"Meu caminho é por mim fora."

11/01/2015

Debaixo da Árvore de Natal: o Cão e o Menino


O cão entrou na sala e foi-se sentar no canto do sofá, onde chegava em pleno o calor das labaredas da lareira. Ficou envolto no seu próprio corpo, a ver o tempo anoitecer-se através das janelas, num fim sossegado para um dia de grandes agitações. Os trabalhadores retornam a casa e o cão espera pelo seu dono no lugar onde se sente acolhido pelo quente da fogueira. O tempo passa constantemente e é ligeiro, mas tedioso, ladra um outro cão ao longe, os automóveis rompem as estradas, ouvem-se conversas, porém o silêncio é imperativo dentro do lar. A solidão é uma grande companhia, a menos que esteja acompanhada pelo abatimento. O cão bufa de vez em quando, suspira pela mão carinhosa que lhe acaricia o pêlo, observa as luzes que se acendem nas ruas escuras. Levanta-se, alonga as patinhas num espreguiçar demorado, passeia-se pela divisão e ocorre-lhe ir aninhar-se perto do Menino, que está debaixo da grande árvore iluminada, esquecendo-se da realidade tão vazia de alegrias grandes. Arrasta as ovelhinhas, os pastores, a Maria, o José e os outros animais, estende-se junto do bebé, chega o focinho ao seu rosto pequenino e lambe-o num afago genuíno. A madeira arde com vigor, o velho cão mantem-se fielmente junto ao Salvador, que de condição tão humilde fica abandonado e ofuscado por um mar de luzes cintilantes, é frágil e carente de toda a atenção e no entanto só este cão parece sabe-lo. Mas já não reinam as trevas, o bebé não chora, fica-se sereno, divinamente embalado e com os bracinhos estendidos num convite permanente ao conforto do seu amor. O bichinho pensa que O protege e aquece, todavia é Ele que lhe traz a ternura que o seu coração enfastiado precisava, naquele cantinho da sala encontrou o verdadeiro lar que lhe faltava e o carinho pelo qual ansiava. Ouviu finalmente abrir-se a porta de entrada que denunciava a chegada do dono, largou o recém-nascido e correu a festejar a vinda do seu amigo. Ladrou, saltou, acarinhou-lhe, correu e por fim foi puxando-lhe as roupas conduzindo-o até ao seu novo canto, de modo a que quando chegou não pôde evitar reparar no bebé que o esperava há muito debaixo da árvore.


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09/01/2015

Top 6, aleatório


A cadela vem pedir-me comida perto da mesa onde acabamos de jantar, como gesto habitual não desapareceu em nenhum instante, nem tão pouco porque se passou de um ano a outro. Faço-lhe carinhos no pêlo macio da cabeça e começo a relembrar-me dos momentos que se coleccionaram e entraram já na história da minha existência, no que já passou e se vai perpetuando. 

1 - Alvarelhos, Trofa 
Rumamos para a festa de Santa Eufémia da Carriça, a família reduzida ao pai, mãe e filha, e num ambiente vivo de festa entramos na igreja para adorar o sagrado. Após algum tempo de oração regressamos à luz do dia onde nos retivemos a assistir ao espectáculo folclórico que me mereceu inúmeros fotografias. Num movimento perfeito de cores vira para aqui e vira para acolá e ao som da música a cena hipnotiza-nos, todas as canções parecem ser conhecidas da nossa alma, e assi logo percebemos que somos "portugueses de alma e raça".

2 - 17 de Maio 
Era o meu dia de aniversário, a única vez que a data coincidiria com a idade e o Sol estava a espreitar-nos, estava calor e a família e amigos apareceram para festejar comigo. Como já vinha a acontecer pareceu-me um dia bastante ordinário, calhou-me um Sábado, porém estava a passar o tempo com os meus amigos íntimos junto à minha casa quando ao entardecer vimos uma camioneta de meninos chegar e estacionar junto a nós. Eram os da catequese. Por momentos ficamos espantados e a seguir apenas com inveja. Nunca, em toda a nossa vida, tivemos uma visita de catequese! 

3 - Fins de Dezembro no parque
Das poucas vezes que pude sair do lar durante as férias desloquei-me ao único local onde seria coerente uma pessoa como eu ir. Com as minhas irmãs da parte familiar clandestina seguimos ao parque que é frequentemente só nosso e no final de conversas ora profundas, ora mais superficiais fomos fazer-nos parte do ambiente outonal, mas que era plenamente de Inverno. Com um casaco verde escuro e o cabelo da cor das folhas estava finalmente parte da Natureza e esta parte de mim. 

4 - Dia comum com a mãe
Durante o Verão quando a claridade deixa ver na íntegra a realidade circundante é que se vê como os detalhes têm a beleza que o coração tanto precisa para se alimentar. Num desses dias da estação de Estio enquanto o passava com a minha mãe e via não só com os olhos, mas também com a lente da câmara, circulava por entre as flores como abelha, porém a minha função era apenas olhar como nunca antes o fizera, daí captei todas as pétalazinhas e ficam-me agora no coração e por entre todas as outras fotografias dos tempos felizes. 

5 - Festas de Vilela 
Tínhamos sido convidados a jantar na casa dos pais do meu cunhado por altura das festas dessa localidade. Iria actuar entre outros o Rui Bandeira e a noite prometia ser agradável. Fui com os olhos e com a máquina de devorar imagens, estava a escurecer e depois do banquete, antes que toda a luz se fosse, foquei-me no que estava direccionado aos meus olhos e deparei-me com um fundo cor-de-laranja sobre as silhuetas das casas, pois já a noite vinha aos poucos devorando a região. E depois, com o céu em total escuridão soube melhor o fogo-de-artifício, estava a família junta e também o Juiz da Festa, que tinha calhado nesse ano ser o meu cunhado. 

6 - Visita de estudo ao Porto 
Embora estivesse frio nesse mês de Abril rompemos metade das solas a percorrer toda a cidade, parando nuns sítios, passando despercebidos noutros. Ouvimos os barulhos do Porto e cheiramos os seus aromas e por fim descansamos o olhar na ribeira. Visitamos tantos locais e por tantas pessoas passamos que por fim o melhor foi o convívio com os colegas, longe do ambiente rotineiro da escola. Desse dia muitas memórias ficaram, mesmo que as ruas permaneçam onde as calcamos e as deixamos, as recordações físicas e espirituais vieram connosco e do nosso passado fazem parte. 

Uma vez li e reti a frase "Tenho fotografias que provam que nunca exististe", assi se os momentos difíceis alguma vez ocorreram no ano que se findou, deles não existem retratos, pelo que deverão ficar-se perdidos no baú da memória, deixando espaço para que os episódios felizes da minha existência o ocupem na sua totalidade. 

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08/01/2015

America - You can do magic




You can do magic 
You can have anything that you desire 
Magic, and you know 
You're the one who can put out the fire 

You know darn well 
When you cast your spell you will get your way 
When you hypnotize with your eyes 
A heart of stone can turn to clay 
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07/01/2015

Amanhã outra pessoa virá em mim



Ditava as frases escritas no quadro à minha colega de mesa quando esta reparou que eu tinha omitido uma expressão que completava o significado da oração. Embora ela inda não tivesse escrito eu já tinha passado à frente, pelo que tive de corrigir. Ela disse-me:
- Pronto, fica assim! Eu entendo!
- Mas eu é melhor corrigir, não confio na pessoa que vou ser depois. 
Sei quem sou hoje, mas quem virá depois em mim é-me um estranho.  

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06/01/2015

05/01/2015

À noite cabe a Arte


Bato a porta principal e saio à rua num hábito repetido constantemente, dirigindo-me rapidamente ao café da esquina, pisando firmemente o solo, em todo o tempo com as mãos enterradas até ao fundo das algibeiras, movo-me velozmente para que o frio não me gele ou impeça de alcançar o destino final. 
Dou entrada no estabelecimento e pouco tempo depois estou já a sair, mas agora com companhia e que me obriga a caminhar mais lentamente. Uma das amigas da minha avó aproveita para acariciar as mãos no pêlo da gola do meu sobretudo dizendo:
-É macio! É como a dona!
Deslizou as mãos docemente do casaco para o meu rosto e afirmou:
- Que cara bonita!
Sorri-lhe e agradeci interiormente. A velhice acorda uma meiguice nos olhos que adoça tudo quanto vê e por isso crêem que os defeitos não são mais do que perfeições em bruto, daí que receba elogios continuamente de quem me vê todos os dias. 
Após esta cena de ternura, despediram-se todas com o costumeiro "Até amanhã" sempre acompanhado de "se Deus quiser!", viemos para casa, onde a lareira doura a sala de estar, e nos enche com o calor que não existe do lado de fora destas paredes. Porém, já ao subir as escadas do lar senti o texto nascer em mim, uma nova estrela a querer despontar no meu céu em invariável noite cerrada. Sinto fome com o passar da tarde, mas já comi, tenho ânsia de alimento ou de algo que me desadormeça e no entanto estou a guardar as palavras em mim para depois dos deveres, embora sejam urgentes.
Preservo o regozijo para mais tarde, aproveito a claridade e os raios de luz de Inverno para as obrigações, à noite cabe a Arte e todo o seu esplendor, nota-se melhor no escuro o seu brilho intenso que faz arder não os olhos, mas os corações. É nas horas que o Sol não reluz e as cousas não se vêem na sua plenitude que a alma se dilata e dá corpo a novas criações. As mãos são inertes, mas a mente produz sem cessar, fogo e espadas para ferir e água e beijos para curar.

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02/01/2015

01/01/2015

Primeiro de Janeiro


É dia um de Janeiro, o Sol aparece a prever um ano de novas esperanças e conquistas, a família mantém-se junta na sala sempre perto da lareira, que é depois dos nossos corações a maior fonte de calor da casa, os cães estendem-se pelo tapete ou junto aos nossos pés e os raios de luz que vêm da janela aquecem as costas do meu pai. 
A avó pede-me para sairmos à rua e, embora com pouca vontade de acção, acompanho-a ao encontro do astro-rei. Descemos as escadas e logo sentimos a avenida como nossa, dirigimo-nos para a igreja onde o Sol bate com maior intensidade e as árvores junto dos bancos do jardim nos parecem mais belas. Caminhamos lado a lado, vou com a mão debaixo do seu braço, não sei se a ampara-la ou simplesmente a aquecer-me, falamos de muita cousa e de cousa nenhuma, enquanto evitamos os carros ao passar de uma margem para outra. A avó gosta de pensar que as estradas são suas só porque anda com bengala e espera, por isso, que os condutores sejam gentis, deste modo fugimos de todas as passadeiras e seguimos em frente pelo meio da estrada, onde passamos intocáveis em todas as ocasiões. Continuamos, umas vezes a caminhar outras sentando-nos em frente aos portões da igreja, devido ao estado fragilizado das pernas da avó. Damos a volta ao adro e conversamos sobre uns roubos que ali se passaram há muito tempo, ela vai interrompendo de quando em vez para suplicar a Deus que lhe devolva a vivacidade que lhe permitia vir a todas as Eucaristias e rumamos para casa logo a seguir. 
Sempre devagar e reparando no jardim que ladeia o nosso edifício levo as mãos quentes do calor do bolso e do calor do braço da avó, encaixamos as chaves nas portas e entramos silenciosamente para o lar onde a avó fica uns instantes encostada à parede à espera que a variação de luz lhe permita ver novamente. E aqui me apercebo que tal como os cães que levamos diariamente a sentir o ar no focinho, também a avó me faz sair. De verdade, ainda que eu a auxilie é ela que me guia e me faz sentir que a vida se passa onde não estou e onde a realidade se sente e se acha aprazível. 
E assim, ao introduzir-me de novo no local onde vivo, trouxe um pouco de Sol numa das algibeiras que não usei e acendi a minha alma pequenina, de modo que mesmo longe da lareira o meu corpo repousa e não sente frio. 
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26/12/2014

22/12/2014

Casa da Saudade



(Após ter percebido que tinha ficado só na Casa da Saudade, Sarita afirmou:)

Eles é que me podiam ter levado à missa, pelo menos até ao primeiro intervalo!

Casa da Saudade, Filipe la Féria
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