"Meu caminho é por mim fora."

30/03/2015

Sempre o dia nasce após a noite



As manhãs nascem leves, frescas e com tons por definir, é preciso agasalho para caminhar na rua nas primeiras horas do dia. Nestes momentos de meio termo entre a noite escura e o dia pleno não há sons do quotidiano, há o silêncio do vento a bater nas folhas das árvores altas e magras, a saudade crescente do calor do lar e a esperança de um decorrer de dia sereno, sem preocupações que nos agitem a alma ou nos faça chorar o coração. 
Os dias passam lentos, embora pensemos que correm velozes, porque as horas são vazias e o seu tempo preenchido. O relógio marca a passagem de semente, a planta débil, a planta vigorosa que dá flor, e mais tarde fruto, e quem o come tem os cabelos brancos a crescerem-lhe na cabeça. Que má sorte a que nos faz nascer para morrer e não morrer para nascer! Alguém vela por nós, porém, para que descansemos sem temores e despertemos para a luz e não para as trevas. Ouvi também promessas de que o Seu Paraíso não é pequeno e que as luzes não permitem sombras e deixam ver claramente, mesmo quando se fecham os olhos, que só vêem o aparente, pois a alma torna-se a visão dos cegos e a alegria dos miseráveis. E enquanto cá estamos, turistas da própria vida, somos surdos e insensíveis a tudo quanto não nos afecta directamente. Mas, Senhor, queremos ver-Te com definição no sorriso desdentado das crianças, e no postiço dos idosos, ouvir-Te no cantar simples dos pássaros, cheirar-Te nos campos repletos de flores que crescem espontaneamente, sentir-Te no pêlo macio dos cães, saber-Te o gosto no pão que partilhamos na Eucaristia, inteirarmo-nos de Ti, da tua branda doçura. Aproxima-Te, abre os Teus braços e deixa-nos cientes disso, para que mesmo caindo possamos chegar até ao Teu abraço. Porque sabemos de Ti, no entanto não Te vemos na nossa busca incessante e a nossa vigília é em vão. Retira, Deus nosso, as sombras do nosso coração, as névoas dos nossos olhos e os freios das nossas mãos, para que estejas presente em tudo e para que tudo sejas Tu. 
Pois, quando a noite cai gentilmente sobre os campos e as casas da povoação, mudando a cor do céu gradualmente, o frio que passa pelas frestas das portas arrefece-nos e dá-nos vontade máxima de nos deixarmos cair sobre o leito quente e reconfortante, todavia a realidade não desaparece. A noite é o tempo de preparação para o que virá no amanhã e esse porvir com as suas esperanças é Ele, que nos oferece o renascer, em cada dia após a noite.
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24/03/2015

08/03/2015

Humanidade Inteira


Os dias de Carnaval passam rápidos, envoltos em folia e divertimentos diversos, a população sai à rua quando o tempo de Inverno o permite e liberta-se de todas as preocupações que se têm arrastado nas suas vidas. Os mascarados trazem-nos agradáveis espectáculos visuais, os grandes carros alegóricos pintam a realidade de cores excêntricas e toda a existência parece uma brincadeira contínua. 
Nesta mesma altura inicia-se o tempo de caminhada para a Páscoa, época de sacrifícios e privações que nos permitirá romper com o homem velho que há em nós e fazer nascer o espírito de solidariedade. Durante a Quaresma é necessário que através de jejuns e abstinências nos assemelhemos cada vez mais Àquele que deu a vida por nós. 
É urgente a procura de valores maiores, colocando sempre o próximo no centro de todas as nossas decisões: estando atentos às angústias daqueles que nos rodeiam para que também eles se possam regozijar com a ressurreição de Jesus; partilhando dos nossos bens com o outro que vive só e perece de fome; fechando o nosso coração à indiferença e aos desperdícios, vivendo humildemente e servindo de exemplo cristão para todos que nos observam, de modo a que alcancemos uma alma fortalecida, aberta a Deus e mais próxima dos necessitados. 
Esta foi a missão de Cristo, o caminho que construiu e no qual todos nós somos convidados a percorrer e a dar continuidade aos seus feitos, edificando novas pontes que nos levarão àqueles que vivem isolados da Sua luz.

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02/03/2015

28/02/2015

16/02/2015

Bosque Outonal


Um texto de 2011 para a escola com base na observação desta imagem,

Um Sol manso e carinhoso sobe ao céu para iluminar, mais um dia, o bosque com a promessa de um dia de Outono exemplar. As cortinas deixam transparecer raios daquele astro transcendente, fazendo-me despertar de um sono profundo e envolto em sonhos a preto e branco. Depois dos olhos bem abertos para o Mundo palpável e as cortinas escancaradas, deixando o quarto obscuro e sentimental aclarar-se com luzes e preencher-se de odores outonais, sento-me na secretária e fico a ouvir os sons que a estação traz: as folhas secas a rolarem rumo ao tudo ao nada, as borboletas a esvoaçarem, os pássaros a chilrearem cantigas novas aos seus amores, os meus pensamentos de Outono recheados de fantasia… E sinto que «tudo vive em mim» e em tudo sinto a minha presença, a minha presença deliciosamente enfraquecida e velha, como envelhecido é o Outono.

Da janela grande do meu aposento, contemplo a época no seu auge, num bosque perdido entre o lugar nenhum e a civilização, é neste espaço que se vêem pousadas as cores verdes, amarelas e encarnadas, próprias deste tempo que tanto se assemelha ao Paraíso imaginado. Nessa imagem repousa a minh´alma, a minha exaustão do Mundo visitado e sobretudo as minhas saudades. Gosto de soltar a saudade ao vento e vê-la a caminhar de mãos dadas com a terra quente do pós chuva, mirar os seus pés ensanguentados calcarem as folhas secas e gastas, soltando um rasto escarlate de angústia e solidão sobre o amarelo manto do antes Inverno. Deixo que tudo prossiga, agrada-me o espectáculo de cores e as imagens dolorosas, desta maravilha teatral! Esqueço as saudades e respiro a plenos pulmões a doce fragrância que paira nos ares, desintoxicando a rotina das essências industrializadas. É repugnante querer outro local, outra vida, outra alegria! Há maior alegria, que dias quentes e brandos e uma enorme satisfação?

Tal como eu, há quem goste de se envolver com o Outono: meninas que todos os dias visitam o meu enorme jardim. Nunca ousei perguntar os seus nomes, tão-pouco com elas brinquei… São miúdas de tenra idade, mais exactamente seis ou sete anos e com uma alegria inesgotável, que por vezes tanta inveja e nostalgia me provoca. Houve certo dia que me marcou especialmente, pelo facto de ter deixado o enfadonho apoderar-se de mim, tudo se havia passado justamente num dia outonal: depois duma manhã cansativa de aulas regressei ao meu lar, nada tinha feito de peculiar e nada tinha previsto para o resto da data. Sentei-me perto da janela e aí fiquei a mirar toda aquela beleza morta que apenas se movimentava ao sabor do vento meloso e a suicidar-me na quietude das horas vagas. Logo, logo apareceram aquelas estranhas criaturas, a imagem representava a ausência da tristeza num local tão belo. Vinham de pijamas, o que me reavivou as manhãs em que acordava com o Sol ermo e sem obrigações deixava-me ao abandono das circunstâncias monótonas. Tinham as duas cabelos aclarados, acarretavam casacos e xailes, sobrepostos aos pijamas infantis. Admirou-me estarem tão felizes a brincarem com a Natureza, em vez de acharem-se em frente ao computador ou à televisão. Era mágica aquela figuração: a chuva de folhas coloridas a caírem sobre as meninas que soltavam risos da mais plena felicidade e erguiam as mãos para apanharem as folhas e novamente mandarem-nas ao ar, faziam-no vezes sem conta e eu quase chorava de tanta emoção, mas engoli as lágrimas, nem uma escorreu pela minha face. Brincavam e nas suas brincadeiras eu sofria, a dor da emoção maior e com esse pesar eu sentia-me satisfeita. Depois vinham os progenitores que as chamavam para o almoço e alegres elas iam ao encontro dos seus manjares. Eu ficava só, no meu quarto recolhida e de novo o lugar ausentava-se de jovialidade e ouvia-se o som do silêncio, o som do nada. Isto passava-se quase todos os dias de Outono e quase todos os dias de Outono eu me deleitava ao observar tanto contentamento.

O bosque preenchido de solidão e magia, com um manto de flores tricolores e secas, com árvores altas que ofuscam o Sol e o vento que faz rodopiar as folhitas…

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12/02/2015

Ano Novo, Nova Vida



Após os relógios baixarem aos zeros, iluminaram-se os céus das mais vivas cores e a população acorreu às varandas para presenciarem o espectáculo, é a única noite do ano onde todos celebram o abandono das velhas rotinas para abraçarem a sua visão ideal a alcançar no ano que se estreia.
As crianças ficam acordadas até mais tarde, alguns apressam-se a cumprir todas as superstições e outros deitam-se à hora costumeira como se na verdade a passagem de ano não fosse mais do que um habitual passar de um dia para outro. Mas é muito mais do que uma passagem cíclica quando a força da mudança se vem nascendo em nós, por isso a importância transcendental que esta data possui. 
Porque o ano principia-se como um renovar da vida, a passagem entre duas margens de um rio, onde a viagem é necessária quando se quer crescer e descobrir as felicidades de que estivemos privados por preguiças, má gestão de tempo ou mau génio. É hora de procurar a paz interior, caminhar em direcção às fontes da vida plena, deixar a nostalgia de um passado que não regressa mais e viver em conformidade com o que o quotidiano nos oferece. 
Assim, procurando e aproveitando as oportunidades, o novo ano apresenta-se como um livro onde nós somos os autores e nos cabe fazer dele um best-seller ou um novo objecto esquecido na estante.

Diana F. C. da Silva
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06/02/2015

Memória


Um antigo texto de 2011.

A porta foi fechada e aprisionados os ecos da memória que inda ressoam na voz do velho. A guitarra geme com o passar do vento e faz chorar os olhos das avozinhas do parque e o cheiro da comida já preparada paira no ar da pequena cidade. Ao longe a igreja que se fez nova para oferecer espaço à geração recente, faz lembrar alguns anos passados e o enorme caminho de terra que agora é apenas alcatrão constantemente pisado. A terra emana o fruto do outrora árduo trabalho dos nossos antecessores e transforma-se em raios de sol guardados na algibeira da lembrança. No muro duas crianças sentadas a conversarem, fazem o seu jogo de cores, alegres olham a rua.

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31/01/2015

Mother and Child


A mãe levou-me a fechar a quinta, fomos ao som de canções de vários artistas deste e do outro século. Ao chegarmos tínhamos já a Bi à nossa espera junto à porta, pronta a saltar-nos à roupa para lhe acariciarmos a cabeça por uns momentos. Fui também acarinhar uns gatinhos que lá moram, mostraram-se relutantes a ceder à ternura dos meus afagos e fugiram para onde não os pudesse tocar, mas creio ser próprio da sua espécie. 
Dirigi-me finalmente para a casa e principiei a fechar as janelas, após a mãe advertir-me dos perigos do solo que se encontrava escorregadio, devido a uma tinta que lá se tinha vertido. Pousei o pé sobre ela e deslizei-o, parecia-me seca e sem perigos, por isso continuei o trabalho e tranquei toda a casa, ao voltar para dentro e como nunca estando o corpo realmente bem assente nos pés, num instante estava já ao comprido no chão. A mãe veio rapidamente pôr-me de pé de novo, sentou-me e rogou pragas ao que me fez escorregar. Sem qualquer dano, apenas com a impressão do impacto da queda, preocupava com a eventual sujidade da roupa, enquanto a mãe me abraçava aflita. Afirmei-lhe que estava bem, ri-me até:
- Pronto, já chega, já estou bem!
Persistia a envolver-me nos braços. Percebi que a possibilidade de uma pequeno desastre a tinha perturbado, e senti que aquele abraço com um beijo de carinho foi como os Trinta Gloriosos após a Segunda Guerra Mundial. 
Voltamos ao lar, tenho a parte direita ligeiramente dolorida e um coração aquecido pela lareira e pelo amor da minha mãe. 

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29/01/2015

"Meu caminho é por mim fora."

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