"Meu caminho é por mim fora."

09/07/2013

Último dia de festas


O último dia de festas trazia-me sempre uma nostalgia, uma saudade forte do som, das luzes, do movimento.  Hoje, pareceu-me uma ilusão, uma recordação de infância muito ténue. As pessoas a passarem em grupos na rua, tão felizes e vaidosas, eu tenho-as visto de longe, junto à coluna da varanda, sei a cara de cada uma  e dentro de mim a inveja reprimida, a apatia, a condenação.
Em todos os dias de festas, as ruas junto à igreja  iluminam-se e abrem-se para a população. Costumava ser a imagem mais bonita, a melhor sensação, toda Rebordosa estava num profundo regozijo. No Domingo chegamos a ser nós a fazer a passadeira para a procissão, mas isso ficou no passado e as flores não são tão bonitas desde então. Nada é tão bonito desde esses dias! Os andores tão majestosos não têm mais tantos olhares para os contemplar e até eu tenho falhas de memória ao tentar lembrar-me de todos os seus nomes. O Sol bateu com muita intensidade sobre esta pequena cidade, durante todos estes dias. Não saí de casa, enquanto que a festa se adentrava pelas paredes deste lar. A novidade de ter todos os santos tão próximos, chamou-me à igreja e mesmo essa estava cheia, de luzes, sons, pessoas, menos de amor. Esse amor que só se mostra no silêncio, na intimidade com Jesus e que eu tento sempre encontrar nas maiores profundezas do meu coração. E é sempre tão difícil! Procuro em mim e não há nada fundo dentro. Tenho esta sensibilidade tão grande, esta alma iluminada, este coração farto de afecto e esta escuridão, rebeldia e impaciência que me fecham para o mundo. Sofro todos os dias, em especial neste dias de festas em que os outros vêm desfilar a sua alegria, esses são todos iguais, exangues de nobreza; de espírito fraco e vazio. Eu amo-os e rezo por eles, porque eles nunca sentirão aquilo que sinto, aquilo que vivo. Eu tenho este pesar, esta inclinação natural para a tristeza. Eu amo a noite que será dia, o riso de Deus nas crianças dos outros e tento amar o que tenho até vir a morte. Essa é a única esperança.
A noite começa e fica-me a recordação do sabor dos pés de São Simão, eu esperei tanto por este dia, eu esperei tanto por este beijo. E tudo o que tinha para lhe deixar aos pés era o meu desgosto, a minha mágoa, e por instantes ofereceu-me um alívio, um intenso consolo. Um beijo, sem ter de me esticar, sem ter de esconder do padre. Um beijo e a única lembrança boa destes tempos.
O fogo-de-artifício faz-me sentir como se estivesse na rua, mas não estou. Estou no sofá do quarto, onde se passa toda  a minha vida. A avó diz-me, já deitada na cama:
- Lá  se foram as festas!
Vira-se e adormece.
É verdade, acabaram. E acaba este dia,  os sons, as luzes, o movimento. O último dia de festas trazia-me sempre uma grande nostalgia!

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06/07/2013

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