se um dia a avó não invocasse os fantasmas do passado, o pai não me mandasse simplesmente sair-lhe do caminho e a televisão não estivesse a falar mais alto do que nós. Era possível que os dias não fossem tão nublados e que deixassemos de viver os restos do passado.
A avó conta-me do tempo em que a mãe era jovem, imatura e não cuidava de nós, mas essas recordações que não tenho e que não são minhas não podem afrouxar o amor que lhe sinto, é mãe e é minha. Os irmãos são meus, o pai é meu, a avó também é minha, pertencem-me e amo-os, amo-os porque me pertencem, mas a uns com mais custo que a outros. No entanto, antes de serem meus cada um é de si e um por um se fecham na sua vida dentro do nosso mesmo lar. Somos família e estamos partidos. Somos as lembraças nossas ou que nos contaram e levamos os dias a falar alto ou a calar. Recordo-me bem, porque foi ontem e toda a minha vida.
Mas, porventura nesses crepúsculos matutinos o Sol consiga iluminar o nosso lar, afastar os ressentimentos e acabar com os dias enovoados que aumentam a escuridão. 
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27/08/2014

24/08/2014

10/08/2014

Deus Maior e Deus Menor



Neste Domingo cinzento as cadelas ladram no terraço contra o vento, as crianças, barulhos ou qualquer cousa que se movimente, vejo-as através das flores coloridas da minha avó e ouço-as  pelas brechas das janelas fechadas. Está frio hoje, sabe bem um dia sóbrio em pleno Agosto, com o Sol encoberto, mas onde não falta claridade. É um dia sereno, sem excessos, ideal perfeito de neutralidade que se mantém ao longo das horas e por isso me levantei cedo e fui com a mãe à eucarística na Igreja Matriz, longe o suficiente para que qualquer sensato se sentasse à espera da próxima missa ocorrida na Igreja Nova estupidamente mais próxima de nossa casa. Ao regressarmos ao lar fizemos paragem num dos cafés onde a minha avó costuma ir conversar com as amigas e ficamos por lá até que entrou uma conhecida sem que me apercebesse. Reparei mais tarde quem era e antes que pudesse retornar ao meu lanche falou-me com uma voz tão baixa que mal pude reparar que se tinha dirigido a mim, perguntou-me:  "Está tudo bem? Como foi a escola?", respondi laconicamente sem que conseguisse desenvolver a conversa, a mãe perguntou em tom de repreensão se não perguntava pela filha da senhora, que embora tivesse andado comigo na escola não tinha comigo qualquer ponto em comum, mas não fui capaz de dizer mais nada, sorri apenas e tentei sair da conversa olhando para outro local, a senhora riu-se, chegou perto de mim passando-me a mão no rosto e disse: "Eu já a conheço! Já sei como ela é!". Quem é que me conhece? Como é que eu sou? Há tanto tempo que tenho trazido estas questões adormecidas em mim. Eu não sou elegante nos actos, nem sapiente nas palavras, nem um foco de luz quando entro numa sala, porém talvez seja tudo o que eu não sou quando estou só.
Sou alguém comedido, de bom gosto e de bom coração, o Outro para mim é um mundo à parte, de outro planeta, de outra galáxia talvez. Há os que quero por amigos, e os que sou totalmente indiferente, a estes não incomodo e espero o mesmo, é possível que por me serem tão estranhos lhes seja tão insensível. No entanto, há em mim uma vontade de simpatia, confraternização, boas maneiras. Quando um dos outros me fala as palavras agitam-se dentro de mim, mas não saem. Talvez um "tudo bem, obrigada", mas nunca um "tudo bem, obrigada, e consigo?". Os outros não percebo se não me importam de todo, ou se os temo. Se em terra divina sentir-me-ia um deus pequeno ao lado de Deuses Maiores ou um Deus Maior ao lado de deuses pequenos. Sou como sou e não sei o que é isso. Sei o que fui e talvez o que serei, mas estou perdida no meio. Sei e sinto cada parte de mim, que não poderá nunca ser mostrada por completo. Como num sacrário os meus sentimentos e virtudes estão guardados no mais fundo da minha alma, nunca se revelando quando deles preciso. Estão lá, mas talvez não saiam nunca. Mas eu que sou eu sei que existem e eu que sou eu conheço-me melhor do que qualquer familiar, amigo ou conhecido, eu que sou eu sei que não tenho limites, eu que sou eu sei que não sou os outros. Mas se a Terra continuar a virar para o mesmo lado e o Outro continuar a ser o Outro a minha vida será sempre um Domingo sereno onde não sei se sou um deus menor ou um Deus Maior.
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03/08/2014

Verde Sobre Tela


Estávamos sentados defronte para a vila, numa tarde dos inícios de Junho, a paisagem assemelhava-se a um quadro vivo, verde sobre tela. A beleza de Monet no sentimento de Munch, texturada com flores de todas as cores: vermelho, amarelo, cor-de-laranja e cor-de-rosa, as nuvens pareciam ter estacionado nos céus e só os automóveis e os cães se moviam no espaço. As árvores majestosas ocultavam as fábricas ao longe, o Sol queimava no alto e os camponeses afastavam-se dos seus raios, abrigando-se na sombra amiga.
Nós, adormecidos na pasmaceira, ouvíamos uma música actual enquanto apreciávamos a vida que decorria calmamente. A cadela passeava-se com ar de rufia, os pássaros cantavam ao ritmo da música, a limonada aquecia nos copos, uma brisa fresca corria a inspirar-nos, as ideias chegavam em bruto à espera de uma mão experiente que as trabalhasse e as transformasse numa jóia apreciada pelos corações narratários. Assim, a cada palavra floria uma nova história, erguiam-se novos castelos, vilões convertiam-se em heróis e terras inimigas faziam tratados de paz eterna.
A mente estudava o mundo ideal, colocando a mão nas fantasias de criança ultrapassava-se com alegria os obstáculos, a maldade era a invenção que ficava sempre para trás do bem, que tinha sempre lugar nas histórias felizes.
No entretanto, enquanto a imaginação passeava hipnotizada pela utopia, a vila mantinha-se num sossego campestre semelhante ao ideal de Cesário Verde. As nuvens apenas se tinham movido ligeiramente, a pequena cadela abria a boca num bocejo demorado, o astro rei continuava a alumiar plenamente as cores das flores e a música tinha-se silenciado.
Por fim, ao acordar do sonho e olhar de novo a paisagem, a felicidade inteirou-se de nós, tudo parecia ter ganho uma nova essência, a par de um salpico de alegria que cessava a pintura de uma tarde perfeita de Junho.

Diana F. C. da Silva

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27/07/2014

O Sol e o Vento



Há anos, quando era garoto, frequentei uma escola de campo, do nordeste do Missouri, e andava descalço pela mata. Um dia, li uma fábula sobre o Sol e o Vento. Discutiam qual dos dois era o mais forte; o Vento disse: «Vou provar-te que sou o mais forte. Vês aquele velho que vem lá em baixo, com um capote? Aposto em como o obrigo a tirar o capote mais depressa do que tu.» O Sol escondeu-se atrás de uma nuvem, enquanto o Vento soprava até quase tornar um furacão, mas quanto mais soprava, mais o velho segurava o capote.
Finalmente acalmou-se e desistiu; então o Sol saiu detrás da nuvem e sorriu bondosamente para o velho. Imediatamente este esfregou os olhos e despiu o capote. O Sol disse então ao Vento que a gentileza e a amizade eram sempre mais fortes do que a fúria e a força.


Dale Carnegie, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas
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17/07/2014

Faz sombra na minha varanda



É o começo de uma tarde de Verão, a avó saiu, a cadela mais nova está escondida na despensa, a casa está silenciosa e as flores continuam belas lá fora. Corre uma leve brisa que faz frio e nos acalma dos dias calorosos da época de estio e já faz sombra na varanda enquanto o Sol bate nas casas da frente. Há solidão e quietude neste lar e agitação, cor e vivacidade na rua, eu estou sentada perto da janela onde se cruzam estes dois mundos e me atingem na mesma intensidade, também em mim há silêncio e chilrear de pássaros, escuridão e luz, alegria e tristeza, tudo do mesmo modo. Vive em mim um vento que sopra de mansinho e faz balançar levemente o meu coração, e existe mares e campos, melodias e aromas, em tudo semelhantes ao que está de fora. É tão custoso viver com tanto vento e mar dentro, e é tão árduo fazer com que passem do âmago para o exterior, são palavras e gestos que se acumulam e fazem com que menos uma ave cante, que o mar se torne tempestuoso, e que o céu se feche. As palavras ouvem-se roucas, agarradas à raiz, ou não se ouvem de todo, o papel mantém-se em branco e nasce em mim uma recriminação de uma dever que se mantém por cumprir, como a oração da manhã de hoje que ficou por dizer. A folha fica estendida à minha frente e eu olho-a como se fossemos estranhos e eu não tivesse sabido nunca o que lhe escrever, mas num mundo onde tenho duas mãos infrutíferas, registar por escrito é a minha única obrigação e o meu único dom e se nasci foi só para dar corpo às dádivas das quais não me poderei separar em tempo algum. Por momentos, enquanto a mão está pousada sobre o papel somos um só e é como se a alma, o quotidiano e o abstracto se pudessem tornar concretos: visíveis, audíveis e tocáveis. Ter o compromisso cumprido faz com que os elementos se restabeleçam dentro de mim, quando a obra está terminada é que eu vivo, tudo o que faço a mais é nada. Quero abarcar tudo o que sou e tudo o que há e ao passo que o tempo foge, a memória e o que está escrito fica para sempre. Que não deixe jamais de existir estas tardes de Verão, em que a casa está vazia e se fica suspenso entre dois mundos onde existe regozijo e sossego e que o Sol não deixe nunca de iluminar, mesmo que apenas nas casas da frente enquanto faz sombra na minha varanda. 
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09/07/2014

The Angel


I dreamt a dream!  What can it mean?
And that I was a maiden Queen
Guarded by an Angel mild:
Witless woe was ne'er beguiled!

And I wept both night and day,
And he wiped my tears away;
And I wept both day and night,
And hid from him my heart's delight.

So he took his wings, and fled;
Then the morn blushed rosy red.
I dried my tears, and armed my fears
With ten thousand shields and spears.

Soon my Angel came again;
I was armed, he came in vain;
For the time of youth was fled,
And grey hairs were on my head.


William Blake 
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26/06/2014

Tudo que faço ou medito


Tudo que faço ou medito
Fica sempre pela metade,
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço —

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa
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05/06/2014

De dentro para fora


Num dia do ano passado, que a memória já não me permite recordar com exactidão, a tia Clara ofereceu-me um colar com um pequeno Anjinho de mãos erguidas. Não sei o que pensei na altura, a avó havia-me já oferecido um que tinha tirado há algum tempo, passava sem nada no pescoço, mas creio que a imagem celestial me fez querer que se mantivesse no meu peito por muito tempo. Guardei-o, talvez na algibeira, e coloquei-o ao chegar ao lar. Permaneci muito tempo sem perceber o seu verdadeiro poder. Acompanhava-me todos os dias apenas como recordação de uma tia querida. Porém, certa vez, numa noite sem sono onde a escuridão parece penetrar-nos até ao mais íntimo apertei esse colar com força e também eu orei para que esse Anjo que se mantinha sempre perto do meu coração fizesse acalmar o mar de dentro e me permitisse pôr em descanso. Como se nunca tivesse retirado o ouvido de perto do meu peito, esse pequenino Anjo sossegou-me os tumultos e fez o sono vir sem demora. E como numa descoberta fantástica persisti no rito, o Anjo iluminava as horas mortas, afastava os fantasmas e fazia os olhos fecharem-se com leveza, eu apertava-o com devoção e ele ouvia as minhas palavras silenciosas, era o meu protector: gentil e grandioso. Em qualquer parte do mundo, ao pé das flores do jardim ou no meio da multidão furiosa ele era o meu deus mais próximo, pessoal e estimado. No entanto, como numa história de final trágico, a mão procurou fechar-se no colar, todavia apertou-se em si mesma sem encontrar o seu guardião. Em poucos instantes as tempestades afloraram-me na alma, os espectros ergueram-se e as trevas ressurgiram. O Anjo estava caído no chão, partido do resto da moldura que o envolvia, senti-me desamparada, como um rei tinha a sua coroa, um guerreiro a sua espada, eu tinha o meu Anjo próximo, pessoal e estimado. Segurei-o com cuidado sobre as duas mãos, como uma vez tinha feito uma ministra extraordinária da comunhão com uma hóstia consagrada caída. Pousei-o sobre a mesa e voltei a segurar fortemente o colar agora vazio, procurei a mãe, dona de todas as soluções, e desejei ardentemente voltar a coloca-lo junto ao peito. Como a mãe não lhe viu uma resolução, permaneceu colocado sobre a mesa esquecido. O tempo passou, o Anjo não retornou para a sua casa e mesmo sem aparente significado esta pequena moldura continua a balançar no meu pescoço. E quando me perguntam o seu significado não tenho uma resposta coerente a dar, a moldura continua como um memorial, uma recordação de máxima protecção. O Anjo permanece agora fechado num velho porta-jóias da avó juntamente com todas as suas pequenas preciosidades e, embora enclausurado numa nova casa, mantém-se no meu peito com a mesma grandiosidade de outrora, mas desta vez invisível aos olhos e ao tacto, lutando contra os temporais e cada vez mais evidenciando-se de dentro para fora.
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18/05/2014

Dia de Anos

A Zeferino Brandão


Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois, se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!


João de Deus
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04/05/2014

28/04/2014

Nada na agonia da tarde mexe


Nada na agonia da tarde mexe,
que nada no céu de cinzas se distingue
do que entre as árvores e as casas
certamente passa. Só
um fumo de mais cinza negra sobe,
nos ares elevando esguia a vida. 

A aldeia, o mundo inteiro
que da exígua janela vejo.
A casa, a minha, que os outros
das exíguas janelas veem.

Cada um de nós 
a casa sua por dentro vê
e a dos outros à janela. 

Cada casa é o fogo
que os outros veem fumo. 

Fernando Hilário
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23/04/2014

Missa de Sétimo Dia


 Viverás ainda na memória dos que te conheceram. Depois esses hão-de morrer. Depois serás exactamente um nada, como se não tivesses nascido.

Este excerto que agora serve de mote a este texto que escrevo, li-o há algumas horas pela primeira vez, num livro de Vergílio Ferreira. Tocou-me de especial modo e talvez por isso o tenha gravado na cabeça e no coração. Parece que como nos textos de Literatura era um indício para o que se ia resultar ao longo do dia, mas esse já ia a meio, quase mesmo a terminar e a avó como era hábito tinha saído para a eucarística, e eu como cristão de Domingo fiquei-me em casa, onde a comodidade é maior e o tempo passa com lassidão.  Mais tarde, já depois do jantar, irrompeu na porta principal e não demorou a retaliar-me por não estar presente na missa de sétimo dia do avô do André. Por entre a voz exaltada da avó, a alma doeu-me. O avô do André tinha falecido na Sexta-feira da Paixão e o enterro tinha acontecido no próprio Domingo de Páscoa que por ser um dia agitado impossibilitou a minha presença. Na verdade, soube já fora do tempo e agora falhei de novo e por isso, soube-me pior do que comer carne estragada, espetar um prego no pé ou cair em frente de uma multidão, feriu-me no mais profundo do meu íntimo. Ao  contrário do que havia acontecido em tempos passados no funeral do senhor Abel, avô da Rita, senti-me insuficiente, como se toda a minha amizade tivesse errado naquele dia e uma grande fenda se pusesse entre mim e o meu grande amigo.  A avó advertiu-me para lhe fazer um pedido de desculpas, mas mesmo antes das palavras terem saído da sua boca, já a minha pobre alma lhe tinha obedecido. Este arrependimento e carência de perdão não era fruto de falsas elegâncias, mas de um coração de amigo que se tinha sentido muito pouco, achando que nunca a ignorância tinha sido tão penosa!  E como se finalmente num lance culminante me tivesse espetado um punhal no peito disse-me inda que o André tinha lido um poema de extrema beleza. Soubesse ela o quanto me magoava, não diria nunca palavra alguma sobre essa missa! Era o meu orgulho e a minha utilidade numa vida tão vazia que se despedaçava e agora como quando deixo a porta fechada abandonando os cães do lado de fora da sala quente e aconchegante, senti-me sozinha, separando-me do mundo e inclusive dos que mais quero. Porque não pude estar, quando queria tanto! Não pude ser consolação! Não pude ser amigo! Não pude ser companhia! Pude apenas ser nada! Sempre distante, sempre em outro lugar qualquer!  E neste momento já a missa se deu por terminada há muito e já as pessoas abandonaram a igreja e retornaram para as suas casas, umas mais desgostosas que outras. Faleceu um pai, um avô, um amigo, um conhecido e é essa pessoa que lembrarão e terão presente. Continuará vivo nas palavras, nas suas cousas, nos seus espaços e também nesta memória de uma amiga que falhou e de um coração que se arrependeu.
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22/04/2014

Quis ver


E, todavia, como é difícil explicar-me! Há no homem o dom preverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras que, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras. Toda a manhã lutei não apenas com elas para me exprimir, mas ainda comigo mesmo para apanhar a minha evidência. A luz viva nas frestas da janela, o rumor da casa e da rua, a minha instalação nas coisas imediatas mineralizavam-me, embruteciam-me.Tinha o meu cérebro estável como uma pedra esquadrada, estava esquecido de tudo e no entanto sabia tudo. Para reparar a minha evidência necessitava de um estado de graça. Como os místicos em certas horas, eu sentia-me em secura. Fechei os olhos raivosamente e quis ver.

Vergílio Ferreira, Aparição
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"Meu caminho é por mim fora."

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