"Meu caminho é por mim fora."

24/08/2014

10/08/2014

Deus Maior e Deus Menor



Neste Domingo cinzento as cadelas ladram no terraço contra o vento, as crianças, barulhos ou qualquer cousa que se movimente, vejo-as através das flores coloridas da minha avó e ouço-as  pelas brechas das janelas fechadas. Está frio hoje, sabe bem um dia sóbrio em pleno Agosto, com o Sol encoberto, mas onde não falta claridade. É um dia sereno, sem excessos, ideal perfeito de neutralidade que se mantém ao longo das horas e por isso me levantei cedo e fui com a mãe à eucarística na Igreja Matriz, longe o suficiente para que qualquer sensato se sentasse à espera da próxima missa ocorrida na Igreja Nova estupidamente mais próxima de nossa casa. Ao regressarmos ao lar fizemos paragem num dos cafés onde a minha avó costuma ir conversar com as amigas e ficamos por lá até que entrou uma conhecida sem que me apercebesse. Reparei mais tarde quem era e antes que pudesse retornar ao meu lanche falou-me com uma voz tão baixa que mal pude reparar que se tinha dirigido a mim, perguntou-me:  "Está tudo bem? Como foi a escola?", respondi laconicamente sem que conseguisse desenvolver a conversa, a mãe perguntou em tom de repreensão se não perguntava pela filha da senhora, que embora tivesse andado comigo na escola não tinha comigo qualquer ponto em comum, mas não fui capaz de dizer mais nada, sorri apenas e tentei sair da conversa olhando para outro local, a senhora riu-se, chegou perto de mim passando-me a mão no rosto e disse: "Eu já a conheço! Já sei como ela é!". Quem é que me conhece? Como é que eu sou? Há tanto tempo que tenho trazido estas questões adormecidas em mim. Eu não sou elegante nos actos, nem sapiente nas palavras, nem um foco de luz quando entro numa sala, porém talvez seja tudo o que eu não sou quando estou só.
Sou alguém comedido, de bom gosto e de bom coração, o Outro para mim é um mundo à parte, de outro planeta, de outra galáxia talvez. Há os que quero por amigos, e os que sou totalmente indiferente, a estes não incomodo e espero o mesmo, é possível que por me serem tão estranhos lhes seja tão insensível. No entanto, há em mim uma vontade de simpatia, confraternização, boas maneiras. Quando um dos outros me fala as palavras agitam-se dentro de mim, mas não saem. Talvez um "tudo bem, obrigada", mas nunca um "tudo bem, obrigada, e consigo?". Os outros não percebo se não me importam de todo, ou se os temo. Se em terra divina sentir-me-ia um deus pequeno ao lado de Deuses Maiores ou um Deus Maior ao lado de deuses pequenos. Sou como sou e não sei o que é isso. Sei o que fui e talvez o que serei, mas estou perdida no meio. Sei e sinto cada parte de mim, que não poderá nunca ser mostrada por completo. Como num sacrário os meus sentimentos e virtudes estão guardados no mais fundo da minha alma, nunca se revelando quando deles preciso. Estão lá, mas talvez não saiam nunca. Mas eu que sou eu sei que existem e eu que sou eu conheço-me melhor do que qualquer familiar, amigo ou conhecido, eu que sou eu sei que não tenho limites, eu que sou eu sei que não sou os outros. Mas se a Terra continuar a virar para o mesmo lado e o Outro continuar a ser o Outro a minha vida será sempre um Domingo sereno onde não sei se sou um deus menor ou um Deus Maior.
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03/08/2014

Verde Sobre Tela


Estávamos sentados defronte para a vila, numa tarde dos inícios de Junho, a paisagem assemelhava-se a um quadro vivo, verde sobre tela. A beleza de Monet no sentimento de Munch, texturada com flores de todas as cores: vermelho, amarelo, cor-de-laranja e cor-de-rosa, as nuvens pareciam ter estacionado nos céus e só os automóveis e os cães se moviam no espaço. As árvores majestosas ocultavam as fábricas ao longe, o Sol queimava no alto e os camponeses afastavam-se dos seus raios, abrigando-se na sombra amiga.
Nós, adormecidos na pasmaceira, ouvíamos uma música actual enquanto apreciávamos a vida que decorria calmamente. A cadela passeava-se com ar de rufia, os pássaros cantavam ao ritmo da música, a limonada aquecia nos copos, uma brisa fresca corria a inspirar-nos, as ideias chegavam em bruto à espera de uma mão experiente que as trabalhasse e as transformasse numa jóia apreciada pelos corações narratários. Assim, a cada palavra floria uma nova história, erguiam-se novos castelos, vilões convertiam-se em heróis e terras inimigas faziam tratados de paz eterna.
A mente estudava o mundo ideal, colocando a mão nas fantasias de criança ultrapassava-se com alegria os obstáculos, a maldade era a invenção que ficava sempre para trás do bem, que tinha sempre lugar nas histórias felizes.
No entretanto, enquanto a imaginação passeava hipnotizada pela utopia, a vila mantinha-se num sossego campestre semelhante ao ideal de Cesário Verde. As nuvens apenas se tinham movido ligeiramente, a pequena cadela abria a boca num bocejo demorado, o astro rei continuava a alumiar plenamente as cores das flores e a música tinha-se silenciado.
Por fim, ao acordar do sonho e olhar de novo a paisagem, a felicidade inteirou-se de nós, tudo parecia ter ganho uma nova essência, a par de um salpico de alegria que cessava a pintura de uma tarde perfeita de Junho.

Diana F. C. da Silva

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27/07/2014

O Sol e o Vento



Há anos, quando era garoto, frequentei uma escola de campo, do nordeste do Missouri, e andava descalço pela mata. Um dia, li uma fábula sobre o Sol e o Vento. Discutiam qual dos dois era o mais forte; o Vento disse: «Vou provar-te que sou o mais forte. Vês aquele velho que vem lá em baixo, com um capote? Aposto em como o obrigo a tirar o capote mais depressa do que tu.» O Sol escondeu-se atrás de uma nuvem, enquanto o Vento soprava até quase tornar um furacão, mas quanto mais soprava, mais o velho segurava o capote.
Finalmente acalmou-se e desistiu; então o Sol saiu detrás da nuvem e sorriu bondosamente para o velho. Imediatamente este esfregou os olhos e despiu o capote. O Sol disse então ao Vento que a gentileza e a amizade eram sempre mais fortes do que a fúria e a força.


Dale Carnegie, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas
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17/07/2014

Faz sombra na minha varanda



É o começo de uma tarde de Verão, a avó saiu, a cadela mais nova está escondida na despensa, a casa está silenciosa e as flores continuam belas lá fora. Corre uma leve brisa que faz frio e nos acalma dos dias calorosos da época de estio e já faz sombra na varanda enquanto o Sol bate nas casas da frente. Há solidão e quietude neste lar e agitação, cor e vivacidade na rua, eu estou sentada perto da janela onde se cruzam estes dois mundos e me atingem na mesma intensidade, também em mim há silêncio e chilrear de pássaros, escuridão e luz, alegria e tristeza, tudo do mesmo modo. Vive em mim um vento que sopra de mansinho e faz balançar levemente o meu coração, e existe mares e campos, melodias e aromas, em tudo semelhantes ao que está de fora. É tão custoso viver com tanto vento e mar dentro, e é tão árduo fazer com que passem do âmago para o exterior, são palavras e gestos que se acumulam e fazem com que menos uma ave cante, que o mar se torne tempestuoso, e que o céu se feche. As palavras ouvem-se roucas, agarradas à raiz, ou não se ouvem de todo, o papel mantém-se em branco e nasce em mim uma recriminação de uma dever que se mantém por cumprir, como a oração da manhã de hoje que ficou por dizer. A folha fica estendida à minha frente e eu olho-a como se fossemos estranhos e eu não tivesse sabido nunca o que lhe escrever, mas num mundo onde tenho duas mãos infrutíferas, registar por escrito é a minha única obrigação e o meu único dom e se nasci foi só para dar corpo às dádivas das quais não me poderei separar em tempo algum. Por momentos, enquanto a mão está pousada sobre o papel somos um só e é como se a alma, o quotidiano e o abstracto se pudessem tornar concretos: visíveis, audíveis e tocáveis. Ter o compromisso cumprido faz com que os elementos se restabeleçam dentro de mim, quando a obra está terminada é que eu vivo, tudo o que faço a mais é nada. Quero abarcar tudo o que sou e tudo o que há e ao passo que o tempo foge, a memória e o que está escrito fica para sempre. Que não deixe jamais de existir estas tardes de Verão, em que a casa está vazia e se fica suspenso entre dois mundos onde existe regozijo e sossego e que o Sol não deixe nunca de iluminar, mesmo que apenas nas casas da frente enquanto faz sombra na minha varanda. 
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09/07/2014

The Angel


I dreamt a dream!  What can it mean?
And that I was a maiden Queen
Guarded by an Angel mild:
Witless woe was ne'er beguiled!

And I wept both night and day,
And he wiped my tears away;
And I wept both day and night,
And hid from him my heart's delight.

So he took his wings, and fled;
Then the morn blushed rosy red.
I dried my tears, and armed my fears
With ten thousand shields and spears.

Soon my Angel came again;
I was armed, he came in vain;
For the time of youth was fled,
And grey hairs were on my head.


William Blake 
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26/06/2014

Tudo que faço ou medito


Tudo que faço ou medito
Fica sempre pela metade,
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço —

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa
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05/06/2014

De dentro para fora


Num dia do ano passado, que a memória já não me permite recordar com exactidão, a tia Clara ofereceu-me um colar com um pequeno Anjinho de mãos erguidas. Não sei o que pensei na altura, a avó havia-me já oferecido um que tinha tirado há algum tempo, passava sem nada no pescoço, mas creio que a imagem celestial me fez querer que se mantivesse no meu peito por muito tempo. Guardei-o, talvez na algibeira, e coloquei-o ao chegar ao lar. Permaneci muito tempo sem perceber o seu verdadeiro poder. Acompanhava-me todos os dias apenas como recordação de uma tia querida. Porém, certa vez, numa noite sem sono onde a escuridão parece penetrar-nos até ao mais íntimo apertei esse colar com força e também eu orei para que esse Anjo que se mantinha sempre perto do meu coração fizesse acalmar o mar de dentro e me permitisse pôr em descanso. Como se nunca tivesse retirado o ouvido de perto do meu peito, esse pequenino Anjo sossegou-me os tumultos e fez o sono vir sem demora. E como numa descoberta fantástica persisti no rito, o Anjo iluminava as horas mortas, afastava os fantasmas e fazia os olhos fecharem-se com leveza, eu apertava-o com devoção e ele ouvia as minhas palavras silenciosas, era o meu protector: gentil e grandioso. Em qualquer parte do mundo, ao pé das flores do jardim ou no meio da multidão furiosa ele era o meu deus mais próximo, pessoal e estimado. No entanto, como numa história de final trágico, a mão procurou fechar-se no colar, todavia apertou-se em si mesma sem encontrar o seu guardião. Em poucos instantes as tempestades afloraram-me na alma, os espectros ergueram-se e as trevas ressurgiram. O Anjo estava caído no chão, partido do resto da moldura que o envolvia, senti-me desamparada, como um rei tinha a sua coroa, um guerreiro a sua espada, eu tinha o meu Anjo próximo, pessoal e estimado. Segurei-o com cuidado sobre as duas mãos, como uma vez tinha feito uma ministra extraordinária da comunhão com uma hóstia consagrada caída. Pousei-o sobre a mesa e voltei a segurar fortemente o colar agora vazio, procurei a mãe, dona de todas as soluções, e desejei ardentemente voltar a coloca-lo junto ao peito. Como a mãe não lhe viu uma resolução, permaneceu colocado sobre a mesa esquecido. O tempo passou, o Anjo não retornou para a sua casa e mesmo sem aparente significado esta pequena moldura continua a balançar no meu pescoço. E quando me perguntam o seu significado não tenho uma resposta coerente a dar, a moldura continua como um memorial, uma recordação de máxima protecção. O Anjo permanece agora fechado num velho porta-jóias da avó juntamente com todas as suas pequenas preciosidades e, embora enclausurado numa nova casa, mantém-se no meu peito com a mesma grandiosidade de outrora, mas desta vez invisível aos olhos e ao tacto, lutando contra os temporais e cada vez mais evidenciando-se de dentro para fora.
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18/05/2014

Dia de Anos

A Zeferino Brandão


Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois, se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!


João de Deus
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04/05/2014

"Meu caminho é por mim fora."

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