"Meu caminho é por mim fora."

23/02/2013

Sono


A mãe mandou-me deitar, mas fiquei para ouvir uma última canção de amor. E as imagens que passam pelo ecrã, os romances de telenovela, as imagens de pessoas perfeitas já não me satisfazem! O mais certo, o mais feliz é tombar na cama e ficar pela escuridão do sono sem sonhos. 
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17/02/2013

Dentro dos Meus Olhos



  A minha mãe aparecia e desaparecia. A casa era um labirinto de sombras. O quintal suportava o tempo dos pessegueiros. As ruas da vila aproveitavam o descanso. Era um serão do início de Setembro, um silêncio morno, a ideia de um lago. Era a véspera de eu fazer doze anos, estava sentado no último degrau da porta do quintal. As fitas caíam-me pelos ombros, cabelos compridos de plástico colorido, tocavam-me as costas.   Eu estava em tronco nu, ombros finos. Se me encontrasse, entrava no mundo da casa: a minha mãe a fazer tarefas secretas, a mover-se entre as coisas, debaixo de luzes apagadas, a casa fresca e escura, ângulos negros desenhados no lugar onde sabíamos estarem os móveis. Se me inclinasse: o quintal. Depois dos muros, as ruas da vila. O quintal não suportava mesmo o tempo nos ramos dos pessegueiros, mas parecia. A noite tinha muitas estrelas. Hoje, não me recordo do que tinha feito nesse dia. Os meus amigos tinham nomes. Nesse tempo, eu e os meus amigos passávamos tardes inteiras juntos. É muito provável que os tenha encontrado nesse dia. Se conversámos, falamos de Agosto que ainda trazia na cor da pele, ou falámos da escola, que voltava a ser possível. Embora me faltem pormenores, aquilo que sei é que,  pela memória, sou capaz de regressar àquele serão, 1986, em que estava sentado no último degrau da porta do quintal. O meu pai tinha adormecido havia muito tempo, o seu sono existia dentro de um dos quartos da casa.

  Hoje eu sei quanta serenidade é necessária para que um pai adormeça antes do seu filho. Aqui, onde estou, sei isso. São paredes à minha volta, a seguir está Fevereiro, o frio. Para além do som das teclas do computador, o ponteiro dos segundos de dois relógios , alternados, um aqui outro ali. Depois das paredes, às vezes, um autocarro, ou silêncio. Este lugar, este tempo, sob o ponto de vista de quem está rodeado de palavras, a escrever, como é o caso, pode ser comparado a estar sentado no último degrau da porta do quintal, na véspera de fazer doze anos. Como nesse dia, se me encostar ou inclinar, entro em mundos diferentes. Em 1986, eu estava numa situação que pode ser comparada a estar aqui, agora, (...)  e isso é extraordinário, conforme se verá.
  Uma razão forte para essa admiração é que, aqui, nesta penumbra, paredes, ouço agora uma ambulância, dois relógios, posso imaginar todo o futuro. Essa é uma possibilidade incontestável. Não sei distinguir o possível do impossível, mas sou capaz de imaginá-la a ambos. E talvez a verdade esteja espalhada ou escondida em alguma parte desse infinito. Se isso não é extraordinário, desisto. Impressionante também é o facto de que quase tudo o que aqui disse sobre mim, pode igualmente ser dito sobre ti. Para este efeito, os meus olhos são os teus. Também tu estás num hoje em que podes recordar e em que podes imaginar. Sim, tu. Se não conheces a véspera de fazeres doze anos, com a sombra da tua mãe, etc., é porque conheces outra ocasião que apenas tu saberás e que poderás lembrar hoje ou, mais tarde, num dia em que estejas assim, entre memórias e possibilidades. O tempo não passa depressa, mas passa.  O quintal nunca suportou o seu peso nos ramos dos pessegueiros. Apenas parecia muito nitidamente que era assim. Às vezes, ainda parece. Existe a precisão geométrica e os registos; no entanto, depois do amor, provou-se que nada tem que ficar como está ou de ser como é.
  Hoje, tenho estas paredes à minha volta e a suspeita de que, entre o que sei está tanto daquilo que serei. O que ainda não está aqui, iniciou já o seu caminho, dirige-se ao ponto onde me encontrará. É assim contigo também. É necessária paz para aceitar esta certeza simples, é necessária uma mistura de ponderação e entusiasmo para sermos capazes de desenhá-la pelos nossos contornos, tanto quanto possível, claro. Isto que parece banal são os desafios que a vida nos coloca. Aqui, neste momento, somos uma espécie de monstro num jogo de computador, carregamos o passado e o futuro, temos uma forma assustadora. E, no entanto, para lá da abstracção, este é um lugar normal, aquecido, e, hoje, aqui, é dia 6 de Fevereiro de 2009, escrevo agora este texto e, às nove horas da noite, passam doze anos sobre o instante em que o meu filho mais velho nasceu. 


Luís Peixoto
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31/01/2013


9.6.2012
É Terça-feira de Primavera, mas chove e o frio obriga-nos ao agasalho. É frustrante sentir como os dias se vão e como ficamos cada vez mais velhos. Sinto-me incapaz de um pensamento longo, coerente, intenso, acho que perco  um pouco de mim em cada instante, um pouco de diversão, de vivacidade, de auto-conhecimento... A quietude toma-me por completo, a ansiedade do dia de ontem persiste e eu amo-me mesmo assi. Eu quero que seja para sempre, todos os meus sentires, tudo o que é meu, tudo o que é de mim. Porque é Primavera e chove... Porque há felicidade e sofro!
Não tenho a certeza, a vontade de fazer algo. Como se os meus ossos se atrofiassem e encaixassem eu fico estática, sentada, vazia. Dói-me a mão, as pernas de estarem cruzadas, a parte posterior de estar sentada, as costas de estar encostada, dói-me o que sinto e o que não sinto.
Nos meus pensamentos revejo todas as formas da minha morte.

          Eu quero especialmente uma matilha a atacar-me ferozmente e a arrancar a minha carne. 
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16/01/2013

As Férias Grandes do Verão


Era 2011 e a professora gostou.

Eu levantei-me, vesti-me, saciei a fome, li, almocei, liguei o computador, desliguei o computador, fiquei parada em frente à janela, vi televisão, o tempo passou com rapidez e deitei-me. 
Em quase todos os dias de Verão tive a a agradável companhia da Ângela. No entanto o tempo em que estive sozinha foi o mais imprescindível. Ser um animal racional é maravilhoso, é como ter um recipiente vazio e poder enche-lo dos mais fantásticos sentimentos e pensamentos. No tempo de solidão há a possibilidade de descobrir o que ao longo dos anos pusemos na caixa mágica. E estas férias foram o tempo que precisava para me sentar e pensar, nada mais do que isso. 
Ao contrário das férias últimas, o tempo pareceu-me ter passado velozmente pelo calendário. É certo que foram muitas mais as distracções, no entanto sinto que evoluí imenso de um Verão para outro e isso reflecte-se na maneira como penso e consequentemente como vivo.
Os dias de Sol, a água a escorrer, os meninos juntos e alegria estragada de nada fazer. O trabalho é demasiado desgastante, mas a inércia é tão favorável como desoladora. 
Porque no Verão eu levantei-me, vesti-me, saciei a fome, li, almocei, liguei o computador, desliguei o computador, fiquei parada em frente à janela, vi televisão, o tempo passou com rapidez e deitei-me.

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06/01/2013

Estive dois dias sem ir à escola


Estive dois dias sem ir à escola. Quando voltei, ia mais desatento do que nunca. Acontecia com frequência ser apanhado alheio à lição, era o pior que se podia fazer ao professor! Espetava o dedo na minha direcção:
- Ora diga, senhor Rui!
Tremia na carteira. Nessas ocasiões fazia-se um silêncio enorme na aula.
- Não entendi a pergunta...
O professor ficava irritado:
- Não entendeu ou não ouviu?

Manuel da Fonseca
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25/12/2012

Marco


Tia - Não era ontem que dava o Marco?
Mãe - Não... era... era, era ontem, era !
Eu - Não era no Domingo?!
Mãe - O Domingo foi ontem!
Eu - Eu sei lá!


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23/12/2012

Setembro



Era um dia perdido no mês de Setembro e eu não tenho muitas recordações desse dia, desse mês, desses tempos. A mãe vinha-me preparando com livros de aprendizagem do alfabeto e dos números. Nessa época a vida não era mais do que ver desenhos animados e comer bolos caseiros. De quando em vez aparecia alguém em nossa casa e eu brincava à sua volta. Era normal perguntarem-me a idade e sobre quando iria entrar para a escola, eu não ligava muito a essas conversas.
Naquele dia a mãe levou-me à escola onde andava o meu irmão com material por estrear. Recordo-me desse dia como um marco negro, uma tempestade, um dia muito difícil. Tenho a ideia que nesse dia principiou uma revolução lenta na minha vida, quase como uma "romanização".
Nos dias que correm a escola e a vida são uma rotina, raramente há algo de novo, raramente há algo pelo qual me surpreender. A escola é agora tão-somente o ponto de partida para um Futuro escuro e incerto. 
Mas lembro os dias que se passaram depois da entrada para a escola, foi terrível, mas tudo se acalmou.
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02/12/2012

Histórias do Fim da Rua


"Quando morreu o pai do Nazarinho já eu vendera o tambor, o bombo não. Morte mais parva! Então, o homem, embarcadiço, fartinho de penar por esses mares, gramando borrascas e aflições, dois naufrágios - e vem lerpar afogado no tanque da comadre Lucília, ainda por cima com maré baixa!"

Mário Zambujal
Histórias do Fim da Rua
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20/11/2012

Rosas


Apareceu-me por entre as rosas que o Sol doirava, como miragem os seus cabelos balançavam com a brisa e os seus olhos ardiam ao mirar-me. Eram seis da manhã, o dia estremunhava em silêncio. Tinha temor e não o sentia. Colocava-se frente a mim e eu contida vigiava de longe, enquanto ele acarinhava as rosas e lhes vomitava sangue. Cantava em suspiros e toda aquela imagem serena de sofrimento afligia-me. O frio arrepiava-me e eu tremia de susto.
Ele afagava as rosas e pintava-as com sangue, ao mesmo tempo que cantava músicas inexplicáveis e eu comedida no meu tormento encerrava-me no meu interior. Ele afagava as rosas... Era cedo de mais, era cedo de mais para qualquer visão, para qualquer cousa.
Quando bateu sete na torre da igreja desapareceu por entre as rosas como milagre.
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15/11/2012

Diálogo ridículo




*Língua Inglesa

A professora chama a atenção a uma aluna que tapa a cara com o cabelo para falar com o colega do lado: 

- Olha outra cortina! Sabes para quem estou a falar não sabes, M*?...  Esta é a turma dos cortinados!

R. - Porque é que a nossa turma é a turma dos cortinados?
Prof. - Este só ouviu agora!
I. - Porque todos os nossos antepassados tiveram lojas de decorações.
R. - Os meus não!
I. - Como é que sabes?
R. - Porque são todos trolhas e agricultores!
I.- São todos trolhas e agricultores?
R. - Sim! O meu avô é lavrador!
Prof. - E o que é que isso tem?
R. - É lavrador de profissão.
Prof. - Sim, e o que é que isso tem?
R. - É honesto!
Prof. - ... E só os lavradores é que são honestos?! ... As outras pessoas de outras profissões não são honestas?
R.- ... não sei! O meu avô é honesto! 
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