Acordei quase meia hora depois do previsto, esta manhã, demorei o menos que consegui e saí para a rua cinzenta das primeiras horas de actividade. Tinha na mente as últimas palavras da avó: "Leva roupa que hoje vai estar muito frio!", e de facto sentia-o em todo o corpo até chegar a meio da manhã. O Sol veio espreitar-nos e nós andávamos sempre à procura da sua agradável companhia e, tirando os seus raios carinhosos, nada mais me ficou das primeiras horas.
Ao regressar estava a avó apoiada no pilar da casa à minha espera, com a claridade própria do dia a envolvê-la, numa imagem de maternal beleza. Almocei e fui-me fazer de companhia junto dela, disse-me que a mãe viria dentro de poucas horas leva-la ao médico, mas isto não me assustou, não me assusta nada quando a vida não é minha. Iam ao velho médico de família, e mesmo sem interesse fui arrastada para o consultório. Cumprimentou-nos e a avó não tardou a começar a conversa das enfermidades, das suas enfermidades, como assim devia ser. Com o passar da consulta, desviou-se o médico para mim como se fosse a dar-me indicações e perguntou-me:
- Quando entras de férias? Na próxima semana?
Respondi num curto "Sim" e tornou-me logo:
- Não falas muito, pois não?
E vindo na minha direcção encetou uma conversa com a mãe sobre o meu rosto que não me soou bem. Com o jeito habitual de quem vê o que está por fora, mas não compreende o que está no mais recôndito de alguém, prosseguiu com o diálogo e passou-nos uma receita caseira para me curar o mal. Foram para mim momentos desagradáveis, a minha função era apenas a de companhia, porém quem gostava que reparasse na minha presença põe-me de lado e quem quero que me deixe no fundo da sala vem requerer a minha figura. Tocou-me na face, apontou-me os defeitos e deu continuidade ao que dizia. Achei uma atitude rude de quem não mediu bem a essência do outro e não foi capaz de perceber que desagradava. Levantei-me do foco da conversação que me sufocava e fui refugiar-me mais perto da porta por onde ansiava sair. Cumprimentei em jeito de despedida o médico, sem grande ânimo, e voltei para o carro com quem fui a acompanhar.
Cheguei a casa pior do que antes, com um aperto inexplicável no estômago e uma intensa vontade de chorar apenas porque podia. Mas o doutor deveria hoje aprender que quando se encontra uma porta fechada não se deve forçar a abertura.

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