Por entre as flores que o Sol doirava veio levantar-se a manhã e a esperança de um dia perfeito. Pois, embora a Primavera inda não nos tenha vindo desabrochar, já o Sol tem aparecido para nos saudar.
E por isso, nas indecisões do que se há-de vestir nestes últimos dias a avó alertou-me para que neste tempo o que vemos é o Sol de Inverno. E de facto, o tempo que nos tem vindo tirar da rudeza e do rigor do Inverno é apenas uma doce miragem dos tempos que virão. Vem lembrar-nos que por entre as nuvens das desgraças se esconde o Futuro sorridente e confiante, doirado e pleno.
A escola que permanece o local onde as horas se demoram enche-se de cor, as nossas faces também ganham uma corzinha especial típica do tempo que se avizinha quente, e enquanto a professora fala das profundas questões filosóficas em tom sério, eu contemplo os campos verdes e o manso gado a pastar, a minha presença está na carteira, mas a minha alma está com eles. E toda a população rural se apressa para os seus afazeres, fora das grades da escola. Deslocam-se a passo certo, característico de quem sabe bem para onde vai e deixam-me a desejar estar também do lado de fora, onde os campos são verdes, o gado pasta calmamente, as pessoas andam apressadas e o Sol bate com meiguice na pele. Das janelas da biblioteca vê-se a igreja de Vilela. É lá onde muito se passa. E é daí que ressoam os sinos de quando em vez e nos perturbam ao de leve as aulas, fazendo recordar da vida que se passa.
Embora a escola nos prepare e nos faça sonhar com um futuro brilhante e compensador, o meu coração continua apenas a alvejar os dias quentes de Primavera. O ver passar a vida e os tempos. Tão calmamente este meu coração bate que pergunto-me se algum dia será despertado para um mundo cruel onde tudo passa num instante. Nenhum desejo de grandes cidades e pessoas civilizadas me veio interromper da morrinha até este dia. Sou apenas uma rapariga local. Sonho apenas com o Sol e os dias calmos.
A camioneta que nos vem buscar desliza com brandura pelas estradas alcatroadas, de novo o Sol se adentra pelos vidros da janela e nos cega com tanta claridade. Como se sua beleza de tão pura e distinta, fosse a última memória que queremos preservar para sempre. Nada se equivale, nada há de mais bonito que os seus raios luminosos. Toda a sua doçura desencadeia as melhores recordações, desde os primeiros anos de escola e de amizades aos dias na eira com a avó.
Apercebi-me que nada faz tão feliz um português como o Sol. Um português traz o Sol moroso no sangue, vem de linhagem. Vem do coração. Está em nós.
E este meigo Março, que tem sabor a mel, trouxe os dias quentes. E trouxe também no dia de hoje uma tarde ditosa, com o culminar no gabinete do pároco da região. Recebemos a notícia de que estamos dentro. Do que queríamos estamos dentro, e tudo graças ao Sol que nos veio dar bênção e dilatar o nosso espírito para receber a caridade e as boas novas.

Não encontro palavras que sejam dignas do que expressas. Apenas que os dias com palavras assim, brilham mais.
ResponderEliminarMuito obrigada!
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