"Meu caminho é por mim fora."

30/12/2013

Dois olhos maravilhosos e irresistíveis, prontos sempre a humedecer-se


Sobre Pedro, filho de Afonso da Maia e D. Maria Eduarda Ruma:

O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e irresistiveis, promptos sempre a humedecer-se, faziam-n'o assemelhar a um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum desejo forte parecera jámais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva: só ás vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tomára birra ao Padre Vasques, mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um fraco; e esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a espaços em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, murcho, amarello, com as olheiras fundas e já velho. O seu unico sentimento vivo, intenso, até ahi, fôra a paixão pela mãe.

Os Maias, Eça de Queirós
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29/12/2013

Tarde de Agosto



Uma melodia suave inundava a casa naquela tarde de Agosto, os raios de sol desciam loucos do céu, no jardim as esbeltas árvores proporcionavam arejadas sombras, tudo era favorável ao sossego e ao descanso, contudo uma inquietação pairava sobre o espírito do velho. Sentado num banco do jardim pensava que tormento era aquele que viera tão de mansinho apoderar-se de sua alma, acabar com o que restava dele. Uma melancolia estava desperta, tudo não passava de uma estranha confusão de espírito: o jardim representava tudo o que havia de melhor no mundo, mas a dor que lhe consumia era muito poderosa.     
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21/11/2013

Um Natal que está breve


As cadelas estão a par deitadas no sofá junto a mim, a sua quietude pede por carinhos depois de um dia agitado a correrem pela casa e eu estou perto a zelar para que nada as perturbe enquanto dormem. A noite já caiu e como as ruas largas lá fora estão cobertas pelo manto de frio do Inverno, cá dentro está acesa a lareira e o seu calor dá-nos a terna sensação de estarmos no regaço de nossa mãe.
Agora que reflicto nos dias mansos que têm corrido dou por mim a ir ao encontro do Futuro a viver os dias do Passado, porque a rotina confunde-se e não tenho a total certeza de estar em frente a um novo dia ou a um caminho habitualmente trilhado. Sei instintivamente a onde me levam estas passagens, os rostos com os quais partilho a vivência sei-os de cor e nada do que me dizem soa a novo. Os sonhos são a minha única esperança, a minha derradeira luz num mundo desordenado e sórdido e as lembranças da pessoa amada o único bálsamo, o único lugar de conforto e tranquilidade. Assi como um eremita eu vivo sem companhia, só em mim mesma. Sou como um lago que permanentemente fechado numa depressão sonha ser rio e correr ligeirinho para o mar, mas como rouxinol na gaiola vou cantando para quem passa sem poder nunca ergue-me alto nos céus.
O Presente tem-se mantido uma surpresa previsível e embora ouça por aí elogios e repreensões da voz do mundo as árvores que abanam com o passar do vento e as estradas desertas é que me despertam para a existência. Estas cousas reportam-me para um tempo em que havia horas para parar a contemplar as nuvens que se moviam no céu azul, ouvir os sinos da igreja, correr pelos corredores da escola, nos dias que correm perco a noção da voz dos professores se desvio o olhar para a janela, ouço agora os sinos de uma igreja diferente muito ao longe como se de uma ilusão se tratasse e quando vejo e ouço os meninos alegres a brincarem parece-me uma selva em que sou incapaz de me aventurar. Porém sinto que nunca houve em mim uma verdadeira separação da criança que fui e da pessoa-no-meio que sou agora. Continuo a amar as cousas simples,os sorrisos sinceros e o pêlo dos animais, mas a nostalgia e a melancolia que sempre pairou sobre mim afastam-me de uma vivência leviana e aproximam-me com robustez para uma vida de sentires profundos e lacrimejantes. Estou a um ponto equidistante das extremidades da felicidade e da tristeza, no centro de uma vida que podia ser afortunada ou poética. No meio do que podia ser e do que foi.
 As horas passam de forma constante, mas quando me distraio saltam por cima umas das outras e passam velozmente para um número muito distante de forma silenciosa e trapaceira, e quando vou a confirma-las e verifico que é em muito mais cedo do que me mostram rio no meu íntimo das suas embustices falhadas. Mas de quando em vez cumprem a sua função honestamente e quem se  perde sou eu. Quando olho de relance para o relógio e vejo a quantidade de tempo que deixei passar sem aproveitar para um fim terrenamente útil, o abatimento e a sensação de incapacidade apoderam-se de mim, custa-me sentir o corpo e a alma e desejo por momentos conhecer a paz da sepultura.
Contudo a noite já caiu e como as ruas largas lá fora estão cobertas pelo manto de frio do Inverno, cá dentro está acesa a lareira e o seu calor dá-nos a terna sensação de estarmos no regaço de nossa mãe. São vinte e um de Novembro, Maria irá conceber um menino que será chamado filho de Deus, quando ele chegar só haverá regozijo nos nossos corações. E será muito em breve...
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18/11/2013

D. Maria Ruma



Sobre D. Maria Eduarda Ruma, esposa de Afonso da Maia:


Sómente Affonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativa e triste, tossia sempre pelas salas. Á noite sentava-se ao fogão, suspirava e ficava calada...

Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo áquella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada, abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas arvores, o seu coração não estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa, nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoção (a devoção dos Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se áquella hostilidade ambiente que ella sentia em redor contra os «papistas». E só se satisfazia á noite, indo refugiar-se no sotão com as creadas portuguezas, para resar o terço agachada n'uma esteira - gosando ali, n'esse murmurio d'ave-marias em paiz protestante, o encanto de uma conjuração catholica!

Os Maias, Eça de Queirós


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12/11/2013

Amor supersticioso da água


Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho borralheiro. N'aquella edade, de verão ou de inverno, ao romper do sol, estava a pé, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da manhã que era um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor supersticioso da agoa; e costumava dizer que nada havia melhor para o homem - que sabor d'agoa, som d'agoa, e vista d'agoa.



Os Maias, Eça de Queirós
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19/10/2013

Seis horas



A avó acordou antes mesmo das seis horas, vi-a ir pousar o relógio perto da televisão. Batiam seis da manhã. O meu telemóvel despertou logo depois. Eu acordei como a prever que o despertador ia tocar logo a seguir. Fechei os olhos e atentei-me ao sono novamente, enquanto a avó se passeava pela casa a arrumar-se para ir a Fátima. Acordei mais tarde com um leve beijo de despedida, desejei-lhe boa viagem e ela agradeceu com voz doce. Voltou novamente a casa não tardou, calcei-lhe as botas e foi. Estava a chover.
O tempo foi-se espreguiçando morosamente nos ponteiros do relógio. Não houve um único som de histerismo durante toda a manhã. Comemos frango e eu escapei-me da sopa. Pareceu-me que o dia não podia correr melhor, mas a tristeza conhece atalhos muito mais rápidos que os meus caminhos direitos. Apanhou-me na curva. Encheu-me os olhos e esvaziou-os, como rio a chegar ao mar. Arrastei-me pelo quarto e amaldiçoei todos os santos.

O resto do dia não deve ser melhor.
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27/09/2013

23/09/2013

21/09/2013

Foi ser feliz


9.6.2011

Ele chegou, amigo com a felicidade na algibeira, num dia comum de Outono. Ao contrário de todos os outros não cheirava a perfume, trazia os aromas da infância e nos seus lábios o sorriso sincero de amigo esquecido na memória. Mãos nos bolsos, roupa singela no corpo franzino, o Sol enchia os seus cabelos e inundava a minha alma de vento, o vento que quase me permitia voar. A sua face preenchida de luz chamou a minha atenção para as suas histórias de mundos longínquos, ele já viajara até o inimaginável e eu ouvia-o com a mente cheia dos mais coloridos pensamentos. Os amigos viajam sempre por este mundo inteiro, mas voltam sempre para casa.

A minha mão enrugada pousou na manita jovem dele, é fantástico como depois de tanto tempo ele permanecia… assim, tão novo!  Nada nele mudou. O grande amigo que gostava de escrever histórias de aventuras, o amigo que tinha uma cadelinha de nome Lucy, o amigo que já era mais que irmão e esperava as noites para montar as estrelas. Com ele aprendi o valor de uma amizade. Nunca me esqueci do seu significado, enquanto fico a baloiçar no banco… ele havia dito que quando a velhice chegasse haveria de chegar a solidão, agora acontece sempre. Mas ele foi ser feliz e eu fiquei não muito longe da casa materna. Voltou décadas depois, voltou tão novo como aquando a sua partida. Agora me arrependo, amigo, de não te ter seguido! Talvez pudéssemos encontrar a juventude eterna, juntos. Sei que não pôde traze-la numa caixinha mágica, mas sei também a satisfação que sinto dentro do peito.  
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28/08/2013

A Fofinha parece triste


"A Fofinha parece triste!", penso e digo para  a família. Não é a cadela que roía, brincava e ladrava como dantes. Segue-me para todos os cantos da casa, excepto para o quarto, porque a avó não quer. Mas hoje é excepção. A avó saiu em plena Quarta-feira para uma excursão em Lamego, os pais não foram trabalhar e saíram há pouco para o jogo do Albano. Pergunto-me se será feriado. Fiquei-me. Eu e a Fofinha. Não sei onde param a Piggy e o Miguel Relvas. A Fofinha deitou-se perto de mim, partilhamos chocolate e pêssego ao som de Art Sullivan. Parece-me uma tarde de Quarta muito comum, apesar de tudo. O tempo passa de forma constante e a cadela está sossegada ao fundo da cama. Parece-me triste. E quer-me parecer que tem ciúmes da nova cadelinha. Arrasta-se pela casa, se lhe tocamos faz ar rezingão, não se interessa muito pela comida, apenas continua a ladrar e a atentar-se a morder os desconhecidos. Tem um ar desanimado e velho. Parece-me mais pesada, mas a mãe diz que é impressão minha, que não come quase nada. E na verdade, a mim tudo me parece pesado... mais pesado.
Estamos no quarto e embora queira estar só, posso partilhar o espaço com a Fofinha. Toda a casa está na escuridão, excepto o quarto iluminado por um candeeiro, que lhe dá um aspecto meio que amarelado. A cadela desperta com o barulho da porta de entrada. Corre para a porta do quarto e obriga-me a ir abri-la. Ela faz-me lembrar de mim. Ora rosna e aparenta fazer mal, ora fica-se na preguiça, ora é acordada por uma alegria  pouco duradoura. Mas nesses intervalos de mau humor canino e de alegria pelo som da porta parece-me, simplesmente, triste.
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27/08/2013

Aborrecimento


A música começa, escolho a mais forte, a mais feroz na melodia. Agito-me freneticamente ao seu som, lembro-me um cão que precisa de gastar as energias para acalmar. Mexo os pés com violência e os braços com leveza, sem nenhum sentido de sensualidade ou de belo, apenas um louco que precisa de sossegar-se. Esvazio a garrafa, bebo mais do que como. Ouço a mesma música até saber as notas de cor e a seguir passo para uma mais pesada. Depois de encharcado pelo suor, deito-me estendido na cama e afogo-me outra vez na apatia.
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08/08/2013

Estrugido em Disagero


A avó mandou-me fazer estrugido. Cortei metade de uma cebola para o tacho e perguntei:
- Já chega?
- Não! É preciso a cebola inteira!
- Que exagero!
- Não é disagero não!
Ri-me por entre dentes:
- "Exagero", ´vó, "exagero"!
Respondeu zangada:
- Pronto, se sabes corrige-me!
Saiu da cozinha e foi regar o jardim.

Voltei-me para o meu irmão que estava lá perto e disse a gozar:
- Ai! que disagero, que disagero!
Respondeu-me muito calmamente corrigindo-me:
-  "Exagero", Diana, "exagero"...!


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06/08/2013

05/08/2013

Numa tarde qualquer de Domingo, num documento intitulado Rita, André, Ângela


Saio ao terraço, para ver o dia. Tarde de Sol e frio. Tarde de Domingo.
Regresso novamente ao sofá. Repouso agora, que nada há para fazer. Os dias agitados, terminam num Domingo sossegado. Não há preocupação que me desperte desta apatia. Os cães ladram lá fora, no longínquo. As flores procuram o Sol. As pessoas curvam-se para a televisão. Tudo em demasia calma, tudo na ordem.
Eu, na minha tranquilidade relembro certos episódios, certos rostos, certos sentimentos. E o relógio da igreja acaba de marcar três horas da tarde. Talvez, não devesse estar na solidão, sentada no sofá a pensar, mas talvez se eu cá não estivesse eu não seria como sou.

É estranho pensar, por quantos caminhos se pode vaguear sentada de perna cruzada. Mas, eu agora penso na pessoa em que me tornei. Não sou aquilo que outrora ambicionava ser, mas eu mudei e os meus objectivos mudaram comigo. Eu satisfaço-me, eu sou a pessoa que quero. Estou numa busca interior da felicidade, porque eu sei que não a encontrei em lado algum, excepto dentro da minha alma. Mas é difícil! Enquanto não a alcanço ando de mãos dadas com a tristeza e com a moleza. 
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09/07/2013

Último dia de festas


O último dia de festas trazia-me sempre uma nostalgia, uma saudade forte do som, das luzes, do movimento.  Hoje, pareceu-me uma ilusão, uma recordação de infância muito ténue. As pessoas a passarem em grupos na rua, tão felizes e vaidosas, eu tenho-as visto de longe, junto à coluna da varanda, sei a cara de cada uma  e dentro de mim a inveja reprimida, a apatia, a condenação.
Em todos os dias de festas, as ruas junto à igreja  iluminam-se e abrem-se para a população. Costumava ser a imagem mais bonita, a melhor sensação, toda Rebordosa estava num profundo regozijo. No Domingo chegamos a ser nós a fazer a passadeira para a procissão, mas isso ficou no passado e as flores não são tão bonitas desde então. Nada é tão bonito desde esses dias! Os andores tão majestosos não têm mais tantos olhares para os contemplar e até eu tenho falhas de memória ao tentar lembrar-me de todos os seus nomes. O Sol bateu com muita intensidade sobre esta pequena cidade, durante todos estes dias. Não saí de casa, enquanto que a festa se adentrava pelas paredes deste lar. A novidade de ter todos os santos tão próximos, chamou-me à igreja e mesmo essa estava cheia, de luzes, sons, pessoas, menos de amor. Esse amor que só se mostra no silêncio, na intimidade com Jesus e que eu tento sempre encontrar nas maiores profundezas do meu coração. E é sempre tão difícil! Procuro em mim e não há nada fundo dentro. Tenho esta sensibilidade tão grande, esta alma iluminada, este coração farto de afecto e esta escuridão, rebeldia e impaciência que me fecham para o mundo. Sofro todos os dias, em especial neste dias de festas em que os outros vêm desfilar a sua alegria, esses são todos iguais, exangues de nobreza; de espírito fraco e vazio. Eu amo-os e rezo por eles, porque eles nunca sentirão aquilo que sinto, aquilo que vivo. Eu tenho este pesar, esta inclinação natural para a tristeza. Eu amo a noite que será dia, o riso de Deus nas crianças dos outros e tento amar o que tenho até vir a morte. Essa é a única esperança.
A noite começa e fica-me a recordação do sabor dos pés de São Simão, eu esperei tanto por este dia, eu esperei tanto por este beijo. E tudo o que tinha para lhe deixar aos pés era o meu desgosto, a minha mágoa, e por instantes ofereceu-me um alívio, um intenso consolo. Um beijo, sem ter de me esticar, sem ter de esconder do padre. Um beijo e a única lembrança boa destes tempos.
O fogo-de-artifício faz-me sentir como se estivesse na rua, mas não estou. Estou no sofá do quarto, onde se passa toda  a minha vida. A avó diz-me, já deitada na cama:
- Lá  se foram as festas!
Vira-se e adormece.
É verdade, acabaram. E acaba este dia,  os sons, as luzes, o movimento. O último dia de festas trazia-me sempre uma grande nostalgia!

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06/07/2013

30/06/2013

Duplica a velocidade


"Polícias ressuscitam
Outros de veículos
Carro nas proximidades explodem
Flutuam (menor gravidade)
Super velocidade
Condutores agressivos
Melhor manipulação
Todos os carros ficam cor de rosa
Flutuam sobre a água
Rodas mais largas
Barcos voam
Todos os carros ficam pretos
Carros ficam invisíveis
Duplica a velocidade
Outros

Acelera o tempo

Retarda o tempo" 


(A mim sempre me pareceu um poema. ) 
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16/05/2013

Chove na véspera


Chove. Na véspera de ser, chove. E o dia parece-me igual a todos os outros. Na verdade, eu sempre me questionei porque é que Jesus morria antes de nascer, todos os anos!
Nos espelhos há "demónios dentro" e eu miro-me neles. Na igreja um grande Cristo pregado e eu sou Ele. Tenho inda na lembrança o querer beijar os pés de São Simão e não poder e agora hei-de de ter sempre de me curvar! Na minha memória, muitas casas velhas, onde o vento bate com força; outros tantos risos dos miúdos que eu invejei; e falsas promessas de felicidade, fizeram da minha vida um desenrolar de sonhos que se repetem e se realizam tarde de mais.
Mas neste dia um Anjo veio-me cumprimentar, cheguei a horas à escola e pareceu-me que o dia passou rápido. Em casa não tenho querido que ninguém fique perto de mim por muito tempo. Fazem barulho lá fora e isso basta-me. Preocupa-me que as horas sejam tão breves e o tempo da Morte se aproxime.
E agora, tal como Cristo, sofro a pouco tempo de nascer!
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09/03/2013

07/03/2013

Madalena


"Nem um som, nem a presença duma aragem a quebrar a solidão que a cercava. Apenas num céu em fim de incêndio um mormaço cerrado.
Abriu de todo os olhos turvos. Entre as pernas, numa poça de sangue, estava caído e morto o filho. Carne sem vida, vermelha e suja. O segredo dela e de Deus!..."

Miguel Torga, "Madalena", Bichos 

Miguel Torga lembrou-me que nem sempre é para ser...
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06/03/2013

Trinta e Três


E se agora morto, ou muito débil ... tu foste-nos a esperança e essa esperança a luz da nossa vida.
Terias o nome acabada em "- el" ou começado em "Al", talvez. E ias crescer tão alto quanto um arranha-céus.
Se escolheste o 33, talvez também esse fosse o número perfeito para deixar-nos. Mas devias saber que há um tempo para amar e para morrer e o tempo de amor foi curto de mais!
Ia estrear-me como co-avô, se tu o quisesses ... e não quiseste. Deixaste-nos a desordem, a distância, os silêncios e a dor.
E a dor há-de ferir por toda a vida!
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23/02/2013

Sono


A mãe mandou-me deitar, mas fiquei para ouvir uma última canção de amor. E as imagens que passam pelo ecrã, os romances de telenovela, as imagens de pessoas perfeitas já não me satisfazem! O mais certo, o mais feliz é tombar na cama e ficar pela escuridão do sono sem sonhos. 
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17/02/2013

Dentro dos Meus Olhos



  A minha mãe aparecia e desaparecia. A casa era um labirinto de sombras. O quintal suportava o tempo dos pessegueiros. As ruas da vila aproveitavam o descanso. Era um serão do início de Setembro, um silêncio morno, a ideia de um lago. Era a véspera de eu fazer doze anos, estava sentado no último degrau da porta do quintal. As fitas caíam-me pelos ombros, cabelos compridos de plástico colorido, tocavam-me as costas.   Eu estava em tronco nu, ombros finos. Se me encontrasse, entrava no mundo da casa: a minha mãe a fazer tarefas secretas, a mover-se entre as coisas, debaixo de luzes apagadas, a casa fresca e escura, ângulos negros desenhados no lugar onde sabíamos estarem os móveis. Se me inclinasse: o quintal. Depois dos muros, as ruas da vila. O quintal não suportava mesmo o tempo nos ramos dos pessegueiros, mas parecia. A noite tinha muitas estrelas. Hoje, não me recordo do que tinha feito nesse dia. Os meus amigos tinham nomes. Nesse tempo, eu e os meus amigos passávamos tardes inteiras juntos. É muito provável que os tenha encontrado nesse dia. Se conversámos, falamos de Agosto que ainda trazia na cor da pele, ou falámos da escola, que voltava a ser possível. Embora me faltem pormenores, aquilo que sei é que,  pela memória, sou capaz de regressar àquele serão, 1986, em que estava sentado no último degrau da porta do quintal. O meu pai tinha adormecido havia muito tempo, o seu sono existia dentro de um dos quartos da casa.

  Hoje eu sei quanta serenidade é necessária para que um pai adormeça antes do seu filho. Aqui, onde estou, sei isso. São paredes à minha volta, a seguir está Fevereiro, o frio. Para além do som das teclas do computador, o ponteiro dos segundos de dois relógios , alternados, um aqui outro ali. Depois das paredes, às vezes, um autocarro, ou silêncio. Este lugar, este tempo, sob o ponto de vista de quem está rodeado de palavras, a escrever, como é o caso, pode ser comparado a estar sentado no último degrau da porta do quintal, na véspera de fazer doze anos. Como nesse dia, se me encostar ou inclinar, entro em mundos diferentes. Em 1986, eu estava numa situação que pode ser comparada a estar aqui, agora, (...)  e isso é extraordinário, conforme se verá.
  Uma razão forte para essa admiração é que, aqui, nesta penumbra, paredes, ouço agora uma ambulância, dois relógios, posso imaginar todo o futuro. Essa é uma possibilidade incontestável. Não sei distinguir o possível do impossível, mas sou capaz de imaginá-la a ambos. E talvez a verdade esteja espalhada ou escondida em alguma parte desse infinito. Se isso não é extraordinário, desisto. Impressionante também é o facto de que quase tudo o que aqui disse sobre mim, pode igualmente ser dito sobre ti. Para este efeito, os meus olhos são os teus. Também tu estás num hoje em que podes recordar e em que podes imaginar. Sim, tu. Se não conheces a véspera de fazeres doze anos, com a sombra da tua mãe, etc., é porque conheces outra ocasião que apenas tu saberás e que poderás lembrar hoje ou, mais tarde, num dia em que estejas assim, entre memórias e possibilidades. O tempo não passa depressa, mas passa.  O quintal nunca suportou o seu peso nos ramos dos pessegueiros. Apenas parecia muito nitidamente que era assim. Às vezes, ainda parece. Existe a precisão geométrica e os registos; no entanto, depois do amor, provou-se que nada tem que ficar como está ou de ser como é.
  Hoje, tenho estas paredes à minha volta e a suspeita de que, entre o que sei está tanto daquilo que serei. O que ainda não está aqui, iniciou já o seu caminho, dirige-se ao ponto onde me encontrará. É assim contigo também. É necessária paz para aceitar esta certeza simples, é necessária uma mistura de ponderação e entusiasmo para sermos capazes de desenhá-la pelos nossos contornos, tanto quanto possível, claro. Isto que parece banal são os desafios que a vida nos coloca. Aqui, neste momento, somos uma espécie de monstro num jogo de computador, carregamos o passado e o futuro, temos uma forma assustadora. E, no entanto, para lá da abstracção, este é um lugar normal, aquecido, e, hoje, aqui, é dia 6 de Fevereiro de 2009, escrevo agora este texto e, às nove horas da noite, passam doze anos sobre o instante em que o meu filho mais velho nasceu. 


Luís Peixoto
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31/01/2013


9.6.2012
É Terça-feira de Primavera, mas chove e o frio obriga-nos ao agasalho. É frustrante sentir como os dias se vão e como ficamos cada vez mais velhos. Sinto-me incapaz de um pensamento longo, coerente, intenso, acho que perco  um pouco de mim em cada instante, um pouco de diversão, de vivacidade, de auto-conhecimento... A quietude toma-me por completo, a ansiedade do dia de ontem persiste e eu amo-me mesmo assi. Eu quero que seja para sempre, todos os meus sentires, tudo o que é meu, tudo o que é de mim. Porque é Primavera e chove... Porque há felicidade e sofro!
Não tenho a certeza, a vontade de fazer algo. Como se os meus ossos se atrofiassem e encaixassem eu fico estática, sentada, vazia. Dói-me a mão, as pernas de estarem cruzadas, a parte posterior de estar sentada, as costas de estar encostada, dói-me o que sinto e o que não sinto.
Nos meus pensamentos revejo todas as formas da minha morte.

          Eu quero especialmente uma matilha a atacar-me ferozmente e a arrancar a minha carne. 
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16/01/2013

As Férias Grandes do Verão


Era 2011 e a professora gostou.

Eu levantei-me, vesti-me, saciei a fome, li, almocei, liguei o computador, desliguei o computador, fiquei parada em frente à janela, vi televisão, o tempo passou com rapidez e deitei-me. 
Em quase todos os dias de Verão tive a a agradável companhia da Ângela. No entanto o tempo em que estive sozinha foi o mais imprescindível. Ser um animal racional é maravilhoso, é como ter um recipiente vazio e poder enche-lo dos mais fantásticos sentimentos e pensamentos. No tempo de solidão há a possibilidade de descobrir o que ao longo dos anos pusemos na caixa mágica. E estas férias foram o tempo que precisava para me sentar e pensar, nada mais do que isso. 
Ao contrário das férias últimas, o tempo pareceu-me ter passado velozmente pelo calendário. É certo que foram muitas mais as distracções, no entanto sinto que evoluí imenso de um Verão para outro e isso reflecte-se na maneira como penso e consequentemente como vivo.
Os dias de Sol, a água a escorrer, os meninos juntos e alegria estragada de nada fazer. O trabalho é demasiado desgastante, mas a inércia é tão favorável como desoladora. 
Porque no Verão eu levantei-me, vesti-me, saciei a fome, li, almocei, liguei o computador, desliguei o computador, fiquei parada em frente à janela, vi televisão, o tempo passou com rapidez e deitei-me.

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06/01/2013

Estive dois dias sem ir à escola


Estive dois dias sem ir à escola. Quando voltei, ia mais desatento do que nunca. Acontecia com frequência ser apanhado alheio à lição, era o pior que se podia fazer ao professor! Espetava o dedo na minha direcção:
- Ora diga, senhor Rui!
Tremia na carteira. Nessas ocasiões fazia-se um silêncio enorme na aula.
- Não entendi a pergunta...
O professor ficava irritado:
- Não entendeu ou não ouviu?

Manuel da Fonseca
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"Meu caminho é por mim fora."

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