"Meu caminho é por mim fora."

09/12/2014

Palavras incendeiam-se em nós


Na rotatividade eterna das estações ficou-se por agora o Outono que traz a chuva ao nosso país, veste as árvores de castanho para depois despi-las e faz o vento soar toda a noite. Tem sabor de algo antigo, dourado, entusiasmante mas agradavelmente tranquilo. É a época em que se principia a acender a lareira e os dias vão sendo cada vez mais curtos em detrimento de longas noites.
Na escuridão deste tempo nocturno, enquanto o corpo descansa e a alma se mantém vigilante, algumas palavras morrem e outras incendeiam-se em nós. Imagens passam-nos constantemente: recordações, visões, utopias, lembrando que a memória nunca morre, nem o devaneio, nem nada! Por isso, o tempo passa sem o sono vir e o coração em intenso desassossego pulsa em consonância com o enorme exército da palavra. Estremece-nos o corpo todo, porque é um só e as palavras têm muito poder que nem o corpóreo tem força e controlo sobre elas. Escrever é a forma única de amansa-las e pô-las em coerência de forma mais ou menos autoritária, e é sobretudo poder falar ao ouvido de quem nos lê, através de signos que se adentram neles, sendo lúcidos e aprazíveis.
Enquanto a manhã não chega serena e reconfortante é tempo de construir em nós um dia a estrear, num monólogo apenas interrompido por longos intervalos de silêncio. Mas tal como na escrita tanto valem as palavras como os espaços em branco entre elas, todo o momento de introspecção é necessário, é urgente quer seja com ou sem discurso. Assim, também se adora em total mudez, quando já estão gastas todas as orações e não se sabe o que Lhe dizer. Melhor talvez seja quando se está vazio e nos entra apenas o que Ele quer, ficamos vazios do que é da Terra e plenos do que é do Céu.
Do mesmo modo, ficamos quando nos ungiram com os óleos do sagrado Crisma, brilhantes, repletos de vontade de acção, ternura, piedade e com os nós da alma desatados. Pisámos pela primeira vez o caminho da constante mudança, procura incessante de santidade que tem apenas uma única fonte de onde queremos beber.


Que seja o Outono com as nuvens, as folhas, tudo num movimento de perfeita suavidade a indicar-nos vestígios de Deus em tudo quanto há. Com Ele saberemos dialogar ou calar, quando o silêncio é preciso, e a as palavras existirão em nós como prova do nosso amor, dedicação, sabedoria, fé. 

Diana F. C. da Silva

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