"Meu caminho é por mim fora."

07/04/2014

Quando o campo visita a cidade



















 


 

 

 

 


Foi de  manhãzinha que saímos de Vilela, éramos mais de vinte e menos que trinta. Um batalhão. E o nosso destino era mais do que certo e mais do que diferente.
Chegamos ao Porto  não passava muito do tempo em que tínhamos saído. O professor foi contando umas piadas sem muita graça e reforçando a ideia de que esta seria uma aula em terreno diferente. Ninguém o ouvia no entanto, uns ocupados a ouvir música ou a tirar fotografias e eu ora a ler sobre a Praça da República ora a observar a paisagem que nos acompanhava.
Mal chegamos ao destino saquei da máquina fotográfica. Verdadeira turista num mundo agitado, onde as pessoas andam apressadas e sabem exactamente para onde vão, as ruas têm lojas a perder de vista, e saídas em cada canto com uma igreja ou um grande edifício ao longe.
Os professores deixaram-nos andar à vontade e eu não raramente fiquei-me para trás, a demorar-me a memorizar as construções e a cara dos que passavam por mim. Tive a sensação de que eram antipáticos ou de que eram muito fechados em si mesmos. Ocorreu-me que lhes pudesse dar os bons dias, mas a ideia passou-me com rapidez. Porém, fui encontrar, no meio dessas vias repletas de gente sisuda, uma senhora sentada com o seu cão numa das margens da estrada que ao ver o carinho que uma colega minha fez ao seu companheiro canino nos sorriu e desejou "Tudo de bom para as meninas!". Digo que de toda a visita foi o momento que guardei com mais amor, entre alguns outros,  e que o poderia encontrar tanto no Porto como em qualquer lugar. Qualquer lugar onde houvesse corações puros e gentis.
Mais tarde entramos para uma universidade e dali saímos com um guia que rapidamente nos aborreceu com o excesso de informação. Estávamos deparados com um cenário diferente onde a variedade de pessoas e de serviços  nos captava toda a atenção e dei por mim a perder-me do grande grupo pelo menos duas vezes. Era o excesso da novidade, o local onde se passava muito do que estava descrito nos manuais de História e que agora ganhava vida, porque eu a estava a viver. Um início de dia perfeito para recordar toda a vida.
Após o almoço visitamos mais alguns pontos de interesse. Caminhamos até à Praça da Liberdade e fizemos proveito do tempo propício para aproveitar mais demoradamente o local. Entramos para um estabelecimento e ao sairmos dele ouvi muito intensamente o som de um trompete a ecoar por toda a praça e foi para mim uma sensação excepcional! Todo o sítio se encheu da mais bela sonoridade que vinha daquele trompete misterioso que se escondia por detrás de um caminhão e se posicionava em frente à estátua equestre de D. Pedro IV. Esse som mágico encheu-me o coração de uma serenidade difícil de exprimir e de apagar da memória.
Parei para tirar uma fotografia e novamente me perdi do grupo. Apressei-me a encontra-los e quando pude retomar um passo já mais descansado deparei-me com uma carrinha fúnebre do lado esquerdo que transportava um caixão, e dentro dele uma vida já esvaída. Nos bancos da  frente algumas pessoas, que pensei serem a família, e atrás seguiam-nos alguns automóveis que podiam estar incluídos no cortejo ou simplesmente estavam a seguir o mesmo trajecto. Pesou-me fortemente, foi doloroso. Talvez pela expressão carregada dos que seguiam na carrinha ou talvez pela insensibilidade de toda a cidade que continuava grosseira e apressada.
Do que vi e vivi depois não ficou em tal grau marcado. Não foi da mesma intensidade. Bonito, mas de uma beleza tranquila, característica e antiga que não pesa e por isso não craveja, mas se leva sereno no coração. Assi é o Porto, uma bonita cidade de postal, onde o céu é azul, os pedintes são simpáticos, os casais de velhinhos andam de braço dado pelas ruas traiçoeiras, as igrejas nascem em cada esquina e as ambulâncias passam continuamente, os funerais parecem de tal forma tristes e sem dignidade e as pessoas têm aspecto de ansiosas e impacientes. É o apogeu da cidade! Onde o tempo também passa e se sente o chamamento do lar.
Voltamos. E embora  nos afastássemos cada vez mais da grande cidade e entrássemos no verde da periferia, soube-me como um merecido consolo. É no campo que encontramos os vizinhos que todos os dias nos dão o Bom Dia, os grandes funerais com toda a freguesia e a serenidade das ruas desertas em tempo de trabalho. É no campo que descansa o meu coração e todo o meu corpo. E é nele que vivo e onde está toda a minha vida e todo o meu gosto!

E o campo, desde então, segundo o que me lembro, 
É todo o meu amor de todos estes anos! 
Nós vamos para lá; somos provincianos, 
Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!

(Cesário Verde - Nós)

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