"Meu caminho é por mim fora."

18/12/2014

11/12/2014

Flores



Tenho todos os sofrimentos do dia a pesar-me no estômago e assim serenamente afirmo que me apetece tombar na cama e chorar até adormecer.
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Retrato de um dia extraordinário de Dezembro


Acordei quase meia hora depois do previsto, esta manhã, demorei o menos que consegui e saí para a rua cinzenta das primeiras horas de actividade. Tinha na mente as últimas palavras da avó: "Leva roupa que hoje vai estar muito frio!",  e de facto sentia-o em todo o corpo até chegar a meio da manhã. O Sol veio espreitar-nos e nós andávamos sempre à procura da sua agradável companhia e, tirando os seus raios carinhosos, nada mais me ficou das primeiras horas. 
Ao regressar estava a avó apoiada no pilar da casa à minha espera, com a claridade própria do dia a envolvê-la, numa imagem de maternal beleza. Almocei e fui-me fazer de companhia junto dela, disse-me que a mãe viria dentro de poucas horas leva-la ao médico, mas isto não me assustou, não me assusta nada quando a vida não é minha. Iam ao velho médico de família, e mesmo sem interesse fui arrastada para o consultório. Cumprimentou-nos e a avó não tardou a começar a conversa das enfermidades, das suas enfermidades, como assim devia ser. Com o passar da consulta, desviou-se o médico para mim como se fosse a dar-me indicações e perguntou-me:
- Quando entras de férias? Na próxima semana?
Respondi  num curto "Sim" e tornou-me logo:
- Não falas muito, pois não? 
E vindo na minha direcção encetou uma conversa com  a mãe sobre o meu rosto que não me soou bem. Com o jeito habitual de quem vê o que está por fora, mas não compreende o que está no mais recôndito de alguém, prosseguiu com o diálogo e passou-nos uma receita caseira para me curar o mal. Foram para mim momentos desagradáveis, a minha função era apenas a de companhia, porém quem gostava que reparasse na minha presença põe-me de lado e quem quero que me deixe no fundo da sala vem requerer a minha figura. Tocou-me na face, apontou-me os defeitos e deu continuidade ao que dizia. Achei uma atitude rude de quem não mediu bem a essência do outro e não foi capaz de perceber que desagradava. Levantei-me do foco da conversação que me sufocava e fui refugiar-me mais perto da porta por onde ansiava sair. Cumprimentei em jeito de despedida o médico, sem grande ânimo, e voltei para o carro com quem fui a acompanhar. 
Cheguei a casa pior do que antes, com um aperto inexplicável no estômago e uma intensa vontade de chorar apenas porque podia. Mas o doutor deveria hoje aprender que quando se encontra uma porta fechada não se deve forçar a abertura. 
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10/12/2014

09/12/2014

Palavras incendeiam-se em nós


Na rotatividade eterna das estações ficou-se por agora o Outono que traz a chuva ao nosso país, veste as árvores de castanho para depois despi-las e faz o vento soar toda a noite. Tem sabor de algo antigo, dourado, entusiasmante mas agradavelmente tranquilo. É a época em que se principia a acender a lareira e os dias vão sendo cada vez mais curtos em detrimento de longas noites.
Na escuridão deste tempo nocturno, enquanto o corpo descansa e a alma se mantém vigilante, algumas palavras morrem e outras incendeiam-se em nós. Imagens passam-nos constantemente: recordações, visões, utopias, lembrando que a memória nunca morre, nem o devaneio, nem nada! Por isso, o tempo passa sem o sono vir e o coração em intenso desassossego pulsa em consonância com o enorme exército da palavra. Estremece-nos o corpo todo, porque é um só e as palavras têm muito poder que nem o corpóreo tem força e controlo sobre elas. Escrever é a forma única de amansa-las e pô-las em coerência de forma mais ou menos autoritária, e é sobretudo poder falar ao ouvido de quem nos lê, através de signos que se adentram neles, sendo lúcidos e aprazíveis.
Enquanto a manhã não chega serena e reconfortante é tempo de construir em nós um dia a estrear, num monólogo apenas interrompido por longos intervalos de silêncio. Mas tal como na escrita tanto valem as palavras como os espaços em branco entre elas, todo o momento de introspecção é necessário, é urgente quer seja com ou sem discurso. Assim, também se adora em total mudez, quando já estão gastas todas as orações e não se sabe o que Lhe dizer. Melhor talvez seja quando se está vazio e nos entra apenas o que Ele quer, ficamos vazios do que é da Terra e plenos do que é do Céu.
Do mesmo modo, ficamos quando nos ungiram com os óleos do sagrado Crisma, brilhantes, repletos de vontade de acção, ternura, piedade e com os nós da alma desatados. Pisámos pela primeira vez o caminho da constante mudança, procura incessante de santidade que tem apenas uma única fonte de onde queremos beber.


Que seja o Outono com as nuvens, as folhas, tudo num movimento de perfeita suavidade a indicar-nos vestígios de Deus em tudo quanto há. Com Ele saberemos dialogar ou calar, quando o silêncio é preciso, e a as palavras existirão em nós como prova do nosso amor, dedicação, sabedoria, fé. 

Diana F. C. da Silva
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16/11/2014

09/11/2014

Diálogos com a Avó


Entrei na cozinha e a avó estava sentada na cabeceira da mesa enquanto eu me dirigia para uma das poucas funções que tenho naquela divisão da casa: descascar batatas.  
Depois de uma conversa sobre o que seria o almoço naquele dia fez-me sentir o seu descontentamento quanto à sopa que a mãe tinha feito, chegando-se perto do fogão, abrindo a panela e dizendo:
- Olha para isto: só massa, só massa, só massa!
Ela comia sempre tudo o que lhe punham na mesa, pelo que lhe respondi surpresa:
- Não gosta de massa? 
- Massa gosto na carteira, alguma! 
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04/11/2014

O Dia A Seguir



A manhã levanta-se calma e suave, a recuperar de uma noite agitada em que o ventos sopraram fortes e a chuva veio cair nos nossos quintais. Há uma quietação própria de um dia que terminou e agora se renasce. A avó diz que lhe dói muito as costas, tal como ela também o amanhecer se restabelece das fortes fustigadas acordando os habitantes com um leve frio de pós-guerra. As árvores mantêm-se estáticas, majestosas, imperturbáveis, não lembrando em nada o rebuliço de ontem, e as nuvens adensam-se no céu iludindo-nos de que este nunca foi azul, mas branco com tonalidades cinzentas. Não acredito no dia de ontem nem em todos os outros que vieram antes, o Passado são memórias dispersas e tantas vezes enganadoras, se o céu é branco eu acredito que o seja de verdade. Mas quão difícil é afirmar com certezas, ser coerente e sempre imparcial quando a minha alma procura o que está longe e talvez não exista nunca e quando o tempo muda tanto que não é possível anotar nada com clareza! Por vezes saco da câmara e deambulo pelos caminhos que conheço olhando e vendo sempre pela primeira vez as maravilhas de um local que se conhece mas que nunca se sabe na sua plenitude. Capto a Natureza para que se alguém calcar a pequena flor ao menos eu saiba e guarde sempre a sua imagem tal e qual como existiu. Assi, tenho doces detalhes perdidos no coração, sei que existo para contemplar a existência das cousas e escreve-las de acordo com o seu âmago, desvendando o que é misterioso e recôndito e o que poucos vêem para além da superfície.
A avó passeia-se pelo quarto que é dela e pouco meu e fecha a persiana deixando-me na penumbra, vendo a meio o que há lá fora. Que metáfora bonita me fez ver sem que o soubesse! Não sente intensamente quem se fica à sombra, quem não se deixa tocar pelos raios de Sol ou pelas gotas de chuva fria. Quando a tristeza vem de mansinho bater à porta da minha alma olho para o firmamento e, como pastor à procura da ovelha perdida, espreito por entre todas as nuvens em busca de um Sol tímido e recolhido, aí a melancolia toma o caminho de regresso por onde veio ou mistura-se com o sossego que é todo contentamento.
Quando estou eu e a Natureza e a Natureza e eu, sinto que sou uma planta que se levantou e andou, mas que vai à sua verdadeira fonte buscar as forças para um mundo que é grande e nem sempre agradável. Porém, quando somos uma da outra e estamos assi bem assentes afugento o que me retira a concentração da real perfeição, de maneira que a recordação desse tempo não seja dispersa, mas concentrada no que é de Deus e posta no mundo para crescer livre e renascer a todas as mortes. E desta forma, eu posso entender o Diabo, a inveja é um ser muito poderoso quando não se tem olhos puros e não se sabe apreciar as beldades feitas por mão de Outro. Quando não temos resistência qualquer mal nos entra e nos consome, é bom que tenhamos as arestas bem limadas.  
Andar errante pelos lugares reparando e seguindo faz de mim um ser contemplativo, mas que tem em si um pedaço do que é natural, o coração balança sempre que o vento sopra, porque é feito de ramos de árvore que têm folhas e que ora dão flores e frutos ora ficam caducos e alguns pássaros se vêm aninhar ali e fazer ninho. Tenho tudo isto e tudo isto é o meu coração, pois a Natureza é a minha casa e a minha casa é onde os meus ossos repousam, mas algumas pessoas não têm nada, não sentem nada, são quase nada. 
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03/11/2014

Eles, os outros, só sabem indicar-nos as suas próprias pisadas


Hoje os artistas preocupam-se com a realidade, pretendem imitar a natureza, como se ela fosse imitável, não sentem emoções grandes porque são neutras de nascença as suas almas. [...]
[...] Em Arte estamos em absoluto desacordo. De resto, também com os amigos compatriotas que marcham numa rotina atrasada. Arte é bem outra coisa que quase toda a gente pensa, é bem mais do que muita gente julga. Tudo quanto para aqui se faz é medíocre aparte raras coisas. Porque eu não gosto de Rodin ou Ticiano, todos me dizem que sigo um mau caminho. E porquê? Se cada um se fiasse no caminho que nos aconselham nada de mais se fazia, pois que eles, os outros, só sabem indicar-nos as suas próprias pisadas. Há gente que chama ao meu estado uma pretensão para sair fora do vulgar - que pensem o que queiram, indiferente me é - eu tenho as minhas razões e bastam. Eu sei o que agrada em geral - eu na generalidade desagrado. Até certo ponto não é menos lisonjeiro. 
A técnica de que fala - coisa em que nem penso. Fixar aí a ideia é parar muito aquém do fim. Qualquer aprende. Ninguém deixa de fazer uma obra de arte intensa por falta de técnica, mas por falta de outra coisa que se chama temperamento.
[...]

Excertos de Cartas de Amadeo ao tio Francisco  
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"Meu caminho é por mim fora."

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