"Meu caminho é por mim fora."

08/08/2013

Estrugido em Disagero


A avó mandou-me fazer estrugido. Cortei metade de uma cebola para o tacho e perguntei:
- Já chega?
- Não! É preciso a cebola inteira!
- Que exagero!
- Não é disagero não!
Ri-me por entre dentes:
- "Exagero", ´vó, "exagero"!
Respondeu zangada:
- Pronto, se sabes corrige-me!
Saiu da cozinha e foi regar o jardim.

Voltei-me para o meu irmão que estava lá perto e disse a gozar:
- Ai! que disagero, que disagero!
Respondeu-me muito calmamente corrigindo-me:
-  "Exagero", Diana, "exagero"...!


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06/08/2013

05/08/2013

Numa tarde qualquer de Domingo, num documento intitulado Rita, André, Ângela


Saio ao terraço, para ver o dia. Tarde de Sol e frio. Tarde de Domingo.
Regresso novamente ao sofá. Repouso agora, que nada há para fazer. Os dias agitados, terminam num Domingo sossegado. Não há preocupação que me desperte desta apatia. Os cães ladram lá fora, no longínquo. As flores procuram o Sol. As pessoas curvam-se para a televisão. Tudo em demasia calma, tudo na ordem.
Eu, na minha tranquilidade relembro certos episódios, certos rostos, certos sentimentos. E o relógio da igreja acaba de marcar três horas da tarde. Talvez, não devesse estar na solidão, sentada no sofá a pensar, mas talvez se eu cá não estivesse eu não seria como sou.

É estranho pensar, por quantos caminhos se pode vaguear sentada de perna cruzada. Mas, eu agora penso na pessoa em que me tornei. Não sou aquilo que outrora ambicionava ser, mas eu mudei e os meus objectivos mudaram comigo. Eu satisfaço-me, eu sou a pessoa que quero. Estou numa busca interior da felicidade, porque eu sei que não a encontrei em lado algum, excepto dentro da minha alma. Mas é difícil! Enquanto não a alcanço ando de mãos dadas com a tristeza e com a moleza. 
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09/07/2013

Último dia de festas


O último dia de festas trazia-me sempre uma nostalgia, uma saudade forte do som, das luzes, do movimento.  Hoje, pareceu-me uma ilusão, uma recordação de infância muito ténue. As pessoas a passarem em grupos na rua, tão felizes e vaidosas, eu tenho-as visto de longe, junto à coluna da varanda, sei a cara de cada uma  e dentro de mim a inveja reprimida, a apatia, a condenação.
Em todos os dias de festas, as ruas junto à igreja  iluminam-se e abrem-se para a população. Costumava ser a imagem mais bonita, a melhor sensação, toda Rebordosa estava num profundo regozijo. No Domingo chegamos a ser nós a fazer a passadeira para a procissão, mas isso ficou no passado e as flores não são tão bonitas desde então. Nada é tão bonito desde esses dias! Os andores tão majestosos não têm mais tantos olhares para os contemplar e até eu tenho falhas de memória ao tentar lembrar-me de todos os seus nomes. O Sol bateu com muita intensidade sobre esta pequena cidade, durante todos estes dias. Não saí de casa, enquanto que a festa se adentrava pelas paredes deste lar. A novidade de ter todos os santos tão próximos, chamou-me à igreja e mesmo essa estava cheia, de luzes, sons, pessoas, menos de amor. Esse amor que só se mostra no silêncio, na intimidade com Jesus e que eu tento sempre encontrar nas maiores profundezas do meu coração. E é sempre tão difícil! Procuro em mim e não há nada fundo dentro. Tenho esta sensibilidade tão grande, esta alma iluminada, este coração farto de afecto e esta escuridão, rebeldia e impaciência que me fecham para o mundo. Sofro todos os dias, em especial neste dias de festas em que os outros vêm desfilar a sua alegria, esses são todos iguais, exangues de nobreza; de espírito fraco e vazio. Eu amo-os e rezo por eles, porque eles nunca sentirão aquilo que sinto, aquilo que vivo. Eu tenho este pesar, esta inclinação natural para a tristeza. Eu amo a noite que será dia, o riso de Deus nas crianças dos outros e tento amar o que tenho até vir a morte. Essa é a única esperança.
A noite começa e fica-me a recordação do sabor dos pés de São Simão, eu esperei tanto por este dia, eu esperei tanto por este beijo. E tudo o que tinha para lhe deixar aos pés era o meu desgosto, a minha mágoa, e por instantes ofereceu-me um alívio, um intenso consolo. Um beijo, sem ter de me esticar, sem ter de esconder do padre. Um beijo e a única lembrança boa destes tempos.
O fogo-de-artifício faz-me sentir como se estivesse na rua, mas não estou. Estou no sofá do quarto, onde se passa toda  a minha vida. A avó diz-me, já deitada na cama:
- Lá  se foram as festas!
Vira-se e adormece.
É verdade, acabaram. E acaba este dia,  os sons, as luzes, o movimento. O último dia de festas trazia-me sempre uma grande nostalgia!

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06/07/2013

Noite


Eu traria, se pudesse, uma lâmpada da festa e incendiaria o meu coração. 
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30/06/2013

Duplica a velocidade


"Polícias ressuscitam
Outros de veículos
Carro nas proximidades explodem
Flutuam (menor gravidade)
Super velocidade
Condutores agressivos
Melhor manipulação
Todos os carros ficam cor de rosa
Flutuam sobre a água
Rodas mais largas
Barcos voam
Todos os carros ficam pretos
Carros ficam invisíveis
Duplica a velocidade
Outros

Acelera o tempo

Retarda o tempo" 


(A mim sempre me pareceu um poema. ) 
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16/05/2013

Chove na véspera


Chove. Na véspera de ser, chove. E o dia parece-me igual a todos os outros. Na verdade, eu sempre me questionei porque é que Jesus morria antes de nascer, todos os anos!
Nos espelhos há "demónios dentro" e eu miro-me neles. Na igreja um grande Cristo pregado e eu sou Ele. Tenho inda na lembrança o querer beijar os pés de São Simão e não poder e agora hei-de de ter sempre de me curvar! Na minha memória, muitas casas velhas, onde o vento bate com força; outros tantos risos dos miúdos que eu invejei; e falsas promessas de felicidade, fizeram da minha vida um desenrolar de sonhos que se repetem e se realizam tarde de mais.
Mas neste dia um Anjo veio-me cumprimentar, cheguei a horas à escola e pareceu-me que o dia passou rápido. Em casa não tenho querido que ninguém fique perto de mim por muito tempo. Fazem barulho lá fora e isso basta-me. Preocupa-me que as horas sejam tão breves e o tempo da Morte se aproxime.
E agora, tal como Cristo, sofro a pouco tempo de nascer!
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09/03/2013

Entre aspas


Conversa de café:

- Oh cão, anda cá ver isto, cão!
- Cão não! ... Senhor Cão!


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07/03/2013

Madalena


"Nem um som, nem a presença duma aragem a quebrar a solidão que a cercava. Apenas num céu em fim de incêndio um mormaço cerrado.
Abriu de todo os olhos turvos. Entre as pernas, numa poça de sangue, estava caído e morto o filho. Carne sem vida, vermelha e suja. O segredo dela e de Deus!..."

Miguel Torga, "Madalena", Bichos 

Miguel Torga lembrou-me que nem sempre é para ser...
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06/03/2013

Trinta e Três


E se agora morto, ou muito débil ... tu foste-nos a esperança e essa esperança a luz da nossa vida.
Terias o nome acabada em "- el" ou começado em "Al", talvez. E ias crescer tão alto quanto um arranha-céus.
Se escolheste o 33, talvez também esse fosse o número perfeito para deixar-nos. Mas devias saber que há um tempo para amar e para morrer e o tempo de amor foi curto de mais!
Ia estrear-me como co-avô, se tu o quisesses ... e não quiseste. Deixaste-nos a desordem, a distância, os silêncios e a dor.
E a dor há-de ferir por toda a vida!
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