"Meu caminho é por mim fora."

14/10/2014

Quási


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Mário de Sá-Carneiro
Read More

12/10/2014

Phil Collins - Another Day In Paradise




She calls out to the man on the street
 He can see she's been crying
 She's got blisters on the soles of her feet
 Can't walk but she's trying

Oh think twice, it's another day for 
You and me in paradise 
Oh think twice, it's just another day for you, 
You and me in paradise
Read More

11/10/2014

10/10/2014

Anjinhos Modernos



Após o término das aulas de Sexta-feira orientamo-nos para os portões de saída que estavam lotados tamanha a vontade mútua de poder começar o final de semana, ao contrário dos nossos colegas tivemos de esperar algum tempo mais debaixo do estado de tempo adverso até à chegada da camioneta. À medida que os lugares começavam a ser preenchidos o chauffeur principiava a dar andamento ao automóvel numa viagem onde se cruzavam introspecções e conversas animadas, íamos deixando sair alguns passageiros ao longo do percurso e rapidamente fomos parar numa outra escola onde muitos saíram mas inda mais entraram. Sem que os lugares estivessem certos com o número de pessoas restaram duas meninas muito jovenzinhas sem assento, como é desagradável ir de pé num autocarro, principalmente quando todos os outros vão sentados, senti pena. Olhei para a minha colega de banco e minha homónima e fiz um ar descontente, pelo que ela me disse:
- Coitadinhas, têm de ir em pé!
No exacto momento uma das raparigas diz à outra:
- Vamos ter de ir em pé!
As duas crianças eram tão pequeninas que pareciam não ir além do quinto ano, tinham um rosto com feições angelicais, de cabelos loiros e olhos azuis e verdes, pareciam totalmente ingénuas e inofensivas e por isso a pena da nossa parte, mas sem que esperássemos a mais pequena responde-lhe segura:
- Que sa foda! 
Read More

05/10/2014

Missa, versão alternativa


Senhor, 
eu vos adoro
na coxa de frango consagrada! 

A mãe e eu tínhamos chegado a casa apressadas para não perdermos o tempo da missa. Embora a maior preocupação com a pontualidade fosse minha, precipitou-se da carrinha com a comida que inda vinha quente do mercado e dirigiu-se para a porta de entrada do lar. Antes mesmo de sair completamente do automóvel atirei-lhe a piada:
- Não precisamos de ir a casa, podemos levar o frango para a igreja, até tem lá uma mesa!
- Pois tem, comíamos lá com o padre, em vez de erguer a hóstia pegava na coxa de frango.  
Ri-me com o cenário alternativo em versão obesa, e desejei que Jesus antes de se converter em pão pudesse transformar-se em frango, decerto que o edifício quase desértico se iria encher e na comunhão eu estaria em primeiro lugar a reclamar as Suas partes secas. 
Read More

01/10/2014

28/09/2014

Diz que até não são uns maus padres!


Eu sei as tuas obras; eis que diante de ti pus uma porta aberta. (Cf. Apoc 3,8)
Estas palavras que S. João nos oferece no livro do Apocalipse em tudo nos lembra a relação da nossa comunidade com os nossos párocos que são autênticas pontes de ligação com Deus, verdadeiros mediadores e pais espirituais. 
Partindo da sabedoria de um para a jovialidade de outro trilham um caminho comum para nos fazerem em tudo semelhantes ao Eterno Pai, ultrapassando os obstáculos da sua vida sacerdotal e auxiliando-nos nas vicissitudes da vida. Almejam ver com clareza, utilizar a inteligência, a sensibilidade e a erudição para que com os seus exemplos aflore nos nossos corações o ciúme pelo amor sincero a Deus e aos irmãos. Num mundo cada vez mais entregue ao ócio espiritual e à falta de disponibilidade para o alimento da alma, são pequenas luzes que nos alumiam na noite escura e nos fazem acreditar em algo maior que os nossos medos, as nossas preocupações e as nossas futilidades. 
Embora o sr. Pe. Felisberto esteja connosco há menor tempo, tem-nos mostrado com exemplos práticos como chegar aos que nos estão próximos, mas em muito tão distantes! Ainda que um pouco distanciado, ou pela timidez, ou pelo enorme trabalho nas suas diversas paróquias, tem-se exposto sobretudo através das palavras. É um grande e capacitado evangelizador que nos quer mais e melhor educados na fé, para que conhecendo mais a Deus o possamos entender de forma mais fácil e ama-lo fervorosamente. 
O sr. Pe. Mário João, estando connosco há vários anos, mostrou-se um companheiro, um amigo e um verdadeiro pai. Tem um sorriso que ilumina toda a freguesia, pela sua autenticidade e alegria. Tem a virtude de saber interagir com todos, o seu júbilo e humildade faz com que possa ficar pequenino junto aos mais novos e a sua imensa sensibilidade faz com que consiga entender e partilhar as dores com os mais velhos. Maior qualidade é ainda a de saber contrariar os assuntos mais tristes com a sua veia cómica e o seu modo de agir que deixa o Outro em boa disposição.
Devido a todos os seus aspectos positivos temos o dever de ajuda-los a ajudar-nos, através das nossas orações e das acções do quotidiano, evitando dirigir imprecações contra eles e fazer boatos que lhe denigrem a boa reputação. É também de nossa obrigação contribuir para uma comunidade mais unida e mais forte em Cristo, para que sejamos os melhores filhos que o Senhor lhes confiou!

Diana F. C. da Silva
Read More

08/09/2014

05/09/2014

Our house in the middle of our street


A manhã levantou-se cinzenta nesse começo de Setembro, que prometia ser a continuação de Agosto, a gelar a carne e os ossos dos habitantes da região. A avó deixou-me só enquanto foi encontrar as amigas no café do fim do prédio e eu permaneci no quarto de janela aberta a deixar invadir-me pela sobriedade do dia. Era Setembro e estava frio, porém continuavamos com roupa de Verão, o estio que inda não tinha havido nesse ano. Recordo-me bem, porque foi ontem o dia que nasceu cinzento.
Nessas primeiras horas do dia cruzei-me com o pai no corredor, disse-me: "Sai da frente, cachopa!" e agora que penso nisso foi a única cousa que me disse durante todo o dia. À noite, enquanto eu e a mãe estavamos a arrumar a louça do jantar e o pai ficava quieto a fumar o seu cigarro à porta do terraço, entendi que cada um vivia na sua própria casa dentro da nossa casa comum. Passavamos uns pelos outros como sombras nas vias de acesso aos quartos, falavamos apenas quando necessário e conviviamos à mesa abafados pelos barulhos da televisão.
Nas tardes vagarosas a avó era frequentemente assaltada pelo bicho da memória e desenterrava, deitada na cama a ver a telenovela, o passado inglório da família, nesses intervalos de tempo havia espaço para os podres de cada elemento. Ela poderia ficar as tardes inteiras a contar novos episódios da história familiar, desde a morte de um às asneiras de outro, mas a sua parte predilecta era a de ter sido ela a criar-nos e a fazer de nós o que somos. Há em cada cousa nossa um "obrigado" que lhe devemos e ela faz questão de o ouvir. A avó é a beata da nossa casa, aproveita todos os momentos para ir à missa e pôr as rezas em dia, mas enquanto saímos da igreja mais leves ela traz o putefracto, no meio das suas doenças ela tem o coração  corrompido e por isso desaba aos prantos nalguns Domingos à tarde. Nas suas histórias está tudo o que não quero saber, são os factos, as invenções e os mal entendidos que nos afastam para vivermos cada um por si dentro de um território de todos. O Passado mata-nos!
Há nas nossas paredes o rancor a escorrer, crescem ervas daninhas nos nossos corações juntamente com algumas rosas muito espinhosas. Mas pergunto-me como seria se um dia a avó não invocasse os fantasmas do passado, o pai não me mandasse simplesmente sair-lhe do caminho e a televisão não estivesse a falar mais alto do que nós. Era possível que os dias não fossem tão nublados e que deixassemos de viver os restos do passado.
A avó conta-me do tempo em que a mãe era jovem, imatura e não cuidava de nós, mas essas recordações que não tenho e que não são minhas não podem afrouxar o amor que lhe sinto, é mãe e é minha. Os irmãos são meus, o pai é meu, a avó também é minha, pertencem-me e amo-os, amo-os porque me pertencem, mas a uns com mais custo que a outros. No entanto, antes de serem meus cada um é de si e um por um se fecham na sua vida dentro do nosso mesmo lar. Somos família e estamos partidos. Somos as lembraças nossas ou que nos contaram e levamos os dias a falar alto ou a calar. Recordo-me bem, porque foi ontem e toda a minha vida.
Mas, porventura nesses crepúsculos matutinos o Sol consiga iluminar o nosso lar, afastar os ressentimentos e acabar com os dias enovoados que aumentam a escuridão. 
Read More

27/08/2014

"Meu caminho é por mim fora."

Com tecnologia do Blogger.

LABELS

Popular Posts

Seguidores