Estando no silêncio costumeiro do quarto, ouço a campainha tocar as vezes que assinalam que é alguém da família. Ao chegar à porta não vejo ninguém, mas ouço vagamente a voz da avó a conversar com alguém que passava. Fui ao seu encontro e vi-a sentada no último degrau que apontava para a nossa casa, claramente as pernas não tinham dado conta do recado e ou se sentava rapidamente ou haveria um desastre novamente. Um senhor veio prontamente auxiliar-me a po-la de pé e logo a levei para dentro do lar onde me pediu uma laranja cortada aos pedaços. Deixei-a onde pudesse descansar, dirigi-me à cozinha e então nesse momento constatei que me podia deslocar facilmente onde precisasse ir, estas pernas que inda são jovens e ágeis podem-me levar onde quiser ir e no entanto não quero ir a lado nenhum.
Soa ridículo, anormal e pouco humano, em dias em que o movimento é estimado acima de tudo eu pratico o sedentarismo ao máximo. Se as cousas são boas, podem ser avistadas de longe, uma cadeira em frente à secretária é o meu local predilecto para ver a vida a passar. Ver é tudo, muito mais do que desgostar ou apalpar, quem vê sente sempre com mais suavidade e tudo o que é calmo é belo. Não aleija nem mortifica, mas deixa uma leve fragrância que se perpetua nos tempos e isso é bom. É agradável o que fica quando o que tem de ir já se distancia, pois os relógios permanecem invariáveis e as mudanças dão-se constantemente, aquilo que é doce e aprazível cria raízes no nosso coração e não morre nunca, integra-se no nosso espírito e faz aquilo que somos.
Sair é bom, ficar-se estendido ao Sol é inda mais saboroso. O tempo passa com demora, o pêlo dos animais brilha de forma intensa, a morrinha dá sono e o corpo repousa dos dias convulsos. Não há soluções nos divertimentos mundanos, excessivos, impróprios, há alegrias e outras cousas pseudo-boas que passam rápido. Mas há sabedoria no deixar-se estar a contemplar vezes sem conta aquilo que foi criado para nosso júbilo, como aquelas flores de cores mil que estão no jardim da avó ou as nuvens que passam preguiçosas sob o azul celeste ou inda o som das aves que se desafiam entre si. O vento que passa meigo entre as folhas das plantas ensina-nos a gentileza e as grandes árvores que oferecem sombra instrui-nos sobre a bondade, a nobre caridade. Quando nos damos os dias são mais harmoniosos, e estamos em maior conformidade com a Natureza que é, em todos os momentos, perfeita.
Saiamos à rua quando conseguirmos vencer a modorra, mas apenas para caminhar direito, para servir quem precisar, para enchermos o nosso coração de luz ou para o limpar com as gotas da chuva, que recomeçar também é preciso, para se ser sempre mais belo, mais atencioso, mais completo. Devemos procurar ser como a melodia de uma doce música ou então ser como o silêncio que jamais é a falta de, mas a plenitude de tudo. Quando em sossego estamos o vento traz-nos os murmúrios de longe e tudo sabemos, porque a alma tem sede de aprender, crescemos na rectidão e alcançamos a felicidade.
E mesmo estando a descansar agora, a avó saiu, foi de encontro ao que lhe acarinha o coração e eu que estive no conforto do lar, não anseio por chegar a nenhum destino, mas talvez um dia desbrave novos caminhos onde poucos se aventuraram e retorne maior do que sou hoje, porque em qualquer caso estas pernas foram feitas para andar.