"Meu caminho é por mim fora."

17/07/2014

Faz sombra na minha varanda



É o começo de uma tarde de Verão, a avó saiu, a cadela mais nova está escondida na despensa, a casa está silenciosa e as flores continuam belas lá fora. Corre uma leve brisa que faz frio e nos acalma dos dias calorosos da época de estio e já faz sombra na varanda enquanto o Sol bate nas casas da frente. Há solidão e quietude neste lar e agitação, cor e vivacidade na rua, eu estou sentada perto da janela onde se cruzam estes dois mundos e me atingem na mesma intensidade, também em mim há silêncio e chilrear de pássaros, escuridão e luz, alegria e tristeza, tudo do mesmo modo. Vive em mim um vento que sopra de mansinho e faz balançar levemente o meu coração, e existe mares e campos, melodias e aromas, em tudo semelhantes ao que está de fora. É tão custoso viver com tanto vento e mar dentro, e é tão árduo fazer com que passem do âmago para o exterior, são palavras e gestos que se acumulam e fazem com que menos uma ave cante, que o mar se torne tempestuoso, e que o céu se feche. As palavras ouvem-se roucas, agarradas à raiz, ou não se ouvem de todo, o papel mantém-se em branco e nasce em mim uma recriminação de uma dever que se mantém por cumprir, como a oração da manhã de hoje que ficou por dizer. A folha fica estendida à minha frente e eu olho-a como se fossemos estranhos e eu não tivesse sabido nunca o que lhe escrever, mas num mundo onde tenho duas mãos infrutíferas, registar por escrito é a minha única obrigação e o meu único dom e se nasci foi só para dar corpo às dádivas das quais não me poderei separar em tempo algum. Por momentos, enquanto a mão está pousada sobre o papel somos um só e é como se a alma, o quotidiano e o abstracto se pudessem tornar concretos: visíveis, audíveis e tocáveis. Ter o compromisso cumprido faz com que os elementos se restabeleçam dentro de mim, quando a obra está terminada é que eu vivo, tudo o que faço a mais é nada. Quero abarcar tudo o que sou e tudo o que há e ao passo que o tempo foge, a memória e o que está escrito fica para sempre. Que não deixe jamais de existir estas tardes de Verão, em que a casa está vazia e se fica suspenso entre dois mundos onde existe regozijo e sossego e que o Sol não deixe nunca de iluminar, mesmo que apenas nas casas da frente enquanto faz sombra na minha varanda. 
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09/07/2014

The Angel


I dreamt a dream!  What can it mean?
And that I was a maiden Queen
Guarded by an Angel mild:
Witless woe was ne'er beguiled!

And I wept both night and day,
And he wiped my tears away;
And I wept both day and night,
And hid from him my heart's delight.

So he took his wings, and fled;
Then the morn blushed rosy red.
I dried my tears, and armed my fears
With ten thousand shields and spears.

Soon my Angel came again;
I was armed, he came in vain;
For the time of youth was fled,
And grey hairs were on my head.


William Blake 
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26/06/2014

Tudo que faço ou medito


Tudo que faço ou medito
Fica sempre pela metade,
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço —

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa
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05/06/2014

De dentro para fora


Num dia do ano passado, que a memória já não me permite recordar com exactidão, a tia Clara ofereceu-me um colar com um pequeno Anjinho de mãos erguidas. Não sei o que pensei na altura, a avó havia-me já oferecido um que tinha tirado há algum tempo, passava sem nada no pescoço, mas creio que a imagem celestial me fez querer que se mantivesse no meu peito por muito tempo. Guardei-o, talvez na algibeira, e coloquei-o ao chegar ao lar. Permaneci muito tempo sem perceber o seu verdadeiro poder. Acompanhava-me todos os dias apenas como recordação de uma tia querida. Porém, certa vez, numa noite sem sono onde a escuridão parece penetrar-nos até ao mais íntimo apertei esse colar com força e também eu orei para que esse Anjo que se mantinha sempre perto do meu coração fizesse acalmar o mar de dentro e me permitisse pôr em descanso. Como se nunca tivesse retirado o ouvido de perto do meu peito, esse pequenino Anjo sossegou-me os tumultos e fez o sono vir sem demora. E como numa descoberta fantástica persisti no rito, o Anjo iluminava as horas mortas, afastava os fantasmas e fazia os olhos fecharem-se com leveza, eu apertava-o com devoção e ele ouvia as minhas palavras silenciosas, era o meu protector: gentil e grandioso. Em qualquer parte do mundo, ao pé das flores do jardim ou no meio da multidão furiosa ele era o meu deus mais próximo, pessoal e estimado. No entanto, como numa história de final trágico, a mão procurou fechar-se no colar, todavia apertou-se em si mesma sem encontrar o seu guardião. Em poucos instantes as tempestades afloraram-me na alma, os espectros ergueram-se e as trevas ressurgiram. O Anjo estava caído no chão, partido do resto da moldura que o envolvia, senti-me desamparada, como um rei tinha a sua coroa, um guerreiro a sua espada, eu tinha o meu Anjo próximo, pessoal e estimado. Segurei-o com cuidado sobre as duas mãos, como uma vez tinha feito uma ministra extraordinária da comunhão com uma hóstia consagrada caída. Pousei-o sobre a mesa e voltei a segurar fortemente o colar agora vazio, procurei a mãe, dona de todas as soluções, e desejei ardentemente voltar a coloca-lo junto ao peito. Como a mãe não lhe viu uma resolução, permaneceu colocado sobre a mesa esquecido. O tempo passou, o Anjo não retornou para a sua casa e mesmo sem aparente significado esta pequena moldura continua a balançar no meu pescoço. E quando me perguntam o seu significado não tenho uma resposta coerente a dar, a moldura continua como um memorial, uma recordação de máxima protecção. O Anjo permanece agora fechado num velho porta-jóias da avó juntamente com todas as suas pequenas preciosidades e, embora enclausurado numa nova casa, mantém-se no meu peito com a mesma grandiosidade de outrora, mas desta vez invisível aos olhos e ao tacto, lutando contra os temporais e cada vez mais evidenciando-se de dentro para fora.
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18/05/2014

Dia de Anos

A Zeferino Brandão


Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois, se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!


João de Deus
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04/05/2014

28/04/2014

Nada na agonia da tarde mexe


Nada na agonia da tarde mexe,
que nada no céu de cinzas se distingue
do que entre as árvores e as casas
certamente passa. Só
um fumo de mais cinza negra sobe,
nos ares elevando esguia a vida. 

A aldeia, o mundo inteiro
que da exígua janela vejo.
A casa, a minha, que os outros
das exíguas janelas veem.

Cada um de nós 
a casa sua por dentro vê
e a dos outros à janela. 

Cada casa é o fogo
que os outros veem fumo. 

Fernando Hilário
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23/04/2014

Missa de Sétimo Dia


 Viverás ainda na memória dos que te conheceram. Depois esses hão-de morrer. Depois serás exactamente um nada, como se não tivesses nascido.

Este excerto que agora serve de mote a este texto que escrevo, li-o há algumas horas pela primeira vez, num livro de Vergílio Ferreira. Tocou-me de especial modo e talvez por isso o tenha gravado na cabeça e no coração. Parece que como nos textos de Literatura era um indício para o que se ia resultar ao longo do dia, mas esse já ia a meio, quase mesmo a terminar e a avó como era hábito tinha saído para a eucarística, e eu como cristão de Domingo fiquei-me em casa, onde a comodidade é maior e o tempo passa com lassidão.  Mais tarde, já depois do jantar, irrompeu na porta principal e não demorou a retaliar-me por não estar presente na missa de sétimo dia do avô do André. Por entre a voz exaltada da avó, a alma doeu-me. O avô do André tinha falecido na Sexta-feira da Paixão e o enterro tinha acontecido no próprio Domingo de Páscoa que por ser um dia agitado impossibilitou a minha presença. Na verdade, soube já fora do tempo e agora falhei de novo e por isso, soube-me pior do que comer carne estragada, espetar um prego no pé ou cair em frente de uma multidão, feriu-me no mais profundo do meu íntimo. Ao  contrário do que havia acontecido em tempos passados no funeral do senhor Abel, avô da Rita, senti-me insuficiente, como se toda a minha amizade tivesse errado naquele dia e uma grande fenda se pusesse entre mim e o meu grande amigo.  A avó advertiu-me para lhe fazer um pedido de desculpas, mas mesmo antes das palavras terem saído da sua boca, já a minha pobre alma lhe tinha obedecido. Este arrependimento e carência de perdão não era fruto de falsas elegâncias, mas de um coração de amigo que se tinha sentido muito pouco, achando que nunca a ignorância tinha sido tão penosa!  E como se finalmente num lance culminante me tivesse espetado um punhal no peito disse-me inda que o André tinha lido um poema de extrema beleza. Soubesse ela o quanto me magoava, não diria nunca palavra alguma sobre essa missa! Era o meu orgulho e a minha utilidade numa vida tão vazia que se despedaçava e agora como quando deixo a porta fechada abandonando os cães do lado de fora da sala quente e aconchegante, senti-me sozinha, separando-me do mundo e inclusive dos que mais quero. Porque não pude estar, quando queria tanto! Não pude ser consolação! Não pude ser amigo! Não pude ser companhia! Pude apenas ser nada! Sempre distante, sempre em outro lugar qualquer!  E neste momento já a missa se deu por terminada há muito e já as pessoas abandonaram a igreja e retornaram para as suas casas, umas mais desgostosas que outras. Faleceu um pai, um avô, um amigo, um conhecido e é essa pessoa que lembrarão e terão presente. Continuará vivo nas palavras, nas suas cousas, nos seus espaços e também nesta memória de uma amiga que falhou e de um coração que se arrependeu.
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22/04/2014

Quis ver


E, todavia, como é difícil explicar-me! Há no homem o dom preverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras que, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras. Toda a manhã lutei não apenas com elas para me exprimir, mas ainda comigo mesmo para apanhar a minha evidência. A luz viva nas frestas da janela, o rumor da casa e da rua, a minha instalação nas coisas imediatas mineralizavam-me, embruteciam-me.Tinha o meu cérebro estável como uma pedra esquadrada, estava esquecido de tudo e no entanto sabia tudo. Para reparar a minha evidência necessitava de um estado de graça. Como os místicos em certas horas, eu sentia-me em secura. Fechei os olhos raivosamente e quis ver.

Vergílio Ferreira, Aparição
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