"Meu caminho é por mim fora."

05/06/2014

De dentro para fora


Num dia do ano passado, que a memória já não me permite recordar com exactidão, a tia Clara ofereceu-me um colar com um pequeno Anjinho de mãos erguidas. Não sei o que pensei na altura, a avó havia-me já oferecido um que tinha tirado há algum tempo, passava sem nada no pescoço, mas creio que a imagem celestial me fez querer que se mantivesse no meu peito por muito tempo. Guardei-o, talvez na algibeira, e coloquei-o ao chegar ao lar. Permaneci muito tempo sem perceber o seu verdadeiro poder. Acompanhava-me todos os dias apenas como recordação de uma tia querida. Porém, certa vez, numa noite sem sono onde a escuridão parece penetrar-nos até ao mais íntimo apertei esse colar com força e também eu orei para que esse Anjo que se mantinha sempre perto do meu coração fizesse acalmar o mar de dentro e me permitisse pôr em descanso. Como se nunca tivesse retirado o ouvido de perto do meu peito, esse pequenino Anjo sossegou-me os tumultos e fez o sono vir sem demora. E como numa descoberta fantástica persisti no rito, o Anjo iluminava as horas mortas, afastava os fantasmas e fazia os olhos fecharem-se com leveza, eu apertava-o com devoção e ele ouvia as minhas palavras silenciosas, era o meu protector: gentil e grandioso. Em qualquer parte do mundo, ao pé das flores do jardim ou no meio da multidão furiosa ele era o meu deus mais próximo, pessoal e estimado. No entanto, como numa história de final trágico, a mão procurou fechar-se no colar, todavia apertou-se em si mesma sem encontrar o seu guardião. Em poucos instantes as tempestades afloraram-me na alma, os espectros ergueram-se e as trevas ressurgiram. O Anjo estava caído no chão, partido do resto da moldura que o envolvia, senti-me desamparada, como um rei tinha a sua coroa, um guerreiro a sua espada, eu tinha o meu Anjo próximo, pessoal e estimado. Segurei-o com cuidado sobre as duas mãos, como uma vez tinha feito uma ministra extraordinária da comunhão com uma hóstia consagrada caída. Pousei-o sobre a mesa e voltei a segurar fortemente o colar agora vazio, procurei a mãe, dona de todas as soluções, e desejei ardentemente voltar a coloca-lo junto ao peito. Como a mãe não lhe viu uma resolução, permaneceu colocado sobre a mesa esquecido. O tempo passou, o Anjo não retornou para a sua casa e mesmo sem aparente significado esta pequena moldura continua a balançar no meu pescoço. E quando me perguntam o seu significado não tenho uma resposta coerente a dar, a moldura continua como um memorial, uma recordação de máxima protecção. O Anjo permanece agora fechado num velho porta-jóias da avó juntamente com todas as suas pequenas preciosidades e, embora enclausurado numa nova casa, mantém-se no meu peito com a mesma grandiosidade de outrora, mas desta vez invisível aos olhos e ao tacto, lutando contra os temporais e cada vez mais evidenciando-se de dentro para fora.

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