Na
rotatividade eterna das estações ficou-se por agora o Outono que traz a chuva
ao nosso país, veste as árvores de castanho para depois despi-las e faz o vento
soar toda a noite. Tem sabor de algo antigo, dourado, entusiasmante mas
agradavelmente tranquilo. É a época em que se principia a acender a lareira e
os dias vão sendo cada vez mais curtos em detrimento de longas noites.
Na
escuridão deste tempo nocturno, enquanto o corpo descansa e a alma se mantém
vigilante, algumas palavras morrem e outras incendeiam-se em nós. Imagens
passam-nos constantemente: recordações, visões, utopias, lembrando que a
memória nunca morre, nem o devaneio, nem nada! Por isso, o tempo passa sem o
sono vir e o coração em intenso desassossego pulsa em consonância com o enorme
exército da palavra. Estremece-nos o corpo todo, porque é um só e as palavras
têm muito poder que nem o corpóreo tem força e controlo sobre elas. Escrever é
a forma única de amansa-las e pô-las em coerência de forma mais ou menos
autoritária, e é sobretudo poder falar ao ouvido de quem nos lê, através de
signos que se adentram neles, sendo lúcidos e aprazíveis.
Enquanto
a manhã não chega serena e reconfortante é tempo de construir em nós um dia a
estrear, num monólogo apenas interrompido por longos intervalos de silêncio.
Mas tal como na escrita tanto valem as palavras como os espaços em branco entre
elas, todo o momento de introspecção é necessário, é urgente quer seja com ou
sem discurso. Assim, também se adora em total mudez, quando já estão gastas
todas as orações e não se sabe o que Lhe dizer. Melhor talvez seja quando se
está vazio e nos entra apenas o que Ele quer, ficamos vazios do que é da Terra
e plenos do que é do Céu.
Do
mesmo modo, ficamos quando nos ungiram com os óleos do sagrado Crisma,
brilhantes, repletos de vontade de acção, ternura, piedade e com os nós da alma
desatados. Pisámos pela primeira vez o caminho da constante mudança, procura
incessante de santidade que tem apenas uma única fonte de onde queremos beber.
Que
seja o Outono com as nuvens, as folhas, tudo num movimento de perfeita suavidade
a indicar-nos vestígios de Deus em tudo quanto há. Com Ele saberemos dialogar
ou calar, quando o silêncio é preciso, e a as palavras existirão em nós como
prova do nosso amor, dedicação, sabedoria, fé.
Diana F. C. da Silva
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