"Meu caminho é por mim fora."

28/01/2014

Eu sei que posso contar convosco



Entrei na igreja a par com o André. No adro estava uma carrinha fúnubre repleta de coroas e uns compinchas a falarem com à vontade. Na coxia principal, em frente à grande cruz onde está Cristo, o caixão iluminado por quatro grandes castiçais. Desviámos-nos dali e sentamo-nos num dos bancos de trás, o quinto a contar do meio das bancadas, soube-o porque o contei várias vezes, como habitual. Antes de me sentar e enquanto fazia uma pequena oração de agradecimento a Deus, percorri a igreja à procura da minha avó e estranhei que não se tivesse sentado nos bancos frontais, olhei em minha volta e fui encontra-la sentada perto das amigas dois lugares à minha frente. Não posso explicar o que senti quando a vi ali tão perto no sua usual ida à igreja, foi como se a visse pela primeira vez ali tão sossegada e tão retida nas suas rezas, com a cabeça inclinada para o sacrário. Logo depois procurei pela Rita e vi-a ao longe. Esta sim, estava nos bancos da frente com toda a família, perto do defunto. Algumas pessoas passavam por ali a cumprimenta-los um a um. 
Quando a eucarística ia começar, passaram os três padres da sacristia para a porta da igreja de onde iriam vir em procissão até ao altar. Toda a gente se levantou quando passou o trio pela coxia lateral. O André fez-me sinal e fui constrangida a levantar-me. Reparei logo que foi uma pequena desatenção dos presentes, talvez não habituados a missas, pois é costume levantarmo-nos apenas quando a procissão começa. Comentei isto com o André.
Os cânticos iniciaram-se sem o som do órgão ou das flautas e também a voz do padre da freguesia estava mudada, pesada, dolorosa, compreensiva. 
Pareceu-me uma missa normal, à semana, sem grandes alaridos e com a excepção de estarem todos trajados de cores escuras. Eu também. 
Depois da comunhão, olhei fixamente a cruz e pedi em silêncio para que iluminasse a Rita e não a deixasse sofrer, embora me parecesse difícil, mesmo para Jesus. Pedi-Lhe também pelos meus parentes, pelos que amo e por aqueles a quem não tenho tanto ou amor nenhum. Fechei os olhos e ocorreu-me também que podia ser melhor. 
Depois de receber o sacramento da eucaristia, pareceu-me que passou rápido. Menos de uma hora. E perto do final os três padres chegaram-se perto do último leito do senhor Abel e proferiram algumas orações que nunca tinha ouvido e não consegui fixar. E nesse momento toda a igreja se encheu de novas cores, o Sol incidiu sobre aquelas janelas e como se a vida se adentrasse pelas paredes tudo se iluminou. Principalmente o arcanjo Miguel que apontava para o Céu. 
Quando se deu a celebração por terminada e começaram a sair as gentes em cortejo para o cemitério, esperei com o André pela nossa amiga. Conseguimos cumprimenta-la com dois beijos, mas não me ocorreu dizer-lhe nada. Disse-me depois que se tinha alegrado em ver-nos. E eu alegrei-me em alegra-la um pouco. 
A avó diz frequentemente justificando as suas idas constantes aos funerais que se formos aos dos outros temos depois quem vá ao nosso. Eu penso que vale a pena irmos para nos fazermos úteis a quem sofre e na verdade senti a meu préstimo quando a neta do falecido e minha melhor amiga me respondeu "Eu sei que posso contar convosco!" . 
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23/01/2014

Deus Escreve Direito


Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta 
Em cada célula do homem estão inscritas 
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer 
Porém em cada célula desde o início 
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero 
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder 
A linha musical do encantamento 
Que é teu sol tua luz teu alimento

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós


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14/01/2014

Começar de fresco



Ouvi esta manhã o telemóvel despertar pelas 6:30 e nesse momento a voz da avó chegou-me áspera aos ouvidos alegando que não precisava de acordar tão cedo. Na verdade assim era. Deixava o despertador acordar-me às 6:30 para só ter de me levantar dali a meia hora, mas era meu hábito e temia que se o mudasse acabasse por não conseguir separar-me dos braços de Morfeu.
Levantei-me sem muitas demoras, nesta manhã, e preparei aquele que me pareceu ser um bom dia. Demorei o menos que pude e dirigi-me para a escola. Também lá demorei o mínimo.
Voltei tempos depois e a espera pela camioneta pareceu-me horas, não pelo frio, mas pelas saudades da casa vazia e dos cantos que sei de cor. Quando cheguei já  a mãe me tinha preparado um dos meus pratos predilectos, porém o meu irmão deu-me despacho da cozinha que queria arrumar. Fechei-me no quarto e liguei para um dos meus amigos de infância. Atendeu. Ouvi-o chorar do outro lado. Não quis estar comigo nesta tarde. Pediu para não me preocupar, afirmou que não estava boa companhia e prometeu-me que iria ficar bem. Desliguei como que obrigada e pensei em visita-lo. Antes de o fazer ocorreu-me a ideia de que os meus planos pudessem sair furados. Fiquei-me por casa. E por entre um livro e umas canções lembrei-me da pessoa que amo. Procurei-o e apenas tive como resposta imagens felizes com outra pessoa. Percebi que o nosso, digo, meu amor tinha já passado dos dias de mocidade e não estando sequer no seu leito de morte, tinha já partido, enterrado no meu coração para nunca mais se fazer sentir.
Durante estas reflexões e certezas, a casa continuava vazia e escura. Levantei-me e acendi todas as lâmpadas numa ânsia de luz. Vagueei pelos quartos, procurei pela presença de alguém, contudo apenas me respondiam as cadelas que pareciam agitadas por um qualquer movimento na rua. Mas esta casa melancólica e estes ruídos destruidores contrastavam com um vazio interior da minha parte. De novo, tinha voltado aos tempos de apatia e modorra. Tinha vestido nessa manhã preto integral, como que a antecipar a morte para a alegria e o sofrimento extremo. Era um recomeço, um voltar às raízes. Sucumbiu aquilo que perdurou anos no meu peito e houve nesse momento a sensação dolorosa de continuar vazia para o resto dos meus dias, a certeza de continuar não amando ninguém. No entanto, não me tremeram as pernas, não senti a tristeza, não pensei em voltar atrás. Não havia nada que já não tivesse feito e suportado. Havia apenas naquele momento a fome. Eram já 5 horas! E nesse momento abriu-se a porta principal e entrou a minha avó com um bolo.
Está este dia por fim completo.
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12/01/2014

Tempo


Estando cansada de ficar na sala, a avó avisou-me que se ia deitar e pediu para que não demorasse muito a deitar-lhe as gotas nos olhos. Saiu e voltou logo a seguir. A Fofinha levantou a cabeça e eu segurei-lhe para que não a atacasse.

AVÓ - Em que dia é esta consulta?
- 18.
AVÓ - De Janeiro?
- Não, de Fevereiro.
AVÓ- ...de Abril?
- Fevereiro.
AVÓ - E é de quê?
- "Diabetes"
AVÓ - De quê?!
- "Diabetes"
AVÓ - E a outra que lá está?
- Essa não sei...

Retornou ao quarto deixando a porta da sala aberta.
Regressou e mostrou-me o papel:

- 7 de Abril.
AVÓ - De Abril?! A outra é de Fevereiro e esta é de Abril... - arregalou os olhos.
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