"Meu caminho é por mim fora."

26/06/2014

Tudo que faço ou medito


Tudo que faço ou medito
Fica sempre pela metade,
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço —

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa
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05/06/2014

De dentro para fora


Num dia do ano passado, que a memória já não me permite recordar com exactidão, a tia Clara ofereceu-me um colar com um pequeno Anjinho de mãos erguidas. Não sei o que pensei na altura, a avó havia-me já oferecido um que tinha tirado há algum tempo, passava sem nada no pescoço, mas creio que a imagem celestial me fez querer que se mantivesse no meu peito por muito tempo. Guardei-o, talvez na algibeira, e coloquei-o ao chegar ao lar. Permaneci muito tempo sem perceber o seu verdadeiro poder. Acompanhava-me todos os dias apenas como recordação de uma tia querida. Porém, certa vez, numa noite sem sono onde a escuridão parece penetrar-nos até ao mais íntimo apertei esse colar com força e também eu orei para que esse Anjo que se mantinha sempre perto do meu coração fizesse acalmar o mar de dentro e me permitisse pôr em descanso. Como se nunca tivesse retirado o ouvido de perto do meu peito, esse pequenino Anjo sossegou-me os tumultos e fez o sono vir sem demora. E como numa descoberta fantástica persisti no rito, o Anjo iluminava as horas mortas, afastava os fantasmas e fazia os olhos fecharem-se com leveza, eu apertava-o com devoção e ele ouvia as minhas palavras silenciosas, era o meu protector: gentil e grandioso. Em qualquer parte do mundo, ao pé das flores do jardim ou no meio da multidão furiosa ele era o meu deus mais próximo, pessoal e estimado. No entanto, como numa história de final trágico, a mão procurou fechar-se no colar, todavia apertou-se em si mesma sem encontrar o seu guardião. Em poucos instantes as tempestades afloraram-me na alma, os espectros ergueram-se e as trevas ressurgiram. O Anjo estava caído no chão, partido do resto da moldura que o envolvia, senti-me desamparada, como um rei tinha a sua coroa, um guerreiro a sua espada, eu tinha o meu Anjo próximo, pessoal e estimado. Segurei-o com cuidado sobre as duas mãos, como uma vez tinha feito uma ministra extraordinária da comunhão com uma hóstia consagrada caída. Pousei-o sobre a mesa e voltei a segurar fortemente o colar agora vazio, procurei a mãe, dona de todas as soluções, e desejei ardentemente voltar a coloca-lo junto ao peito. Como a mãe não lhe viu uma resolução, permaneceu colocado sobre a mesa esquecido. O tempo passou, o Anjo não retornou para a sua casa e mesmo sem aparente significado esta pequena moldura continua a balançar no meu pescoço. E quando me perguntam o seu significado não tenho uma resposta coerente a dar, a moldura continua como um memorial, uma recordação de máxima protecção. O Anjo permanece agora fechado num velho porta-jóias da avó juntamente com todas as suas pequenas preciosidades e, embora enclausurado numa nova casa, mantém-se no meu peito com a mesma grandiosidade de outrora, mas desta vez invisível aos olhos e ao tacto, lutando contra os temporais e cada vez mais evidenciando-se de dentro para fora.
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18/05/2014

Dia de Anos

A Zeferino Brandão


Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois, se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!


João de Deus
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04/05/2014

28/04/2014

Nada na agonia da tarde mexe


Nada na agonia da tarde mexe,
que nada no céu de cinzas se distingue
do que entre as árvores e as casas
certamente passa. Só
um fumo de mais cinza negra sobe,
nos ares elevando esguia a vida. 

A aldeia, o mundo inteiro
que da exígua janela vejo.
A casa, a minha, que os outros
das exíguas janelas veem.

Cada um de nós 
a casa sua por dentro vê
e a dos outros à janela. 

Cada casa é o fogo
que os outros veem fumo. 

Fernando Hilário
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23/04/2014

Missa de Sétimo Dia


 Viverás ainda na memória dos que te conheceram. Depois esses hão-de morrer. Depois serás exactamente um nada, como se não tivesses nascido.

Este excerto que agora serve de mote a este texto que escrevo, li-o há algumas horas pela primeira vez, num livro de Vergílio Ferreira. Tocou-me de especial modo e talvez por isso o tenha gravado na cabeça e no coração. Parece que como nos textos de Literatura era um indício para o que se ia resultar ao longo do dia, mas esse já ia a meio, quase mesmo a terminar e a avó como era hábito tinha saído para a eucarística, e eu como cristão de Domingo fiquei-me em casa, onde a comodidade é maior e o tempo passa com lassidão.  Mais tarde, já depois do jantar, irrompeu na porta principal e não demorou a retaliar-me por não estar presente na missa de sétimo dia do avô do André. Por entre a voz exaltada da avó, a alma doeu-me. O avô do André tinha falecido na Sexta-feira da Paixão e o enterro tinha acontecido no próprio Domingo de Páscoa que por ser um dia agitado impossibilitou a minha presença. Na verdade, soube já fora do tempo e agora falhei de novo e por isso, soube-me pior do que comer carne estragada, espetar um prego no pé ou cair em frente de uma multidão, feriu-me no mais profundo do meu íntimo. Ao  contrário do que havia acontecido em tempos passados no funeral do senhor Abel, avô da Rita, senti-me insuficiente, como se toda a minha amizade tivesse errado naquele dia e uma grande fenda se pusesse entre mim e o meu grande amigo.  A avó advertiu-me para lhe fazer um pedido de desculpas, mas mesmo antes das palavras terem saído da sua boca, já a minha pobre alma lhe tinha obedecido. Este arrependimento e carência de perdão não era fruto de falsas elegâncias, mas de um coração de amigo que se tinha sentido muito pouco, achando que nunca a ignorância tinha sido tão penosa!  E como se finalmente num lance culminante me tivesse espetado um punhal no peito disse-me inda que o André tinha lido um poema de extrema beleza. Soubesse ela o quanto me magoava, não diria nunca palavra alguma sobre essa missa! Era o meu orgulho e a minha utilidade numa vida tão vazia que se despedaçava e agora como quando deixo a porta fechada abandonando os cães do lado de fora da sala quente e aconchegante, senti-me sozinha, separando-me do mundo e inclusive dos que mais quero. Porque não pude estar, quando queria tanto! Não pude ser consolação! Não pude ser amigo! Não pude ser companhia! Pude apenas ser nada! Sempre distante, sempre em outro lugar qualquer!  E neste momento já a missa se deu por terminada há muito e já as pessoas abandonaram a igreja e retornaram para as suas casas, umas mais desgostosas que outras. Faleceu um pai, um avô, um amigo, um conhecido e é essa pessoa que lembrarão e terão presente. Continuará vivo nas palavras, nas suas cousas, nos seus espaços e também nesta memória de uma amiga que falhou e de um coração que se arrependeu.
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22/04/2014

Quis ver


E, todavia, como é difícil explicar-me! Há no homem o dom preverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras que, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras. Toda a manhã lutei não apenas com elas para me exprimir, mas ainda comigo mesmo para apanhar a minha evidência. A luz viva nas frestas da janela, o rumor da casa e da rua, a minha instalação nas coisas imediatas mineralizavam-me, embruteciam-me.Tinha o meu cérebro estável como uma pedra esquadrada, estava esquecido de tudo e no entanto sabia tudo. Para reparar a minha evidência necessitava de um estado de graça. Como os místicos em certas horas, eu sentia-me em secura. Fechei os olhos raivosamente e quis ver.

Vergílio Ferreira, Aparição
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07/04/2014

Quando o campo visita a cidade



















 


 

 

 

 


Foi de  manhãzinha que saímos de Vilela, éramos mais de vinte e menos que trinta. Um batalhão. E o nosso destino era mais do que certo e mais do que diferente.
Chegamos ao Porto  não passava muito do tempo em que tínhamos saído. O professor foi contando umas piadas sem muita graça e reforçando a ideia de que esta seria uma aula em terreno diferente. Ninguém o ouvia no entanto, uns ocupados a ouvir música ou a tirar fotografias e eu ora a ler sobre a Praça da República ora a observar a paisagem que nos acompanhava.
Mal chegamos ao destino saquei da máquina fotográfica. Verdadeira turista num mundo agitado, onde as pessoas andam apressadas e sabem exactamente para onde vão, as ruas têm lojas a perder de vista, e saídas em cada canto com uma igreja ou um grande edifício ao longe.
Os professores deixaram-nos andar à vontade e eu não raramente fiquei-me para trás, a demorar-me a memorizar as construções e a cara dos que passavam por mim. Tive a sensação de que eram antipáticos ou de que eram muito fechados em si mesmos. Ocorreu-me que lhes pudesse dar os bons dias, mas a ideia passou-me com rapidez. Porém, fui encontrar, no meio dessas vias repletas de gente sisuda, uma senhora sentada com o seu cão numa das margens da estrada que ao ver o carinho que uma colega minha fez ao seu companheiro canino nos sorriu e desejou "Tudo de bom para as meninas!". Digo que de toda a visita foi o momento que guardei com mais amor, entre alguns outros,  e que o poderia encontrar tanto no Porto como em qualquer lugar. Qualquer lugar onde houvesse corações puros e gentis.
Mais tarde entramos para uma universidade e dali saímos com um guia que rapidamente nos aborreceu com o excesso de informação. Estávamos deparados com um cenário diferente onde a variedade de pessoas e de serviços  nos captava toda a atenção e dei por mim a perder-me do grande grupo pelo menos duas vezes. Era o excesso da novidade, o local onde se passava muito do que estava descrito nos manuais de História e que agora ganhava vida, porque eu a estava a viver. Um início de dia perfeito para recordar toda a vida.
Após o almoço visitamos mais alguns pontos de interesse. Caminhamos até à Praça da Liberdade e fizemos proveito do tempo propício para aproveitar mais demoradamente o local. Entramos para um estabelecimento e ao sairmos dele ouvi muito intensamente o som de um trompete a ecoar por toda a praça e foi para mim uma sensação excepcional! Todo o sítio se encheu da mais bela sonoridade que vinha daquele trompete misterioso que se escondia por detrás de um caminhão e se posicionava em frente à estátua equestre de D. Pedro IV. Esse som mágico encheu-me o coração de uma serenidade difícil de exprimir e de apagar da memória.
Parei para tirar uma fotografia e novamente me perdi do grupo. Apressei-me a encontra-los e quando pude retomar um passo já mais descansado deparei-me com uma carrinha fúnebre do lado esquerdo que transportava um caixão, e dentro dele uma vida já esvaída. Nos bancos da  frente algumas pessoas, que pensei serem a família, e atrás seguiam-nos alguns automóveis que podiam estar incluídos no cortejo ou simplesmente estavam a seguir o mesmo trajecto. Pesou-me fortemente, foi doloroso. Talvez pela expressão carregada dos que seguiam na carrinha ou talvez pela insensibilidade de toda a cidade que continuava grosseira e apressada.
Do que vi e vivi depois não ficou em tal grau marcado. Não foi da mesma intensidade. Bonito, mas de uma beleza tranquila, característica e antiga que não pesa e por isso não craveja, mas se leva sereno no coração. Assi é o Porto, uma bonita cidade de postal, onde o céu é azul, os pedintes são simpáticos, os casais de velhinhos andam de braço dado pelas ruas traiçoeiras, as igrejas nascem em cada esquina e as ambulâncias passam continuamente, os funerais parecem de tal forma tristes e sem dignidade e as pessoas têm aspecto de ansiosas e impacientes. É o apogeu da cidade! Onde o tempo também passa e se sente o chamamento do lar.
Voltamos. E embora  nos afastássemos cada vez mais da grande cidade e entrássemos no verde da periferia, soube-me como um merecido consolo. É no campo que encontramos os vizinhos que todos os dias nos dão o Bom Dia, os grandes funerais com toda a freguesia e a serenidade das ruas desertas em tempo de trabalho. É no campo que descansa o meu coração e todo o meu corpo. E é nele que vivo e onde está toda a minha vida e todo o meu gosto!

E o campo, desde então, segundo o que me lembro, 
É todo o meu amor de todos estes anos! 
Nós vamos para lá; somos provincianos, 
Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!

(Cesário Verde - Nós)
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11/03/2014

Sol de Março


Por entre as flores que o Sol doirava veio levantar-se a manhã e a esperança de um dia perfeito. Pois, embora a Primavera inda não nos tenha vindo desabrochar, já o Sol tem aparecido para nos saudar.
E por isso, nas indecisões do que se há-de vestir nestes últimos dias a avó alertou-me para que neste tempo o que vemos é o Sol de Inverno. E de facto, o tempo que nos tem vindo tirar da rudeza e do rigor do Inverno é apenas uma doce miragem dos tempos que virão. Vem lembrar-nos que por entre as nuvens das desgraças se esconde o Futuro sorridente e confiante, doirado e pleno.
A escola que permanece o local onde as horas se demoram enche-se de cor, as nossas faces também ganham uma corzinha especial típica do tempo que se avizinha quente, e enquanto a professora fala das profundas questões filosóficas em tom sério, eu contemplo os campos verdes e o manso gado a pastar, a minha presença está na carteira, mas a minha alma está com eles. E toda a população rural se apressa para os seus afazeres, fora das grades da escola. Deslocam-se a passo certo, característico de quem sabe bem para onde vai e deixam-me a desejar estar também do lado de fora, onde os campos são verdes, o gado pasta calmamente, as pessoas andam apressadas e o Sol bate com meiguice na pele. Das janelas da biblioteca vê-se a igreja de Vilela. É lá onde muito se passa. E é daí que ressoam os sinos de quando em vez e nos perturbam ao de leve as aulas, fazendo recordar da vida que se passa.
Embora a escola nos prepare e nos faça sonhar com um futuro brilhante e compensador, o meu coração continua apenas a alvejar os dias quentes de Primavera. O ver passar a vida e os tempos. Tão calmamente este meu coração bate que pergunto-me se algum dia será despertado para um mundo cruel onde tudo passa num instante. Nenhum desejo de grandes cidades e pessoas civilizadas me veio interromper da morrinha até este dia. Sou apenas uma rapariga local. Sonho apenas com o Sol e os dias calmos.
A camioneta que nos vem buscar desliza com brandura pelas estradas alcatroadas, de novo o Sol se adentra pelos vidros da janela e nos cega com tanta claridade. Como se sua beleza de tão pura e distinta, fosse a última memória que queremos preservar para sempre. Nada se equivale, nada há de mais bonito que os seus raios luminosos. Toda a sua doçura desencadeia as melhores recordações, desde os primeiros anos de escola e de amizades aos dias na eira com a avó.
Apercebi-me que nada faz tão feliz um português como o Sol. Um português traz o Sol moroso no sangue, vem de linhagem. Vem do coração. Está em nós.
E este meigo Março, que tem sabor a mel, trouxe os dias quentes. E trouxe também no dia de hoje uma tarde ditosa, com o culminar no gabinete do pároco da região. Recebemos a notícia de que estamos dentro. Do que queríamos estamos dentro, e tudo graças ao Sol que nos veio dar bênção e dilatar o nosso espírito para receber a caridade e as boas novas.
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"Meu caminho é por mim fora."

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