"Meu caminho é por mim fora."

31/01/2015

Mother and Child


A mãe levou-me a fechar a quinta, fomos ao som de canções de vários artistas deste e do outro século. Ao chegarmos tínhamos já a Bi à nossa espera junto à porta, pronta a saltar-nos à roupa para lhe acariciarmos a cabeça por uns momentos. Fui também acarinhar uns gatinhos que lá moram, mostraram-se relutantes a ceder à ternura dos meus afagos e fugiram para onde não os pudesse tocar, mas creio ser próprio da sua espécie. 
Dirigi-me finalmente para a casa e principiei a fechar as janelas, após a mãe advertir-me dos perigos do solo que se encontrava escorregadio, devido a uma tinta que lá se tinha vertido. Pousei o pé sobre ela e deslizei-o, parecia-me seca e sem perigos, por isso continuei o trabalho e tranquei toda a casa, ao voltar para dentro e como nunca estando o corpo realmente bem assente nos pés, num instante estava já ao comprido no chão. A mãe veio rapidamente pôr-me de pé de novo, sentou-me e rogou pragas ao que me fez escorregar. Sem qualquer dano, apenas com a impressão do impacto da queda, preocupava com a eventual sujidade da roupa, enquanto a mãe me abraçava aflita. Afirmei-lhe que estava bem, ri-me até:
- Pronto, já chega, já estou bem!
Persistia a envolver-me nos braços. Percebi que a possibilidade de uma pequeno desastre a tinha perturbado, e senti que aquele abraço com um beijo de carinho foi como os Trinta Gloriosos após a Segunda Guerra Mundial. 
Voltamos ao lar, tenho a parte direita ligeiramente dolorida e um coração aquecido pela lareira e pelo amor da minha mãe. 

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29/01/2015

26/01/2015

23/01/2015

Canção duma Sombra



Ah, se não fosse a névoa da manhã 
E a velhinha janela, onde me vou
Debruçar, para ouvir a voz das cousas, 
Eu não era o que sou. 

Se não fosse esta fonte, que chorava, 
E como nós cantava e que secou… 
E este sol, que eu comungo, de joelhos, 
Eu não era o que sou. 

Ah, se não fosse este luar, que chama 
Os espectros à vida, e se infiltrou, 
Como fluido mágico, em meu ser, 
Eu não era o que sou. 

E se a estrela da tarde não brilhasse; 
E se não fosse o vento, que embalou 
Meu coração e as nuvens, nos seus braços, 
Eu não era o que sou. 

Ah, se não fosse a noite misteriosa 
Que meus olhos de sombras povoou, 
E de vozes sombrias meus ouvidos, 
Eu não era o que sou. 

Sem essa terra funda e fundo rio, 
Que ergue as asas e sobe, em claro voo; 
Sem estes ermos montes e arvoredos; 
Eu não era o que sou.

Teixeira de Pascoaes
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21/01/2015

Teoria Geral da Indignação



Se te queres fazer ouvir, mas ninguém te dá ouvidos, indigna-te com emoção 
Todo o tipo que não gramas, todo o político patusco, há de ser grande ladrão. 
Indigna-te sempre e muito, indigna-te do coração, para tal tem nervos de aço 
e começa a revolução!
Jornal Expresso
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20/01/2015

Tenho-te sonhado meu amigo



Desponta a manhã por cima do outeiro, com cores quentes no Inverno de Janeiro, vem lentamente o Sol doirar o meu quarto onde já estou acordada e não sei levantar-me. Digo em silêncio o costumeiro Bom dia, Espírito Santo!  que me foi recomendado por uma antiga irmã e que continuamente me parece renovado, e nessa oração calada peço por tranquilidade e um coração novo farto de inspiração. 
Ergo-me lentamente como ainda despertando de um sono profundo, sinto o frio das primeiras horas enregelar-me, visto rapidamente o que estiver à mão sem grandes preocupações estéticas e deambulo pela casa até conseguir compreender a lógica das cousas. Entendo somente a minha imagem reflectida no espelho do guarda-vestidos, parece-me um pouco apática, ligeiramente atemorizada com as representações de velhos monstros de infância.
Mas a vida tem o seu sentido, procura-se por aquilo que se tem de fazer e descansa-se quando se esquece que se perde o tempo que não temos. Sento-me na secretária junto à grande janela, perco a lembrança de que o relógio bate atrás de mim e escrevo as primeiras palavras da semana. Lá fora a realidade é em tons de tristeza, com alguns detalhes em cor castanha que quebram a monotonia dos verdes abandonados e dos grandes edifícios sem vida. Com os adultos no trabalho, as crianças fechadas na escola e os idosos sozinhos junto à lareira, a cidade é deserta, mas o tempo não perdoa nem se ausenta nunca e de hora a hora sentimos a sua presença nos sinos da igreja. Porém, o rejubilo germina em mim quando te recordo no meu último sonho. 
Tento captar as belezas de aqui e de acolá toda a manhã, toda a tarde, e no entanto quando me estendo sobre a cama no calor das cobertas pesadas e a cabeça descansa sobre a travesseira é que o meu coração sente na perfeição os pés frios enrolados nas meias grossas, e se enche da minha alma e da minha memória. Assim, na treva da noite as angústias do mundo caem sobre mim. Imagino aquele que chora envolto na sua solidão, aquele que vive no fundo de uma avenida e aquele que ficou encerrado na sua época glória sem se conseguir libertar, e estes retratos de tristeza e desolação prendem-me o respirar e fazem-me sentir grandes aflições por mim, por ti e pelos outros. Mas o sono vem, mesmo que tardando tanto, e sonho com dias felizes e imagens aleatórias que sei não serem reais. Estás sempre lá, porém.   
Desde há muitos anos que me apareces das noites frias de Inverno às noites quentes de Verão  e os nossos tempos são de harmonia como a Primavera e o doce Outono. Se estou passando na multidão e te vejo ao de largo vou ao teu encontro e tu ao meu, fugindo para onde o barulho não fere o nosso silêncio de ouro. Somos amigos, mesmo dialogando raramente, porque apenas se procura a companhia de quem queremos bem e sempre que sonho é sempre que te sonho. 
Vejo-te sorrir ao final da semana, estendes-me a mão e dizes o meu nome que nunca te contei. E se sabes o meu nome e eu o teu porque não seremos amigos? Cumprimento-te a medo, sem nunca o fazer à noite, mas já corremos pelos campos verdes e já restauramos a vida a uma rosa partida. Observa no fundo dos meus olhos e adivinha a amizade que já construímos nos fragmentos de sonhos, mas com palavras poucas porque conheço já o teu coração e tu o meu. Sei de cor o som do teu riso, guardo no coração todas as tuas gentilezas e edifiquei para ti um templo dentro da minha alma, acredita-me.
É possível que um dia onde o Sol brilhe mais nos fiquemos quietos contemplando a vida debaixo de uma árvore e saibas que te tenho sonhado meu amigo. Nesse dia ditoso os anjos cantarão e o mundo ficará a conhecer daí em diante o significado de uma verdadeira amizade.

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18/01/2015

Um rato fala com Deus

Garden in bloom, Van Gogh


É maravilhoso o perfume das flores, mas também as ervas daninhas têm a sua fragrância. Cada um tem o seu lugar para crescer e desabrochar. E isso é belo... 
Senhor,  introduz-me no teu coração como se fosse uma semente.

Um rato fala com Deus, Angela Toigo e Jules Stauber
(Descoberto em Partilhas em Fá menor)
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15/01/2015

Poema da Minha Esperança


Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais, 
não se rala nem se apressa.

O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...

Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele 
que é já o fim dos meus dias.)

Tic-Tac...
(Como eu rio, cá p´ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.) 

Sebastião da Gama
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13/01/2015

Sobre um poste, uma ave



Encontrei este pássaro ao olhar o tempo pela janela grande da cozinha, parecia-me que estava fazendo pose para uma fotografia, mas cuidei que não ia a tempo para preparar a câmara, pelo que guardei a imagem apenas com os olhos. Quando mais tarde olhei de relance apercebi-me que se mantinha imóvel no sitio onde a tinha avistado inicialmente, com calma fui à procura da câmara e captei três fotografias, baixei a máquina e a ave voou. Decerto que se ficou para que a contemplasse na sua grande virtude de poder descansar no alto de um poste onde a seguir se levanta no ar, onde voa grandiosa sobre as nossas cabeças. 

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11/01/2015

Debaixo da Árvore de Natal: o Cão e o Menino


O cão entrou na sala e foi-se sentar no canto do sofá, onde chegava em pleno o calor das labaredas da lareira. Ficou envolto no seu próprio corpo, a ver o tempo anoitecer-se através das janelas, num fim sossegado para um dia de grandes agitações. Os trabalhadores retornam a casa e o cão espera pelo seu dono no lugar onde se sente acolhido pelo quente da fogueira. O tempo passa constantemente e é ligeiro, mas tedioso, ladra um outro cão ao longe, os automóveis rompem as estradas, ouvem-se conversas, porém o silêncio é imperativo dentro do lar. A solidão é uma grande companhia, a menos que esteja acompanhada pelo abatimento. O cão bufa de vez em quando, suspira pela mão carinhosa que lhe acaricia o pêlo, observa as luzes que se acendem nas ruas escuras. Levanta-se, alonga as patinhas num espreguiçar demorado, passeia-se pela divisão e ocorre-lhe ir aninhar-se perto do Menino, que está debaixo da grande árvore iluminada, esquecendo-se da realidade tão vazia de alegrias grandes. Arrasta as ovelhinhas, os pastores, a Maria, o José e os outros animais, estende-se junto do bebé, chega o focinho ao seu rosto pequenino e lambe-o num afago genuíno. A madeira arde com vigor, o velho cão mantem-se fielmente junto ao Salvador, que de condição tão humilde fica abandonado e ofuscado por um mar de luzes cintilantes, é frágil e carente de toda a atenção e no entanto só este cão parece sabe-lo. Mas já não reinam as trevas, o bebé não chora, fica-se sereno, divinamente embalado e com os bracinhos estendidos num convite permanente ao conforto do seu amor. O bichinho pensa que O protege e aquece, todavia é Ele que lhe traz a ternura que o seu coração enfastiado precisava, naquele cantinho da sala encontrou o verdadeiro lar que lhe faltava e o carinho pelo qual ansiava. Ouviu finalmente abrir-se a porta de entrada que denunciava a chegada do dono, largou o recém-nascido e correu a festejar a vinda do seu amigo. Ladrou, saltou, acarinhou-lhe, correu e por fim foi puxando-lhe as roupas conduzindo-o até ao seu novo canto, de modo a que quando chegou não pôde evitar reparar no bebé que o esperava há muito debaixo da árvore.


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09/01/2015

Top 6, aleatório


A cadela vem pedir-me comida perto da mesa onde acabamos de jantar, como gesto habitual não desapareceu em nenhum instante, nem tão pouco porque se passou de um ano a outro. Faço-lhe carinhos no pêlo macio da cabeça e começo a relembrar-me dos momentos que se coleccionaram e entraram já na história da minha existência, no que já passou e se vai perpetuando. 

1 - Alvarelhos, Trofa 
Rumamos para a festa de Santa Eufémia da Carriça, a família reduzida ao pai, mãe e filha, e num ambiente vivo de festa entramos na igreja para adorar o sagrado. Após algum tempo de oração regressamos à luz do dia onde nos retivemos a assistir ao espectáculo folclórico que me mereceu inúmeros fotografias. Num movimento perfeito de cores vira para aqui e vira para acolá e ao som da música a cena hipnotiza-nos, todas as canções parecem ser conhecidas da nossa alma, e assi logo percebemos que somos "portugueses de alma e raça".

2 - 17 de Maio 
Era o meu dia de aniversário, a única vez que a data coincidiria com a idade e o Sol estava a espreitar-nos, estava calor e a família e amigos apareceram para festejar comigo. Como já vinha a acontecer pareceu-me um dia bastante ordinário, calhou-me um Sábado, porém estava a passar o tempo com os meus amigos íntimos junto à minha casa quando ao entardecer vimos uma camioneta de meninos chegar e estacionar junto a nós. Eram os da catequese. Por momentos ficamos espantados e a seguir apenas com inveja. Nunca, em toda a nossa vida, tivemos uma visita de catequese! 

3 - Fins de Dezembro no parque
Das poucas vezes que pude sair do lar durante as férias desloquei-me ao único local onde seria coerente uma pessoa como eu ir. Com as minhas irmãs da parte familiar clandestina seguimos ao parque que é frequentemente só nosso e no final de conversas ora profundas, ora mais superficiais fomos fazer-nos parte do ambiente outonal, mas que era plenamente de Inverno. Com um casaco verde escuro e o cabelo da cor das folhas estava finalmente parte da Natureza e esta parte de mim. 

4 - Dia comum com a mãe
Durante o Verão quando a claridade deixa ver na íntegra a realidade circundante é que se vê como os detalhes têm a beleza que o coração tanto precisa para se alimentar. Num desses dias da estação de Estio enquanto o passava com a minha mãe e via não só com os olhos, mas também com a lente da câmara, circulava por entre as flores como abelha, porém a minha função era apenas olhar como nunca antes o fizera, daí captei todas as pétalazinhas e ficam-me agora no coração e por entre todas as outras fotografias dos tempos felizes. 

5 - Festas de Vilela 
Tínhamos sido convidados a jantar na casa dos pais do meu cunhado por altura das festas dessa localidade. Iria actuar entre outros o Rui Bandeira e a noite prometia ser agradável. Fui com os olhos e com a máquina de devorar imagens, estava a escurecer e depois do banquete, antes que toda a luz se fosse, foquei-me no que estava direccionado aos meus olhos e deparei-me com um fundo cor-de-laranja sobre as silhuetas das casas, pois já a noite vinha aos poucos devorando a região. E depois, com o céu em total escuridão soube melhor o fogo-de-artifício, estava a família junta e também o Juiz da Festa, que tinha calhado nesse ano ser o meu cunhado. 

6 - Visita de estudo ao Porto 
Embora estivesse frio nesse mês de Abril rompemos metade das solas a percorrer toda a cidade, parando nuns sítios, passando despercebidos noutros. Ouvimos os barulhos do Porto e cheiramos os seus aromas e por fim descansamos o olhar na ribeira. Visitamos tantos locais e por tantas pessoas passamos que por fim o melhor foi o convívio com os colegas, longe do ambiente rotineiro da escola. Desse dia muitas memórias ficaram, mesmo que as ruas permaneçam onde as calcamos e as deixamos, as recordações físicas e espirituais vieram connosco e do nosso passado fazem parte. 

Uma vez li e reti a frase "Tenho fotografias que provam que nunca exististe", assi se os momentos difíceis alguma vez ocorreram no ano que se findou, deles não existem retratos, pelo que deverão ficar-se perdidos no baú da memória, deixando espaço para que os episódios felizes da minha existência o ocupem na sua totalidade. 

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08/01/2015

America - You can do magic




You can do magic 
You can have anything that you desire 
Magic, and you know 
You're the one who can put out the fire 

You know darn well 
When you cast your spell you will get your way 
When you hypnotize with your eyes 
A heart of stone can turn to clay 
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07/01/2015

Amanhã outra pessoa virá em mim



Ditava as frases escritas no quadro à minha colega de mesa quando esta reparou que eu tinha omitido uma expressão que completava o significado da oração. Embora ela inda não tivesse escrito eu já tinha passado à frente, pelo que tive de corrigir. Ela disse-me:
- Pronto, fica assim! Eu entendo!
- Mas eu é melhor corrigir, não confio na pessoa que vou ser depois. 
Sei quem sou hoje, mas quem virá depois em mim é-me um estranho.  

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06/01/2015

05/01/2015

À noite cabe a Arte


Bato a porta principal e saio à rua num hábito repetido constantemente, dirigindo-me rapidamente ao café da esquina, pisando firmemente o solo, em todo o tempo com as mãos enterradas até ao fundo das algibeiras, movo-me velozmente para que o frio não me gele ou impeça de alcançar o destino final. 
Dou entrada no estabelecimento e pouco tempo depois estou já a sair, mas agora com companhia e que me obriga a caminhar mais lentamente. Uma das amigas da minha avó aproveita para acariciar as mãos no pêlo da gola do meu sobretudo dizendo:
-É macio! É como a dona!
Deslizou as mãos docemente do casaco para o meu rosto e afirmou:
- Que cara bonita!
Sorri-lhe e agradeci interiormente. A velhice acorda uma meiguice nos olhos que adoça tudo quanto vê e por isso crêem que os defeitos não são mais do que perfeições em bruto, daí que receba elogios continuamente de quem me vê todos os dias. 
Após esta cena de ternura, despediram-se todas com o costumeiro "Até amanhã" sempre acompanhado de "se Deus quiser!", viemos para casa, onde a lareira doura a sala de estar, e nos enche com o calor que não existe do lado de fora destas paredes. Porém, já ao subir as escadas do lar senti o texto nascer em mim, uma nova estrela a querer despontar no meu céu em invariável noite cerrada. Sinto fome com o passar da tarde, mas já comi, tenho ânsia de alimento ou de algo que me desadormeça e no entanto estou a guardar as palavras em mim para depois dos deveres, embora sejam urgentes.
Preservo o regozijo para mais tarde, aproveito a claridade e os raios de luz de Inverno para as obrigações, à noite cabe a Arte e todo o seu esplendor, nota-se melhor no escuro o seu brilho intenso que faz arder não os olhos, mas os corações. É nas horas que o Sol não reluz e as cousas não se vêem na sua plenitude que a alma se dilata e dá corpo a novas criações. As mãos são inertes, mas a mente produz sem cessar, fogo e espadas para ferir e água e beijos para curar.

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02/01/2015

01/01/2015

Primeiro de Janeiro


É dia um de Janeiro, o Sol aparece a prever um ano de novas esperanças e conquistas, a família mantém-se junta na sala sempre perto da lareira, que é depois dos nossos corações a maior fonte de calor da casa, os cães estendem-se pelo tapete ou junto aos nossos pés e os raios de luz que vêm da janela aquecem as costas do meu pai. 
A avó pede-me para sairmos à rua e, embora com pouca vontade de acção, acompanho-a ao encontro do astro-rei. Descemos as escadas e logo sentimos a avenida como nossa, dirigimo-nos para a igreja onde o Sol bate com maior intensidade e as árvores junto dos bancos do jardim nos parecem mais belas. Caminhamos lado a lado, vou com a mão debaixo do seu braço, não sei se a ampara-la ou simplesmente a aquecer-me, falamos de muita cousa e de cousa nenhuma, enquanto evitamos os carros ao passar de uma margem para outra. A avó gosta de pensar que as estradas são suas só porque anda com bengala e espera, por isso, que os condutores sejam gentis, deste modo fugimos de todas as passadeiras e seguimos em frente pelo meio da estrada, onde passamos intocáveis em todas as ocasiões. Continuamos, umas vezes a caminhar outras sentando-nos em frente aos portões da igreja, devido ao estado fragilizado das pernas da avó. Damos a volta ao adro e conversamos sobre uns roubos que ali se passaram há muito tempo, ela vai interrompendo de quando em vez para suplicar a Deus que lhe devolva a vivacidade que lhe permitia vir a todas as Eucaristias e rumamos para casa logo a seguir. 
Sempre devagar e reparando no jardim que ladeia o nosso edifício levo as mãos quentes do calor do bolso e do calor do braço da avó, encaixamos as chaves nas portas e entramos silenciosamente para o lar onde a avó fica uns instantes encostada à parede à espera que a variação de luz lhe permita ver novamente. E aqui me apercebo que tal como os cães que levamos diariamente a sentir o ar no focinho, também a avó me faz sair. De verdade, ainda que eu a auxilie é ela que me guia e me faz sentir que a vida se passa onde não estou e onde a realidade se sente e se acha aprazível. 
E assim, ao introduzir-me de novo no local onde vivo, trouxe um pouco de Sol numa das algibeiras que não usei e acendi a minha alma pequenina, de modo que mesmo longe da lareira o meu corpo repousa e não sente frio. 
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"Meu caminho é por mim fora."

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