"Meu caminho é por mim fora."

28/04/2014

Nada na agonia da tarde mexe


Nada na agonia da tarde mexe,
que nada no céu de cinzas se distingue
do que entre as árvores e as casas
certamente passa. Só
um fumo de mais cinza negra sobe,
nos ares elevando esguia a vida. 

A aldeia, o mundo inteiro
que da exígua janela vejo.
A casa, a minha, que os outros
das exíguas janelas veem.

Cada um de nós 
a casa sua por dentro vê
e a dos outros à janela. 

Cada casa é o fogo
que os outros veem fumo. 

Fernando Hilário
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23/04/2014

Missa de Sétimo Dia


 Viverás ainda na memória dos que te conheceram. Depois esses hão-de morrer. Depois serás exactamente um nada, como se não tivesses nascido.

Este excerto que agora serve de mote a este texto que escrevo, li-o há algumas horas pela primeira vez, num livro de Vergílio Ferreira. Tocou-me de especial modo e talvez por isso o tenha gravado na cabeça e no coração. Parece que como nos textos de Literatura era um indício para o que se ia resultar ao longo do dia, mas esse já ia a meio, quase mesmo a terminar e a avó como era hábito tinha saído para a eucarística, e eu como cristão de Domingo fiquei-me em casa, onde a comodidade é maior e o tempo passa com lassidão.  Mais tarde, já depois do jantar, irrompeu na porta principal e não demorou a retaliar-me por não estar presente na missa de sétimo dia do avô do André. Por entre a voz exaltada da avó, a alma doeu-me. O avô do André tinha falecido na Sexta-feira da Paixão e o enterro tinha acontecido no próprio Domingo de Páscoa que por ser um dia agitado impossibilitou a minha presença. Na verdade, soube já fora do tempo e agora falhei de novo e por isso, soube-me pior do que comer carne estragada, espetar um prego no pé ou cair em frente de uma multidão, feriu-me no mais profundo do meu íntimo. Ao  contrário do que havia acontecido em tempos passados no funeral do senhor Abel, avô da Rita, senti-me insuficiente, como se toda a minha amizade tivesse errado naquele dia e uma grande fenda se pusesse entre mim e o meu grande amigo.  A avó advertiu-me para lhe fazer um pedido de desculpas, mas mesmo antes das palavras terem saído da sua boca, já a minha pobre alma lhe tinha obedecido. Este arrependimento e carência de perdão não era fruto de falsas elegâncias, mas de um coração de amigo que se tinha sentido muito pouco, achando que nunca a ignorância tinha sido tão penosa!  E como se finalmente num lance culminante me tivesse espetado um punhal no peito disse-me inda que o André tinha lido um poema de extrema beleza. Soubesse ela o quanto me magoava, não diria nunca palavra alguma sobre essa missa! Era o meu orgulho e a minha utilidade numa vida tão vazia que se despedaçava e agora como quando deixo a porta fechada abandonando os cães do lado de fora da sala quente e aconchegante, senti-me sozinha, separando-me do mundo e inclusive dos que mais quero. Porque não pude estar, quando queria tanto! Não pude ser consolação! Não pude ser amigo! Não pude ser companhia! Pude apenas ser nada! Sempre distante, sempre em outro lugar qualquer!  E neste momento já a missa se deu por terminada há muito e já as pessoas abandonaram a igreja e retornaram para as suas casas, umas mais desgostosas que outras. Faleceu um pai, um avô, um amigo, um conhecido e é essa pessoa que lembrarão e terão presente. Continuará vivo nas palavras, nas suas cousas, nos seus espaços e também nesta memória de uma amiga que falhou e de um coração que se arrependeu.
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22/04/2014

Quis ver


E, todavia, como é difícil explicar-me! Há no homem o dom preverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras que, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras. Toda a manhã lutei não apenas com elas para me exprimir, mas ainda comigo mesmo para apanhar a minha evidência. A luz viva nas frestas da janela, o rumor da casa e da rua, a minha instalação nas coisas imediatas mineralizavam-me, embruteciam-me.Tinha o meu cérebro estável como uma pedra esquadrada, estava esquecido de tudo e no entanto sabia tudo. Para reparar a minha evidência necessitava de um estado de graça. Como os místicos em certas horas, eu sentia-me em secura. Fechei os olhos raivosamente e quis ver.

Vergílio Ferreira, Aparição
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07/04/2014

Quando o campo visita a cidade



















 


 

 

 

 


Foi de  manhãzinha que saímos de Vilela, éramos mais de vinte e menos que trinta. Um batalhão. E o nosso destino era mais do que certo e mais do que diferente.
Chegamos ao Porto  não passava muito do tempo em que tínhamos saído. O professor foi contando umas piadas sem muita graça e reforçando a ideia de que esta seria uma aula em terreno diferente. Ninguém o ouvia no entanto, uns ocupados a ouvir música ou a tirar fotografias e eu ora a ler sobre a Praça da República ora a observar a paisagem que nos acompanhava.
Mal chegamos ao destino saquei da máquina fotográfica. Verdadeira turista num mundo agitado, onde as pessoas andam apressadas e sabem exactamente para onde vão, as ruas têm lojas a perder de vista, e saídas em cada canto com uma igreja ou um grande edifício ao longe.
Os professores deixaram-nos andar à vontade e eu não raramente fiquei-me para trás, a demorar-me a memorizar as construções e a cara dos que passavam por mim. Tive a sensação de que eram antipáticos ou de que eram muito fechados em si mesmos. Ocorreu-me que lhes pudesse dar os bons dias, mas a ideia passou-me com rapidez. Porém, fui encontrar, no meio dessas vias repletas de gente sisuda, uma senhora sentada com o seu cão numa das margens da estrada que ao ver o carinho que uma colega minha fez ao seu companheiro canino nos sorriu e desejou "Tudo de bom para as meninas!". Digo que de toda a visita foi o momento que guardei com mais amor, entre alguns outros,  e que o poderia encontrar tanto no Porto como em qualquer lugar. Qualquer lugar onde houvesse corações puros e gentis.
Mais tarde entramos para uma universidade e dali saímos com um guia que rapidamente nos aborreceu com o excesso de informação. Estávamos deparados com um cenário diferente onde a variedade de pessoas e de serviços  nos captava toda a atenção e dei por mim a perder-me do grande grupo pelo menos duas vezes. Era o excesso da novidade, o local onde se passava muito do que estava descrito nos manuais de História e que agora ganhava vida, porque eu a estava a viver. Um início de dia perfeito para recordar toda a vida.
Após o almoço visitamos mais alguns pontos de interesse. Caminhamos até à Praça da Liberdade e fizemos proveito do tempo propício para aproveitar mais demoradamente o local. Entramos para um estabelecimento e ao sairmos dele ouvi muito intensamente o som de um trompete a ecoar por toda a praça e foi para mim uma sensação excepcional! Todo o sítio se encheu da mais bela sonoridade que vinha daquele trompete misterioso que se escondia por detrás de um caminhão e se posicionava em frente à estátua equestre de D. Pedro IV. Esse som mágico encheu-me o coração de uma serenidade difícil de exprimir e de apagar da memória.
Parei para tirar uma fotografia e novamente me perdi do grupo. Apressei-me a encontra-los e quando pude retomar um passo já mais descansado deparei-me com uma carrinha fúnebre do lado esquerdo que transportava um caixão, e dentro dele uma vida já esvaída. Nos bancos da  frente algumas pessoas, que pensei serem a família, e atrás seguiam-nos alguns automóveis que podiam estar incluídos no cortejo ou simplesmente estavam a seguir o mesmo trajecto. Pesou-me fortemente, foi doloroso. Talvez pela expressão carregada dos que seguiam na carrinha ou talvez pela insensibilidade de toda a cidade que continuava grosseira e apressada.
Do que vi e vivi depois não ficou em tal grau marcado. Não foi da mesma intensidade. Bonito, mas de uma beleza tranquila, característica e antiga que não pesa e por isso não craveja, mas se leva sereno no coração. Assi é o Porto, uma bonita cidade de postal, onde o céu é azul, os pedintes são simpáticos, os casais de velhinhos andam de braço dado pelas ruas traiçoeiras, as igrejas nascem em cada esquina e as ambulâncias passam continuamente, os funerais parecem de tal forma tristes e sem dignidade e as pessoas têm aspecto de ansiosas e impacientes. É o apogeu da cidade! Onde o tempo também passa e se sente o chamamento do lar.
Voltamos. E embora  nos afastássemos cada vez mais da grande cidade e entrássemos no verde da periferia, soube-me como um merecido consolo. É no campo que encontramos os vizinhos que todos os dias nos dão o Bom Dia, os grandes funerais com toda a freguesia e a serenidade das ruas desertas em tempo de trabalho. É no campo que descansa o meu coração e todo o meu corpo. E é nele que vivo e onde está toda a minha vida e todo o meu gosto!

E o campo, desde então, segundo o que me lembro, 
É todo o meu amor de todos estes anos! 
Nós vamos para lá; somos provincianos, 
Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!

(Cesário Verde - Nós)
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