"Meu caminho é por mim fora."

21/11/2013

Um Natal que está breve


As cadelas estão a par deitadas no sofá junto a mim, a sua quietude pede por carinhos depois de um dia agitado a correrem pela casa e eu estou perto a zelar para que nada as perturbe enquanto dormem. A noite já caiu e como as ruas largas lá fora estão cobertas pelo manto de frio do Inverno, cá dentro está acesa a lareira e o seu calor dá-nos a terna sensação de estarmos no regaço de nossa mãe.
Agora que reflicto nos dias mansos que têm corrido dou por mim a ir ao encontro do Futuro a viver os dias do Passado, porque a rotina confunde-se e não tenho a total certeza de estar em frente a um novo dia ou a um caminho habitualmente trilhado. Sei instintivamente a onde me levam estas passagens, os rostos com os quais partilho a vivência sei-os de cor e nada do que me dizem soa a novo. Os sonhos são a minha única esperança, a minha derradeira luz num mundo desordenado e sórdido e as lembranças da pessoa amada o único bálsamo, o único lugar de conforto e tranquilidade. Assi como um eremita eu vivo sem companhia, só em mim mesma. Sou como um lago que permanentemente fechado numa depressão sonha ser rio e correr ligeirinho para o mar, mas como rouxinol na gaiola vou cantando para quem passa sem poder nunca ergue-me alto nos céus.
O Presente tem-se mantido uma surpresa previsível e embora ouça por aí elogios e repreensões da voz do mundo as árvores que abanam com o passar do vento e as estradas desertas é que me despertam para a existência. Estas cousas reportam-me para um tempo em que havia horas para parar a contemplar as nuvens que se moviam no céu azul, ouvir os sinos da igreja, correr pelos corredores da escola, nos dias que correm perco a noção da voz dos professores se desvio o olhar para a janela, ouço agora os sinos de uma igreja diferente muito ao longe como se de uma ilusão se tratasse e quando vejo e ouço os meninos alegres a brincarem parece-me uma selva em que sou incapaz de me aventurar. Porém sinto que nunca houve em mim uma verdadeira separação da criança que fui e da pessoa-no-meio que sou agora. Continuo a amar as cousas simples,os sorrisos sinceros e o pêlo dos animais, mas a nostalgia e a melancolia que sempre pairou sobre mim afastam-me de uma vivência leviana e aproximam-me com robustez para uma vida de sentires profundos e lacrimejantes. Estou a um ponto equidistante das extremidades da felicidade e da tristeza, no centro de uma vida que podia ser afortunada ou poética. No meio do que podia ser e do que foi.
 As horas passam de forma constante, mas quando me distraio saltam por cima umas das outras e passam velozmente para um número muito distante de forma silenciosa e trapaceira, e quando vou a confirma-las e verifico que é em muito mais cedo do que me mostram rio no meu íntimo das suas embustices falhadas. Mas de quando em vez cumprem a sua função honestamente e quem se  perde sou eu. Quando olho de relance para o relógio e vejo a quantidade de tempo que deixei passar sem aproveitar para um fim terrenamente útil, o abatimento e a sensação de incapacidade apoderam-se de mim, custa-me sentir o corpo e a alma e desejo por momentos conhecer a paz da sepultura.
Contudo a noite já caiu e como as ruas largas lá fora estão cobertas pelo manto de frio do Inverno, cá dentro está acesa a lareira e o seu calor dá-nos a terna sensação de estarmos no regaço de nossa mãe. São vinte e um de Novembro, Maria irá conceber um menino que será chamado filho de Deus, quando ele chegar só haverá regozijo nos nossos corações. E será muito em breve...
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18/11/2013

D. Maria Ruma



Sobre D. Maria Eduarda Ruma, esposa de Afonso da Maia:


Sómente Affonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativa e triste, tossia sempre pelas salas. Á noite sentava-se ao fogão, suspirava e ficava calada...

Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo áquella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada, abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas arvores, o seu coração não estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa, nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoção (a devoção dos Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se áquella hostilidade ambiente que ella sentia em redor contra os «papistas». E só se satisfazia á noite, indo refugiar-se no sotão com as creadas portuguezas, para resar o terço agachada n'uma esteira - gosando ali, n'esse murmurio d'ave-marias em paiz protestante, o encanto de uma conjuração catholica!

Os Maias, Eça de Queirós


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12/11/2013

Amor supersticioso da água


Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho borralheiro. N'aquella edade, de verão ou de inverno, ao romper do sol, estava a pé, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da manhã que era um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor supersticioso da agoa; e costumava dizer que nada havia melhor para o homem - que sabor d'agoa, som d'agoa, e vista d'agoa.



Os Maias, Eça de Queirós
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