"Meu caminho é por mim fora."

30/09/2012

Não se perdeu nenhuma coisa em mim


Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim.
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

Sophia de Mello Breyner  Andresen 



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27/09/2012

As Misérias da Vida Humana


...
E no tempo em que repousa no leito, o sono da noite perturba-lhe as ideias.
Ele repousa pouco, ou quase nada, e mesmo no sono, como sentinela durante o dia, é perturbado pelas visões do seu coração, como um homem que foge do combate; quando se imagina em lugar seguro, desperta, e admira-se do seu vão temor.
...

Eclesiásticos
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25/09/2012

Moonlight Sonata




O mar batia fortemente nas rochas e o tempo passava-se com demora. Era o fim da vida e o começo do Mundo. O som do nada pesava como camiões. Todo o sossego era desconcertante. Todo o barulho era silêncio. Todas as rosas eram sangue.
No desequilíbrio dos sons eu sonhava, eu já só sonhava! O Sol do meu desassossego doirava-se nas pingas de chuva e enchiam-me os cabelos.A mão ao peito sentia o sangue escorrer-me como ouro mais fino. Eu inda o esperava, naquelas tardes frias... eu inda era barco ancorado. E no mar eu conseguia ouvi-lo cantar. Eu conseguia destingir o seu choro do silêncio todas as vezes em que eu me ia perder...
Latejava o coração no peito e o mar batia nas rochas. Todo o amor era só poesia.


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20/09/2012

Cantiga, Partindo-se



Senhora, partem tam tristes
Meus olhos por vós meu bem,
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
Tam doentes de partida,
Tam cansados, tam chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
Tam fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castelo Branco
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Nove Horas


(Numa segunda aula de Literatura Portuguesa)


O relógio apontava nove horas da tarde. O salão estava quase vazio. As luzes espelhavam-se nos vidros prolongando-se pela cidade. Lá fora as pessoas caminham, outras apitavam com os carros e os gatos procuravam um abrigo. Era Inverno. Era Inverno dentro de mim e lá fora. No salão o quente dos chás era reconfortante. Bebiam-se a queimar a garganta e tudo se mantinha estranhamente em ordem.
Eram nove e o estabelecimento iria ser fechado dali a uma hora. Eu aproveitava aquele lugar tranquilo e harmonioso memorizando cada detalhe da decoração. A quietude apoderava-se da minha alma. Apenas o silêncio e o quente dos chás.
A moça bebia o seu chá de tília e olhava as suas mãos na chávena, como quem quer fugir do que se pensa e não pode... e não consegue. Eram nove horas, eternas nove horas e tudo se acalmava lá fora, porém eu não via, não percebia, só sentia. A moça chamava-me a atenção e eu olhava-a certo que não me via. O seu chapéu claro contrastava com as cores fortes do vestido e do casaco. Bebia, olhava sem olhar e pensava. Eu sentia tão-somente.
Levantei-me, vesti o casaco e preparei-me para sair. A moça olhou-me... e nesse momento partilhamos solidões.
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18/09/2012

Tanto de meu estado me acho incerto



Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém por que assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís Vaz de Camões
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15/09/2012

Bucólica



A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia 
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha. 


Miguel Torga
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10/09/2012

05/09/2012

Minha barca aparelhada


Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com Rumo à Estrela Polar. 

António Geadão


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03/09/2012

Era dia, mas já é noite.


A camisa estava cheia de cola branca e o cabelo desamarrava-se com o vento, mas era um dia especial de Sol para aproveitar a sombra das árvores da igreja.
Era dia, mas já é noite.
E as pessoas caminham lá fora, andam depressa e falam alto e falam muito alto, falam tão alto que me quebram a linha do pensamento. Eu ... bebo dessas conversas de rua e falta-me sempre mais... e eu continuo esperando.
Aguardando com trinta dias para amadurecer, vinte e oito dentes, seis botões de camisa, duas orelhas vermelhas e um coração partido. E "mais vale tarde do que nunca"... Porque, tudo o que eu não tenho é tudo que eu preciso.
A porta de todos os lugares secretos continua aberta e quem não adormece à noite é porque não tem pelo que acordar.
Foram tempos de colheitas fartas, foram tempos de acácias, amores perfeitos, cravos, crisântemos, dálias, girassois, hortências, jasmins, lírios, foram tempos de felicidade. Foram enquanto os dias eram longos e nós eramos fortes.
Mas até o amor ficar gasto eu tenho esperança, eu continuo esperando...
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