Sobre Pedro, filho de Afonso da Maia e D. Maria Eduarda Ruma:
O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e irresistiveis, promptos sempre a humedecer-se, faziam-n'o assemelhar a um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum desejo forte parecera jámais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva: só ás vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tomára birra ao Padre Vasques, mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um fraco; e esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a espaços em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, murcho, amarello, com as olheiras fundas e já velho. O seu unico sentimento vivo, intenso, até ahi, fôra a paixão pela mãe.
Os Maias, Eça de Queirós
